segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Machete will kill again

Quentin Tarantino e Robert Rodriguez criaram uma marca, um estilo bem próprio de fazer cinema. Tarantino com um senso estético e narrativo mais apurado, Rodriguez um tanto mais relapso e descompromissado. Mas ambos apostam em um cinema pop, meio sujo e pé no chão, cheio de referências e pedindo para ser cult. Algumas vezes a fórmula funciona, outras, mostra-se mais cansativa.

Machete, novo trabalho de Rodriguez, fica no meio do caminho. Por um lado, é cinema de entretenimento, divertido pacas, trash no melhor sentido do termo; por outro, tenta a todo custo ser cool e acaba enchendo um pouco a paciência. A começar pela própria origem do filme (derivado de um falso trailer exibido no projeto "Grindhouse", da dupla Tarantino-Rodruiguez), tudo é tão calculado para ser nerd que o longa perde um pouco o foco, e Rodriguez exagera na dose.

Rodriguez, apesar de tentar, também não é nenhum Tarantino, e o que poderia ser um filme cheio de imagens icônicas e possibilidades narrativas se contenta apenas em ser uma produção divertida, vagabunda e com muito sangue e membros decepados. Nada contra. Mas Tarantino sabe fazer isso com mais embasamento, até mais embasamento cinematográfico, seja lá o que isso signifique. Rodriguez coloca uma câmera lenta aqui, outra acolá, faz muita piada com tudo e acha que isso já é o suficiente para ganhar o público.

Nos resta então aproveitar o que o filme tem de melhor a oferecer. O humor escrachado, a ação descelebrada e o elenco nonsense. Danny Trejo é o protagonista perfeito para esse tipo de filme. Robert De Niro, Jessica Alba e Michelle Rodriguez emprestam o carisma ao longa. Lindsay Lohan brinca com sua persona. E Steven Seagal, Don Johnson (da série "Miami Vice") e Jeff Fahey (de "O Passageiro do Futuro", alguém lembra?) são resgatados do limbo dos atores esquecidos.

Quanto à trama, para variar, envolve vingança. O resto é detalhe...


sábado, 11 de dezembro de 2010

Cinema claustrofobia

Se o mundo fosse justo, Enterrado Vivo ganharia destaque e não seria apenas mais uma estreia curiosa no circuito. Se o mundo fosse realmente justo, o filme teria, inclusive, chances de levar pelo menos indicações ao Oscar de melhor roteiro original, fotografia e, por que não, ator para Ryan Reynolds. Mas o mundo está longe de ser justo, então o longa está tendo um lançamento pequeno e sem muita repercussão.

Mesmo não sendo um filme perfeito, não se pode negar que Enterrado Vivo seja acima de tudo uma produção corajosa. Com uma história simples (mas cheia de leituras), o longa traz uma trama inusitada. O personagem de Reynolds acorda enterrado dentro de um caixão, com apenas um isqueiro, uma lanterna e um celular. Depois descobrimos que ele é um motorista de caminhão e está no Iraque, tendo sido sequestrado por bandidos/terroristas que exigem um resgate em dinheiro.

A partir daí, o diretor espanhol Rodrigo Cortés constrói um filme tenso e claustrofóbico que coloca todo seu peso sob os ombros de Ryan Reynolds. "Enterrado Vivo" dura cerca de uma hora e meia e se passa todo dentro do caixão, sem nenhum tipo de alívio para o espectador, que experencia a mesma sensação de Reynolds, preso em um espaço pequeno, apertado, com pouco ar e sem iluminação (metaforicamente quase remetendo à sala escura do cinema).

Se o ator é quem segura a onda e torna a história plausível para o espectador, Cortés toma as decisões certas e não hesita em mostrar longos planos escuros no qual só ouvimos o que acontece e fotografar o filme apenas com as luzes dos objetos que Reynolds tem em mãos (o isqueiro, a tela do celular, uma lanterna e dois sinalizadores).

O resultado é um filme intenso, que passa longe de ser arrastado ou tedioso, e que ainda lança uma série de críticas ao sistema americano: seja à política de resgate do exército americano, que se recusa a negociar com os sequestradores/terroristas, seja ao modo como a empresa que contrata Reynolds lida com a situação.

Filmado sem grandes concessões, o filme só perde um pouco do impacto no final, quando o diretor se alonga demais para concluir o longa e acaba apostando em resoluções um tanto apelativas. A impressão que fica é que Cortés gostou demais da ideia da produção e não soube abrir mão de situações que não agregam nada à trama.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Rede Social e outros filmes...

David Fincher é o cara. O diretor começou a carreira fazendo comerciais e ficou famoso comandando videoclipes de gente como Madonna (Vogue e Express Yourself são dele), Paula Abdul, Rolling Stones, Aerosmith e outros. Depois migrou para o cinema e, se não virou um dos melhores diretores contemporâneos, concebeu pelo menos duas obras-primas cinematográficas dos anos 90 (Seven e Clube da Luta). Dono de um estilo visual bastante peculiar e com um olhar narrativo apurado, Fincher virou referência e sinônimo de ousadia.

Não é de estranhar que A Rede Social seja um belo exercício cinematográfico. O filme, que narra a fundação de uma das maiores e mais importantes redes sociais da atualidade (o Facebook), tinha tudo para ser chato e desinteressante para que não é familiar ao assunto. Mas com um roteiro perfeito em mãos e um elenco jovem e atuando na medida, Fincher deixa um pouco de lado um olhar mais estilizado e aposta na história, construindo um longa envolvente e que prende a atenção unicamente pela trama.

Claro que as estripulias estéticas comuns ao diretor estão presentes (a edição vai e volta no tempo; a fotografia remete a seus trabalhos anteriores, com cores menos vivas e uma aura quase cirúrgica e clean; os enquadramentos procuram fugir do convencional; a trilha sonora é peça chave etc.), mas aqui elas são menos, e A Rede Social funciona por ser um ótimo exercício narrativo, vigoroso e passional. Entre traições, intrigas e muitas acusações, os personagens são a mola-mestra do longa.

E se algo pesa contra o filme, são os próprios personagens e a forma como a produção as coloca em primeiro plano que pode diminuir um pouco seu valor. Mesquinhos, sem escrúpulos e pretensiosos, eles querem mudar o mundo e acabam se tornando figuras pouco carismáticas aos olhos do público. Ainda que isso resulte em um distanciamento (é difícil criar empatia por alguém), o longa busca outras formas de envolver o espectador (seja pelo roteiro brilhante cheio de diálogos aguçados, seja simplemente pela honestidade com que os personagens são representados pelo elenco). O resultado é um filme ágil, moderno e impactante. A prova que hoje em dia é possível sim fazer cinema para gente grande.

Um assassino melancólico - George Clooney sempre me pareceu um ator limitado e que conquistava mais pelo carisma do que propriamente pelo talento. Depois de boas atuações em Conduta de Risco e Amor Sem Escalas, o ator volta a demonstrar competência mais uma vez no interessante Um Homem Misterioso, filme de espionagem contemplativo e com ares de produção europeia. Dirigido pelo renomado fotógrafo e diretor de clipes Anton Corbijn, Um Homem Misterioso ousa por não adotar o ritmo imposto pelos filmes de Jason Bourne ou James Bond e apostar mais na caracterização do personagem principal. Mesmo tendo uma trama que não vai a lugar algum, o filme é bem dirigido e bonito de se ver.

Um Woody Allen menor - Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos é um dos piores trabalhos de Woody Allen. Mal dirigido e com um bom elenco desperdiçado (Naomi Watts, Anthony Hopkins, Josh Brolin etc.), o filme é repetitivo e traz um dos roteiros menos inspirados do cineasta. Arrastado e sem muito propósito, o filme começa sem dizer a que veio e termina quase como se tivesse sido abandonado pelo diretor. O universo é aquele mesmo típico de Woody Allen, só que agora menos interessante, mais chato e com sotaque britânico.

Tropa de Elite 2 - O filme pode ser acusado de fascista e o que for, mas não dá para negar que é um dos melhores exemplares do cinema nacional, mostrando que a gente pode sim fazer coisas de qualidade. José Padilha é nosso Oliver Stone, sabe manipular como ninguém e construir teorias e mais teorias por meio de imagens e de sons. E que imagens e sons... Tropa de Elite 2 é filmado com sabedoria e traz cada peça no lugar: do roteiro preciso, passando pelas atuações viscerais e chegando à produção caprichadíssima, o filme é quase a redenção do cinema nacional. José Padilha não tem o menor pudor em dar um soco no estômago do espectador e cuspir na cara dos cineastas brasileiros que ao invés de apostar em um bom cinema perdem tempo tentando fazer teses audiovisuais sem sentido. Não é a toa que o filme virou o exemplar mais visto do nosso cinema.

domingo, 28 de novembro de 2010

Três vezes Piranha


Sempre gostei de filmes de terror. E também sempre tive uma tendência a querer ver coisas classificadas como trash, mesmo muita gente não entendendo essas minhas vontades. Aproveitando então a estreia do remake de Piranha (que, infelizmente, perdi de ver em versão 3D nos cinemas), resolvi rever os clássicos trash cults lançados em meados dos anos 1980. Já tinha vistos os filmes quando adolescente, mas não lembrava nada deles, apenas de que eram bem ruins.

Claro que ambos continuam ruins, mas até que são divertidos. O primeiro Piranha, dirigido por um desconhecido Joe Dante (que depois ficaria famoso com os dois Gremlins), é uma cópia descarada de "Tubarão", de Steven Spielberg, mentor de Dante, aliás. Com poucos recursos, efeitos de quinta e uma trama batida e cheia de furos, o filme tem como maior destaque os efeitos sonoros e as sombras utilizadas para representar as piranhas, que sabiamente são pouco mostradas.

Por incrível que pareça, Piranha 2 - Assassinas Voadoras é melhor que o primeiro. Apresentando James Cameron como diretor (depois ele estouraria com O Exterminador do Futuro), o filme é quase uma cópia do primeiro, com o adendo de as piranhas voarem (!!!). O elenco é primário (com direito a um clone oitentista do Bradley Cooper), e a trama é estapafúrdia, mas Cameron já dava indícios de saber o que fazer com uma câmera, construíndo uma narrativa tensa e que segura a atenção.

Os dois longas, lançados em 1978 e 1981, viraram cult e estão mais para trash do que para filmes de terror propriamente dito. Já o remake é uma decepção: os efeitos são melhores, óbvio, mas o tom apelativo e moralista não ajuda. Abraçando sem pena o camp, um dos grandes defeitos da produção é a pretensão de querer ser um cult. Entre muitos peitos e uma edição acelerada, o longa de Alexandre Aja fracassa por exagerar na sua tentativa de não se levar a sério.

Nem o elenco um pouco mais conhecido ajuda: dá pena ver Elisabeth Shue se prestando a ser heroína em filme de quinta; já Christopher Llyod meio que reprisa o papel de cientista maluco que o fez famoso na trilogia De Volta para o Futuro; e Ving Rhames e Richard Dreyfuss não fazem absolutamente nada a não ser virarem comida de piranha, o que convenhamos é muito pouco.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crise financeira e triângulo amoroso


Tentando pescar mais filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, acabei vendo dois exemplares bem distintos de longas que buscam propostas diversas. Um documentário que tenta explicar a crise financeira que acometeu o mundo em 2008 e uma ficção metida a moderna sobre dois amigos - um rapaz e uma garota - que se apaixonam pelo mesmo garoto.

Trabalho Interno (Inside Job) é aquele típico filme que funciona como um tapa na cara de nossa sociedade hipócrita e mesquinha. Tentando elucidar e contextualizar a crise mundial que se abateu sobre o mundo em 2008, o documentário de Charles Ferguson aposta em uma linguagem didática e ágil para explorar um tema complexo e inacessível para grande parte da população. Por meio de vários depoimentos, Ferguson faz uma análise histórica, econômica e política do mercado financeiro estadudinense, jogando luz na podridão que consome um sistema apoiado no lobby.

Sem direito a final feliz, o fime encerra mostrando uma perspectiva negra e só peca ao adotar um tom panfletário e heróico que não condiz com o que acompanhamos anteriormente. Como curiosidade, o documentário é narrado por Matt Damon, fez sucesso em Cannes e é uma das apostas para o Oscar da categoria em 2011.

Os Amores Imaginários segue caminho contrário e aposta em um viés mais poético para narrar os conflitos entre dois amigos (Maria e Francis) que se apaixonam pelo mesmo rapaz (Nicolas). Bonitinho e ingênuo, "Os Amores Imaginários" é dirigido, roteirizado e protagonizado pelo jovem canadense Xavier Dolan, que, aqui, repete os mesmos cacoetes do anterior "Eu Matei Minha Mãe".

No alto dos seus 22 anos de idade, Dolan faz um cinema para modernete ver, apostando em cores, músicas e em uma mise-en-scène quase barroca. É um cinema divertido, mas de certa forma ingênuo e um tanto caricato. Se sobra autenticidade nos personagens, falta no esquematismo de citações e interferências visuais que deixam tudo muito bonito, mas meio oco.

Emulando Almodóvar e suas cores vivas, Wong Kar-Wai e seu apreço pela cenografia, além da forma quase coreográfica com que filma atos banais, Dolan ainda paga pau para a Nouvelle Vague e sua aura intelectualóide. Tudo filmado em uma bela embalagem de encher os olhos e com direito a um pretensão que até faz bem ao filme.

"Os Amores Imaginários" é cinema para cult ver. Está longe de ser ruim, mas não deixa de ser um tanto redundante (o excesso de câmera lenta chega a incomodar, e os depoimentos são engraçados, mas só quebram a narrativa e pouco acrescentam) depois do bem mais interessante e original "Eu Matei Minha Mãe".

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um dia na vida...

Eduardo Coutinho é considerado o maior documentarista brasileiro. Isso ninguém questiona. Seus filmes sempre levantam debates e colocam, muitas vezes, o próprio cinema enquanto dispositivo em primeiro plano. Um dia na vida, que teve sua primeira e última concorrida exibição durante a programação da 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, segue caminho similiar às outras produções do diretor e faz uso de imagens aleatórias para apontar questões sobre um tema nem sempre muito claro.

O filme - ou projeto, como prefere Coutinho - nada mais é do que uma amálgama de imagens aleatórias gravadas em 19 horas de um dia qualquer da programação televisiva brasileira. A princípio o projeto parece uma crítica ao lixo que é a TV aberta (as imagens são captadas de vários canais: Globo, SBT, RedeTV, Record, Band etc), mas logo fica evidente que esse não é o intuito. Mais do que uma crítica a TV, o projeto quer mostrar o quanto a sociedade em geral é bizarra, usando a TV como espelho e reflexo dessa podridão. Tudo muito lindo no papel, mas um tanto questionável quando apresentado na tela.

Primeiro, o "filme" não tem nada de criativo, é apenas uma colagem de imagens que pretendem chocar a partir de uma edição que, palavras de Coutinha, evitam qualquer tipo de olhar ideologizante. É óbvio que esse discurso até pode funcionar na teoria, mas na prática a própria escolha das imagens de determinados canais/emissoras em determinados horários já impõe uma ideologia (novelas dividem espaço com desenhos animados, publicidade, programas policialescos, telejornais etc.)

O local e o evento escolhidos como plataforma de lançamento do projeto também refletem uma ideologia. Afinal, supostamente um público que se estapeia por um ingresso de um filme do Coutinho no maior festival de cinema do país não está acostumado a assistir imagens tão exdrúxulas como as exibidas na tela grande do Cine Livraria Cultura. Isso se reflete na própria reação do público, que gargalha e ri como se não fizesse parte daquele universo retratado na tela grande. Talvez, se exibido para um outro público, mais afeito e acostumado às mazelas exibidas na TV aberta, a reação seria outra. Seria outra também caso fosse outro cineasta e não Coutinho a frente do projeto.

Enfim, tudo suposições que ficarão no ar, já que o destino do filme/projeto é incerto. Entre dúvidas e questões colocadas na tela, a única certeza que "Um dia na Vida" deixa é que ele é o mais puro exemplar do cinema de horror, com mocinhos, vilões e clichês, mas sem direito a final feliz.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Filmes da Mostra

Trabalhar na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo não é fácil. Ainda mais quando se gosta de cinema. Você está cercado de filmes, sabe a sinopse de vários, se interessa por muitos, mas acaba não vendo quase nada. Mas ainda assim compensa. E no meio de uma rotina meio massacrante, você tenta encaixar um filme aqui e ali. A 34ª Mostra ainda não terminou, mas até agora só consegui tempo para ver dois filmes.

O primeiro, mais do que apenas ver um filme, foi uma experiência coletiva, por mais brega que isso pareça. Vi Metropolis deitado no gramado do Parque Ibirapuera, em uma puta tela grande e com direito à orquesta tocando a trilha musical do longa ao vivo. Ao fundo, o céu e as nuvens carregadas de São Paulo e um frio de rachar os dentes.

Antes de mais nada, confesso que nunca tinha visto Metropolis, só algumas cenas. Nunca fui muito fã de cinema mudo, ou silencioso, como preferem alguns. Geralmente me perco, confundo os personagens, não consigo acompanhar a narrativa e pouco me interesso pela história que está sendo contada (isso quando tem história). Mas não dá pra negar que "Metropolis" é um achado cinematográfico. Vê-lo em uma cópia restaurada e em uma tela grande dá um significado maior ainda às belas imagens do filme.

Hoje em dia, o longa pode até ter uma mensagem um tanto datada e já muito explorada pelo cinema, mas isso não tira o mérito do filme, que ecoa até hoje em termos de referências. Da história à cenografia, dá para perceber resquícios de "Metropolis" em filmes como Matrix, O Exterminador do Futuro, Batman e por aí vai, além de vários videoclipes (ver a dança da atriz que interpreta Maria, por exemplo, nos faz lembrar que as coreografias ousadas de Shakira e Britney Spears não têm nada de novas).

Se "Metropolis", ainda hoje, sobrevive ao tempo, não se pode dizer o mesmo de Atração Perigosa, segunda empreitada de Ben Affleck na direção. É um filme forte sobre assalto a bancos, com um bom elenco (com destaque para o Mad Men Jon Hamm) e uma produção de primeira. Mas o longa deixa a desejar justamente por apostar em uma caminho fácil já percorrido antes.

Entre clichês e mais clichês, temos o bandidão chamorso e boa pinta que se salva no final e uma relação amorosa mal construída entre ele (o próprio Affleck) e a subgerente refém de um dos assaltos (Rebecca Hall). Um dos problemas da produção é justamente esse: o flerte entre Affleck e Hall nunca convence, menos pelos atores e mais pelo roteiro apressado que não deixa tempo para o desenvolvimento dos personagens.

Atração Perigosa não chega a ser ruim, mas passa longe da urgência dos filmes de ação dos anos 1970 que o inspiraram ("Serpico", "Um Dia de Cão", "Operação França", por exemplo). O longa também fica devendo quando comparado à grandiosidade trágica de um "Fogo contra Fogo" (de Michael Mann) ou a tensão constante de um "O Plano Perfeito" (de Spike Lee), por exemplo. Correto e sem alçar grandes voos, "Atração Perigosa" pelo menos demonstra que Ben Affleck tem potencial como diretor, ainda que lhe falte mais coragem para quebrar regras.

sábado, 2 de outubro de 2010

"Eu matei minha mãe"



Filmes com pretensão de serem "modernos" geralmente dividem a crítica. Alguns amam as fírulas narrativas, a montagem frenética, o uso pop da trilha musical e o ar blasé e supostamente poético desses filmes que versam sobre drogas, sexo e relacionamentos em um mundo cada vez mais urbano e acelerado. Outros acham isso tudo clichê e esquemático e acreditam que tais recursos jogam o filme em um registro estético demais e emocional de menos.

Talvez a maior qualidade de Eu matei minha mãe resida justamente em conseguir um meio termo entre o emocional e o estético. O jovem Xavier Dolan, que aos 20 anos dirigiu, escreveu e protagonizou o longa, mescla com cuidado um tom melancólico com uma narrativa vigorosa, fazendo bom uso de recursos já desgastados por esse cinema dito "moderno": câmera lenta, edição picotada, registro de depoimentos confessionais em preto & branco, textos transcritos na tela etc.

Por um lado, temos todas essas estratégias narrativas que atraem um público mais jovem e dão ao longa uma cara mais "anos 2000", digamos assim. Mas de outro, temos uma trama bem construída e que exala honestidade, principalmente em razão do olhar um tanto ingênuo que Dolan atribui ao conturbado relacionamente entre mãe (Anne Dorval) e filho (Dolan). É esse olhar ingênuo, mas sincero, que impede que o filme se afunde em clichês e nos faça acreditar nessa história de desentendimentos.

"Eu matei minha mãe" é, na verdade, um longa sobre a dificuldade de comunicação. Não é um tema novo, ainda mais quando essa dificuldade parte das diferenças entre gerações de pais e filhos (Juventude Transviada, nos anos 1950, já levantava essa questão). A abordagem também não é inédita e, dos anos 1990 para cá, vários outros filmes construíram sua fama graças a uma roupagem narrativa mais pop (Trainspotting é um bom exemplo).

Mas Dolan sabe conduzir seu filme de modo poético sem soar superficial ou forçado. Talvez ele peque um pouco na construção dos dois personagens principais, exagerando na infantilidade da mãe e do filho e no modo agressivo que ambos se relacionam entre si. Um pequeno porém que não impede que "Eu matei minha mãe" funcione como um belo exercício de olhar sobre o velho conflito de gerações.

Obs: o novo filme de Dolan, Les amours imaginaires, está na programação do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Poucas palavras sobre algumas coisas

A preguiça é a maior inimiga dos blogs. Bom, pelo menos do meu. Sempre penso em textos para postar, comentários sobre filmes, shows, algum álbum ou videoclipe que me chamam a atenção. Chego até a escrever alguns deles mentalmente. Mas tudo acaba ficando no campo das ideias. Sou expert em deixar minhas ideias guardadas em algum lugar que nem eu mesmo sei onde é. Mas tudo bem, tirando uns dois ou três amigos, ninguém lê isso aqui mesmo, então a culpa por deixar esse espaço sempre no leito de morte diminui bastante.

Reclamações à parte, a cada dia que passa sou uma pessoa menos e menos cultural. Vejo menos filmes do que antes, leio menos livros, não me choco mais com videoclipes e pouco me entrego aos vícios midiáticos proporcionados pelas séries de tevê. Não me perguntem a razão, Freud deve explicar, não eu! Isso acaba me limitando um pouco para escrever, já que minha vida é meio chatinha e não anda merecedora de posts. A verdade, no entanto, é que sempre se vê um filme, ouve-se uma música, vai-se a um show ou descobre-se uma banda merecedora de algum comentário, nem que seja de poucas linhas.

Então vamos lá, comentar o pouco visto, ouvido, registrado e catalogado no meu repertório cultural:

A banda mineira Pato Fu é umas das poucas do cenário nacional que ainda me desperta algum sentimento que não seja a raiva e o desprezo. Sempre cheios de delicadeza, passeando pelo lúdico, pop e experimental, Fernanda Takai e cia me fazem acreditar que a música nacional tem salvação, mesmo sabendo que ela não tem. O último trabalho da banda, o singelo Música de Brinquedo é uma pérola da "fofice", trazendo várias releituras de clássicos do rock - nacionais e internacionais - tocados com instrumentos e sons tirados de brinquedos. Se o álbum é bem redondinho, o show de divulgação do trabalho é sensacional. Visto numa sexta à noite no Sesc Vila Mariana, o espetáculo tem uma concepção visual ao mesmo tempo simples e de encher os olhos. As versões das canções ganham vida ao vivo e são marcadas por arranjos irreverentes e delicados. Da participação dos bonecos do Giramundo, passando pelo cenário, figurinos, iluminação, tudo é perfeito e transforma a experiência de ouvir (e ver) o Pato Fu ao vivo em um espetáculo de encher os olhos... de lágrimas!

Já o show do She Wants Revenge, no Clash Club, foi uma decepção. O atraso de cerca de duas horas e um show meio improvisado e sem muita empolgação me fizeram rever minha impressão sobre a banda.

Tenho ido pouco ao cinema, não sei se por falta de empolgação ou de filmes bons. Acho que um misto dos dois. Antes que o Mundo Acabe é um belo filme sobre a adolescência. Alguns diálogos chavões e empostados diminuem um pouco a força do trabalho, assim como um personagem chato que vez ou outra resolve discutir fotografia e soltar outras pérolas do clichê. Mas o elenco entrosado e a sinceridade dos personagens compensam as falhas. Para quem não é mais adolescente, fica a nostalagia. Para os que ainda estão vivendo essa fase, a identificação é certeira. Quem sabe um dia Malhação aprenda um pouco com os filmes nacionais sobre a adolescência e deixe de ser um programa burro, feito por gente burra e assistido por gente mais burra ainda. Seria querer demais?!

O Refúgio é cinema francês em sua essência. Frio, distante e um tanto seco em se tratando de emoções. Os sentimentos dos personagens são sempre uma icógnita, e a narrativa é cheia de lacunas, o que de certa forma leva o público a se distanciar do que se vê na tela. Ainda assim é um filme válido. François Ozon é um diretor interessante e que sabe prender a atenção do espectador, mesmo que seus filmes passem longe da perfeição.

Por um curto período de tempo, o Belle & Sebastian foi a banda da minha vida. If You Feeling Sinister é um dos poucos álbuns que escuto do começo ao fim sem reclamar, além de ter canções que me desvendam em poucos refrões. Sem lançar nada desde The Life Pursuit (2006), os escoceses estão de volta com o belo Belle & Sebastian Write About Love, álbum já devidamente vazado, baixado, escutado e aprovado. Mais pop e menos retrô, o álbum traz belas composições que fogem um pouco da sonoridade sessentista caracterísitica da banda e abraçam um registro mais pop sem deixar de lado a melancolia. O disco tem participações de Norah Jones e da atriz Carey Mulligan. "I Didn´t See It Coming" e "Calculating Bimbo" são simplesmente sensacionais e de partir o coração.

Bandinhas novas às vezes me cansam. Geralmente escuto os álbuns, fico meio psycho por um tempo e logo em seguida nem lembro mais quem são. Tenho incontáveis discos (baixados, claro) de bandas que só acumulam espaço em algum CD qualquer de MP3. A maioria não chega nem a ser um rodapé no meu histórico musical. Espero que a Hurts não seja mais uma dessas. Eles, um belo duo britânico, tinham tudo para serem meio passados, afinal bebem na fonte dos esgotados anos 1980. Mas não, ao invés de apostar em um pop chichete já explorado por gente como The Ting Tings, La Roux e até a mala da Lady Gaga, eles pegam as referências oitentistas, misturam com o brit pop dos anos 90 e saem com um som melancólico que gruda, mas não enche o saco. As letras são tristes, a pegada é pop e a embalagem, cinzenta. De Happiness o álbum só tem o nome. "Devotion", com direito a participação de Kylie Minogue, "Unspoken, "Illuminated", "Evelyn" e "Blood, Tears & Gold" não param de tocar no Ipod.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um bom filme, outros nem tanto


Depois de um período de sumiço, eis que volto para fingir que me importo em atualizar isso aqui. Os filmes foram muitos. Primeiro, passei por uma temporada no Paulínia Festival de Cinema. O resultado foram alguns bons filmes (a quase comédia romântica Mallu de Bicicleta, o documentário Lixo Extraordinário e o belo curta Eu Não Quero Voltar Sozinho), outros nem tanto, caso da porcaria e bagunça narrativa de 400 contra 1, para citar só um.

Voltei e me decepcionei um pouco com o À Prova de Morte, filme do Quentin Tarantino que já há três anos mofava no depósito de alguma distribuidora sem noção. Gosto do diretor, acho "Pulp Fiction", "Kill Bill" e "Bastardos Inglórios" grandes filmes, mas, aqui, ele está mais a serviço de sua imagem de cara cool que entende e conhece cinema do que propriamente em prol da sétima arte.

Em um outro nível, também fiquei desapontado com Predadores, que destrói todo o conceito do filme clássico dos anos 1980, um dos melhores de Arnold Schwarzenegger. Na mesma onda de emular filmes do passado, outro que se dá mal é Os Mercenários, bobagem dirigida, produzida, escrita e protagonizada por Sylvester Stallone (confira resenha completa do filme aqui).


Mas nem só de filme ruim se vive um homem

Pois é, vez ou outra a gente consegue catar alguma coisa realmente boa e que valha a pena. Esse não é totalmente o caso de Destinos Ligados, mais um filme com a cansada estrutura colcha de retalhos, com várias histórias se intercalando. Mas o longa é honesto e tem três ótimas atrizes (a crítica completa pode ser lida aqui).

De realmente bom, vi só A Origem. Sim, aquele filme dirigido pelo Christopher Nolan, que coloca o espectador quase que literalmente de cabeça para baixo. Típico filme onde está tudo no lugar: roteiro esperto, direção precisa, elenco sensacional, produção caprichada, trilha sonora absurda (a crítica completa está aqui). Cinema para gente grande, dá gosto de ver e rever.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O amor no tempo
dos filmes de época


Sempre fui fascinado por filmes de época. Além dos cenários suntuosos e figurinos sofisticados, esse tipo de filme se destaca por, geralmente, investir em histórias centradas em desenlaces amorosos na maioria das vezes sem direito a final feliz. O amor e suas tragédias é uma questão central desse cinema cheio de babados, vestidos rodados, chapéus e cenas de baile. Talvez seja por isso que esses filmes nos digam tanto. Afinal, o tempo passa, o tempo voa, mas o "amor romântico" ainda é o grande mote dramático da nossa sociedade, seja na vida real ou no mundo da ficção.

Recentemente assisti a dois examplares que mostram que amar em tempos de figurinos de época (não importa qual) não é uma das coisas mais fáceis. Coincidentemente, ambos são inspirados em histórias reais, o que nos leva a crer que, em tempos passados, a vida era ditada e regida pelo amor, ainda que os valores e regras da sociedade fizessem crer que não.

Em Brilho de uma Paixão, a cineasta Jane Campion volta novamente seu olhar para uma personagem aparentemente a frente de seu tempo e deslocada em uma sociedade cheia de regras e princípios nem sempre compreendidos. Depois da explosão melodramática de O Piano e da sisudez de Retrato de uma Mulher, a diretora opta por um registro poético para narrar o amor entre um poeta e uma garota que, a princípio, mostra-se um tanto relutante ao rapaz e seu estilo de vida.

Cheia de delicadeza, Campion envolve seu filme em uma beleza que vai da fotografia à trilha sonora, dos figurinos ao texto extremamente bem cuidado. Apoiada em duas grandes interpretações de Ben Whishaw e Abbie Cornish, a diretora só peca por atribuir à história um tom distante, em parte graças à opção de mergulhar o longa em uma aura poética que o torna belo, mas muito vezes vazio. Aqui, sofre-se por amor, mas esse sofrimento não encontra resposta no público, embebido em uma embalagem de extrema beleza e frieza.

Em A Jovem Rainha Vitória, o problema vai bem mais além. A frieza do filme não está no texto, mas na própria encenação e interpretação dos atores. Retratando a vida da rainha Vitória (Emily Blunt em uma atuação apática) antes de sua chegada ao poder, o filme peca por não desenvolver nem as tramóias políticas nem o lado romântico, mergulhando o longa em um registro sem graça que compromete todo o resultado final da produção.

Se os figurinos e a direção de arte se destacam mais do que o próprio elenco (Miranda Richardson e Paul Bettany pouco têm a fazer), é porque alguma coisa está errada. O filme começa e termina e não diz a que veio. O amor romântico está ali, em algum lugar, mas o espectador pouco se importa tão surpreso com a pobreza narrativa do longa.

Outros dois filmes vistos recentemente no cinema também versam, cada um a seu modo, sobre o amor. Em Encontro Explosivo, ele encontra espaço entre explosões, tiroteios, perseguições mirabolantes e uma trama absurda que coloca Tom Cruise e Cameron Diaz no mesmo barco. Claro que em meio a uma edição acelerada, a química entre os dois atores vai resultar em beijos e final feliz (confira resenha completa aqui).

No suposto filme de vampiros (no qual eles não têm dentes pontiagudos, brilham na luz feito purpurina e quebram como vidro), o amor é o tema central e o catalizador de toda a trama. Isso para quem acredita em um amor ingênuo de quinta construído sem o menor apelo e defendido sem o menor ânimo pelo trio de atores mais sem sal da atualidade (Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner).

O filme chama-se A Saga Crepúsculo: Eclipse e é tão ruim quanto seus antecessores. Mal escrito, mal dirigido, mal interpretado, o sucesso da série (reflexo do êxito dos livros) só nos mostra o quanto a humanidade está perdida em meio a valores hipócritas e babacas do século passado. Apesar de ser um filme com vampiros, Eclipse é assustador pelo que representa em termos de decadência do ser humano (não os retratados na tela, mas o que, do lado de cá, compram esse lixo como algo redentor e se derretem em meio a um amor que não convence!). Tenham medo!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um viva para Glee!

Olhando de longe, o seriado Glee mais parece uma mistura de Malhação com High School Musical. Da primeira, Glee pega emprestado o ambiente estudantil e os conflitos do universo adolescente. Da segunda, os passos, as cenas de dança e performance e o rótulo de musical. Mas para nossa sorte essa impressão é derrubada sem pena ao longo dos 22 episódios da primeira temporada da série, um dos maiores sucessos da televisão norte-americana atualmente.

Longe de ser uma série perfeita, "Glee" abraça seus defeitos e explora suas inúmeras qualidades. Criada por Ryan Murphy (diretor de "Correndo com Tesouras" e do novo filme de Julia Roberts, "Eat, Pray, Love"), a série se sobressai graças aos seus diálogos cheios de ironia, aos ótimos atores que não têm medo de pagar mico e à escolha absurdamente acertada do repertório de músicas que costura os episódios.

Deixando a repetição e o politicamente correto de Malhação e High School Musical de lado, "Glee" atinge um público mais amplo e pop e que não se importa muito com as situações absurdas ou incoerentes que vez ou outra dão o ar da graça no seriado. Com personagens extremamente bem delineados e falas que, às vezes, beiram a agressão (Sue Sylvester é desde já uma personagem antológica defendida com unhas, dentes e ótimos diálogos pela atriz Jane Lynch), "Glee" é divertido e, acima de tudo, inteligente, coisa rara de se ver no cinema, mas cada vez mais comum de se encontrar na telinha.

Sim, alguns podem levantar a mão e dizer que "Glee" é narrativamente pobre, com conflitos facilmente resolvidos ou personagens muito vezes abandonados ou esquecidos no meio do caminho. Visualmente, a série também deixa um pouco a desejar e é tão genérica como qualquer outro produto voltado para o público teen.

Mas a força de "Glee" não está nas histórias, e sim no espetáculo. Misturando no mesmo caldeirão os musicais da Broadway, os tempos áureos dos musicais hollywoodianos e a moderna linguagem dos videoclipes, a série é uma espécie de versão televisiva e menos anabolizada de Moulin Rouge, musical de Baz Lurhmann que virou paradigma para o gênero no início dos anos 2000.
























Cheia de referências pop e abraçando sem medo o humor negro, "Glee" traz um repertório de cenas memoráveis que resgatam músicas do passado (as releituras de "Physical" e "Total Eclipse of the Heart" são imbatíveis) ou prestam belas homenagens a artistas pop contemporâneos como Madonna, Lady Gaga, Beyoncé e Christina Aguilera. Tudo isso para mostrar a boa e velha batalha entre "winners" e "losers" tão cara à cultura estadudinense. A trama pode não ser nova, nem mesmo a abordagem. Mas não há como negar que, aqui, a diferença está toda no vigor com que a série é feita.

A princípio, pode parecer pouco, mas ao colocar no mesmo barco entretenimento e inteligência, a série tem se sobressaído perante a concorrência e já está com a segunda temporada garantida. Sucesso comercial, "Glee" tem se mostrado um bom negócio para as bandas que têm suas músicas escolhidas para participar dos episódios e para o público, que tem a chance de experimentar os musicais a partir de um ponto de vista que deixa claro que o quê conta é o espetáculo. E que bom espetáculo!

domingo, 20 de junho de 2010

O tempo não para!

Se existe uma certeza nessa vida é que o tempo não para. Na verdade, ele passa bem rápido e, muitas vezes, nem nos damos conta. De certa forma, Toy Story 3 e Nick and Norah's Infinite Playlist são sobre a passagem do tempo. Pelo menos para mim. O primeiro é sobre o fim da infância e do que ela representa. O segundo vai um pouco mais além no tempo e lança um olhar sobre a adolescência e o modo como nessa época pouca coisa pode valer muito.

Toy Story 3 é uma pérola, um filme delicioso que mistura aventura e nostalgia, risos e lágrimas, continuidade e fim. De uma forma brilhante, o longa consegue manter a essência dos dois primeiros indo mais além ao falar de amizade. Mais precisamente como temos que lidar, em alguns casos, com o fim dela. Não necessariamente um fim, mas uma mudança, uma passagem, uma transformação que muitas vezes deixa o coração um tanto apertado.

Graças a um roteiro preciso, uma direção iluminada e vozes apaixonadas (novamente Tom Hanks, Tim Allen e Joan Cusack), "Toy Story 3" ecoa de uma forma que poucos filmes o fazem. É uma aventura cheia de ação, mas também cheia de sentimento.

O mote é simples, mas acerta em cheio. Andy não é mais criança, está de malas prontas para a universidade e seus antigos brinquedos têm que lidar com o esquecimento. A partir, o caubói Woody, o vigilante das galáxias Buzz e o resto dos brinquedos partem em uma empreitada que os levará a novos caminhos e novos donos. E o final é de partir o coração, porque sometimes we just have to move on. And it isn't easy!

Confira minha resenha completa
sobre o filme no Cinema com Rapadura


Nick and Norah's Infinite Playslist trabalha em uma outra chave, mas também toca fundo no peito. O longa é uma mistura daquelas aventuras oitentistas que duram uma noite que parece interminável com os chamados novos filmes indies recheados de personagens losers e trilha sonora pop. Ou seja, você já viu isso antes em algum lugar. O que muda são apenas os atores e as canções que embalam a trama. Mas quem se importa se o negócio funciona, mesmo que a trama não fuja muito do esquema "garoto nerd encontra garota nerd".

O maior acerto da produção é emular uma série de filmes memoráveis ou divertidos sem tentar copiá-los ou mesmo homenageá-los. Dos anos 1980, temos ecos do sensacional Febre de Juventude (um bando de garotos enlouquecidos tentando ver o show de uma banda do coração, no caso do filme de 1978, simplesmente os Beatles) e Uma Noite de Aventuras (um bando de garotos que vive uma série de situações absurdas ao longo de uma noite).

Da escola indie de ser, o filme pega emprestado o ator de Juno (Michael Cera), a aura loser de Hora de Voltar e mais um monte de elementos que fazem a festa nas produções que versam sobre amor, fossa e outras dificuldades de relacionamento sob o ponto de vista de personagens tímidos, amargurados ou supostamente losers.

Mas tirando o apelo às fórmulas, "Nick and Norah's Infinite Playlist" funciona porque remete há um tempo que não volta mais: quando não precisava que acontecesse muita coisa para uma noite ser divertida; quando sair de bar em bar era regra e não apenas uma rotina cansativa; quando a noite realmente era uma criança e a farra só acabava ao amanhecer. Mas o tempo passa, a gente envelhece e tudo isso fica para trás. Felizmente, o cinema existe para matar nosso saudosismo e deixar a nostalgia no ar. E se o tempo realmente passa, é porque deve existir um propósito!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Só Dexter para salvar os serial killers...


Os assassinos seriais estão mortos no cinema. Enquanto isso, Dexter está cada vez mais vivo na televisão. Se na tela grande temos que aguentar coisas como a série "Jogos Mortais"; na telinha, "Dexter" cresce a cada temporada, provando que uma fórmula, quando bem usada, pode dar certo e ter continuidade.

O seriado, que estreou em 2006 e já vai para a quinta temporada, é um sopro de originalidade em meio à mesmice que polui o subgênero "serial killer" nos cinemas, relegado a produções de quinta como Os Cavaleiros do Apocalipse, que não se sustenta nem pela trama batida, nem pelo visual, teoricamente, sombrio.

Renascido das cinzas na década de 1990, graças ao sucesso de público e crítica de longas como O Silêncio dos Inocentes e Seven - Os Sete Crimes Capitais, os serial killers viraram tema central de filmes os mais díspares possíveis. Dos eficientes Copycat e Beijos que Matam a bobagens sem grande repercussão, o subgênero foi explorado à exaustão e perdeu força e charme.

Em Os Cavaleiros do Apocalipse, por exemplo - estreia do diretor de videoclipes Jonas Akerlund no cinemas (entre outros, ele é responsável por Ray of Light e Music, da Madonna), a trama é sem graça e nunca empolga, e a direção de Akerlund beira o amadorismo. A fotografia que enfatiza o vermelho de sangue e os cortes acelerados tentam compensar a fraqueza da história, e os clichês se acumulam até o final decepcionante.

Já em "Dexter", a história é outra. Cada temporada é dividida em 12 episódios que se sucedem em um crescendo de suspense que beira o insuportável. Com personagens bem construídos e tramas bem amarradas, conhecemos a rotina de um serial killer diferente: seu principal alvo são outros serial killers.

Com um código de honra a ser seguido, Dexter trabalha no Departamento de Homícidos da Polícia de Miami. Ele não é policial, mas está no meio deles trabalhando como analista de sangue. A cada temporada, ele tem um novo desafio e um outro serial killer a seguir. E o telespectador fica grudado na telinha acompanhando as reviravoltas e conhecendo mais detalhes da vida do personagem, que tem família e tudo mais.

Destacando a primeira (quando conhecemos o personagem) e a quarta (com um final surpreendente) temporadas, a série tem se mantido entre as melhores atualmente em produção na televisão.

Enquanto isso, nos cinemas...

Nenhum filme empolgante. Sex and The City 2 é uma decepção e não vale nenhum comentário de tão medíocre que é. Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda deixam de ser grandes personagens de televisão e viram pequenas caricaturas na tela grande. O filme é um mastodonte e chega a ser constrangedor, com a cena de Lizza Minelli imitando a Beyoncé como o ápice do ridículo cinematográfico em anos. Tudo culpa da Sarah Jessica Parker, que deveria ser interditada urgentemente.

O atrativo de O Golpista do Ano é ver Jim Carrey interpretando um gay e dando uns amassos em Ewan McGregor. Mesmo fugindo de alguns clichês, evitando o humor escrachado e mostrando uma relação gay de forma digna, sem apelar para esteriótipos, o filme não é nada demais. Mais parece uma versão gay de "Prenda-me se for Capaz" (aquele longa em que Tom Hanks tenta capturar Leonardo DiCaprio) do que uma comédia romântica. Está longe de ser um dos melhores de Carrey (The Truman Show e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças continuam insuperáveis).

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Duas vezes "Fúria de Titãs"


É óbvio que o remake de Fúria de Titãs é superior ao original em termos de efeitos especiais e ambientação. Em cerca de 20 anos, o cinema mudou muito, e isso fica evidente na comparação entre os filmes. Mas o novo "Fúria de Titãs", de certa forma, é narrativamente mais bem amarrado do que o original. 

Os saudosistas que me perdoem, mas revendo o original fiquei bem frustrado. Basicamente porque o filme, dirigido por Desmond Davis, envelheceu mal para burro. Não só por conta dos clássicos efeitos de Ray Harryhausen, mas em virtude da direção primária de Davis e das péssimas atuações de gente como Laurence Olivier e Maggie Smith, dignas de peça infantil.

Não ajuda o fato do herói do filme ser interpretado de forma catatônica por Harry Hamlin, que mais parece um bobo da corte do que um semi-deus. Mal editado, com um ritmo capenga e muito mais longo do que deveria, além de apostar em um humor involuntário totalmente inadequado (o cúmulo do absurdo é aquela coruja dourada voando para lá e para cá), a produção só sobrevive em virtude do saudosismo e da nostalgia de uma época em que a Sessão da Tarde fazia sentido.

O remake

A nova versão comandada por Louis Leterrier ("O Incrível Hulk") também tem seus problemas, mas uma coisa não se pode negar: o ritmo do filme é bem mais empolgante e compensa a total falta de suspense e ação do original. O final, por exemplo, é muito bem construído por meio de uma montagem paralela e de uma trilha sonora que conduz a ação e narrativamente flui melhor.

Mas nem tudo é perfeito. Se os efeitos e a direção de arte colocam o original no chinelo, algumas opções narrativas transformam o longa em um entretenimento divertido, mas sem alma. A escolha de transformar a jornada de Perseus (aqui interpretado por um Sam Worthington seguindo os passos de Gerald Butler em "300") em um banho de vingança atrapalha o filme e compromete a identificação do espectador, já que nunca acreditamos nas mudanças do personagem (que de um reles pescador vira o salvador da pátria).

Se essa escolha nos salva do romance com cara de novela das seis do original, por outro lado, tira um pouco do charme da história e joga qualquer construção dos personagens no buraco. Mas como ninguém vai ver um filme como esses atrás de construção de personagem, a ação se faz presente do modo mais ligeiro possível, não dando muito tempo para o desenvolvimento de uma trama coerente.

Outro defeito do filme - e do cinema de ação atual em geral - é a velha tática de cortes secos e rápidos demais misturados a câmeras lentas que dão náuseas. O resultado é que, em várias cenas, mal vemos o que está acontecendo e somos mais conduzidos pela trilha sonora que grita em alto e bom som do que pelas imagens.

O fato é que o remake de Fúria de Titãs carece de charme e desrespeita qualquer referência mitológica (mas tem a vantagem de contar com as presenças de Liam Neeson e Ralph Fiennes). Mas o original mesmo não tem charme nenhum, vamos ser honestos. Os saudosistas que me perdoem (mais uma vez), mas é a mais pura verdade.

Outros filmes

Também assisti a outros longas nesses dias, mas estou com preguiça de comentá-los de modo mais aprofundado. Em O Escritor Fantasma, Roman Polanski emula Brian DePalma tentando homenagear Alfred Hitchcock. Filme interessante, mas que peca por demorar demais a desenvolver a trama. De qualquer forma, vale pela bunda do Ewan McGregor e pela cena final de resolução do mistério, dirigida de forma magistral por Polanski.

Enquanto isso, os oscarizados Coração Louco e Um Sonho Possível são mais do mesmo. O primeiro é o típico filme de redenção, com Jeff Bridges ganhando o Oscar pelo papel mais óbvio possível: cantor alcoólatra e fracassado que dá a volta por cima. Já Sandra Bullock levou o prêmio para casa porque pintou o cabelo de loiro e fala com sotaque jeca em um filme açucarado com cara de "feito para a TV". Mas os filmes não são ruins e valem uma conferida, nem que seja pelos atores.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Delicada relação


Já que possuímos culturas diferentes, nada mais natural que cada país construa seus próprios códigos dramáticos e lance olhares peculiares sobre determinados temas. Nesse sentido, o drama Pecado da Carne é um ótimo exercício sob o ponto de vista da diferença: narrativa, dramática, ideológica e religiosa. 

Para um público ocidentalizado, acostumado com os dramas e os melodramas do cinema hollywoodiano, o filme israelense pode parecer frio e distante. Afinal, mesmo tocando em um tema "polêmico" (odeio esse termo!), o longa não apela para o drama fácil ou às explosões dos personagens como forma de catarse. 

Dirigido por Haim Tabakman, o filme narra de forma contida a história de um judeu ortodoxo (Aaron), casado e com filhos, que se apaixona pelo seu ajudante (Ezri). Sem ter como foco principal a paixão ou o sexo em si, apesar de mostrar com certa delicadeza a forma com Aaron e Ezri se aproximam, se tocam e se amam, Pecado da Carne se detém mais nas consequências causadas pela relação entre os dois, já que ambos sofrem o preconceito e a desconfiança tão comuns às sociedades mais tradicionais, ou hipócritas, se preferirem.

Dos rumores no bairro, passando pelos olhares de reprovação em silêncio da esposa de Aaron, tudo fica mais subentendido do que propriamente dito. O espectador ocidental clama por gritos e lágrimas, Tabakman entrega um ritmo lento e emoções contidas. A tragédia aqui é mais internalizada do que propriamente verbalizada ou vivenciada.

Se os conflitos parecem ser evitados pela narrativa, o filme convence justamente por representar o olhar de uma sociedade conversadora e que vive baseada em duras condutas morais e religiosas. Não que o filme faça uso desse conservadorismo ou moral para se apoiar. Muito pelo contrário. Enquanto esse ponto de vista reacionário impregna as personagens, a direção de Tabakman não está aqui para julgar e deixa o espectador chegar às suas próprias conclusões. 

Duas comédias românticas


Dias do Namorados está chegando, estou um tanto carente, então nada melhor do que se jogar nas comédias românticas. Essa semana vi duas que deixei passar nos cinemas. A primeira é bem fraca: Idas e Vindas do Amor. Dirigida sem a menor empolgação por Garry Marshall ("Uma Linda Mulher"), o filme traz uma penca de belos rostos conhecidos fazendo absolutamente nada. 

Crente que poderia salvar seu filme apenas pelo carisma do elenco, que traz de Julia Roberts a Queen Latifah, Ashton Kutcher a Patrick Dempsey, Marshall não foge dos clichês do gênero e entrega um filme insosso e que nunca decola. O longa tenta, na verdade sem muito sucesso, emular o ótimo Simplesmente Amor e o já fraquinho Ele não está tão a fim de você. Nem o "casal gay" formado pelo Bradley Cooper e Eric Dane me animou.

Meryl Streep rocks!

Simplesmente Complicado é tudo de bom. Me arrependi de não tê-lo visto no cinema. Na verdade, vi o filme sem esperar muito coisa, mas me entreguei. Mesmo apelando para fórmulas, clichês e, às vezes, escorregando no piegas, o filme é uma delícia, graças, principalmente, ao trio de protagonistas. Meryl Streep, Alec Baldwin e Steven Martin compõem personagens adoráveis e estão se divertindo horrores.

Meryl dá uma show como uma mulher que nem se lembra mais o que é sexo e acaba se envolvendo com dois homens ao mesmo tempo: o incrivelmente barrigudo ex-marido (Baldwin, inspiradíssimo) e um arquiteto ainda traumatizado pelo divórcio (Martin bem mais contido do que de costume). A atriz está bem melhor do que em "Julie & Julia", produção pela qual foi indicado ao Oscar.

Com esse trio como carta na manga, a diretora Nancy Meyers tem muito pouco a fazer e entrega um longa redondinho, entretenimento puro, desses que flui que é uma beleza (ainda que o filme seja um pouco mais longo do que deveria). Acusada de elitista (seus personagens estão sempre envoltos em ambientes que exalam riqueza) e conservadora, Meyers filma com delicadeza e "Simplemente Complicado" se revela uma comédia romântica madura e bem acima da média. 

terça-feira, 25 de maio de 2010

Julianne Moore em suposto thriller sensual


Chega a ser constrangedor ver uma atriz do nível de Julianne Moore desperdiçando seu talento em algo tão medíocre quanto O Preço da Traição. A única razão que nos leva a crer que ela aceitou fazer o filme foi o simples fato de ter sido dirigida pelo cineasta egípcio, radicado no Canadá, Atom Egoyan, que já foi inclusive indicado ao Oscar ("O Doce Amanhã"). Mas a julgar pelo resultado da empreitada, a atriz fez uma péssima escolha.

Egoyan, supostamente achando que poderia deixar o filme nas rédeas de seus atores - além de Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried ("Mamma Mia") pagam mico aqui -, constrói um sub "Atração Fatal", um sub "Corpos Ardentes" ou um sub "Dormindo com o Inimigo", a depender das suas referências cinematográficas. "O Preço da Traição" nada mais é, então, do que um sub qualquer suspense de quinta que chama a atenção por causa da presença de atores conhecidos.

Para tentar minimizar o estrago, o diretor ambienta o filme em cenários luxuosos, sempre apontando a câmera em angulações classudas para seus personagens. A mise-en-scène bem composta só reforça a fraqueza da trama. O resultado final soa tão falso quanto os efeitos sonoros que acompanham os saltos-alto de Moore que pontuam todo o filme.

Mas as opções estéticas e o roteiro chauvinista nem chegam a ser o maior problema aqui. Se a produção se assumisse como um pastiche, até que o longa poderia passar incólume. Mas o pecado capital de "O Preço da Traição" é se levar a sério demais. Isso o joga direto no fundo do poço dos filmes medíocres. Da trilha musical pretensiosa, passando pela encenação sofisticada, tudo leva a produção para o buraco, e nem um thriller sensual, sexual ou coisa que o valha o longa consegue ser.  

domingo, 23 de maio de 2010

Três boas atrizes em filme esquecível




Charlize Theron
, Kim Basinger e Jennifer Lawrence até tentam, mas não conseguem salvar Vidas que se Cruzam do esquecimento. Não que o filme seja ruim, é apenas mais do mesmo. Dirigido por Guillermo Arriaga, a estreia do roteirista de "Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel", todos dirigidos por Alejandro González Iñárritu, repete as mesmas fórmulas e não decola simplesmente porque privilegia o esquematismo em detrimento das personagens, até interessantes. 

Como o óbvio título nacional nos informa (o original é "The Burning Plain"), o filme parte da premissa do entre-cruzamento da vida de várias pessoas. Ou seja, a mesma coisa que já vimos nos filmes dirigidos por Iñárritu, que possui um domínio narrativo e estético bem mais interessante do que Arriaga, o que de certa forma libertava os filmes das fórmulas ditadas pelo roteiro. Aqui os personagens vão e voltam no tempo, o que minimiza a intensidade das três performances das atrizes lá de cima, já que a estrutura fragmentária do filme parece ser mais importante do que o conflito vivido por elas.

Uma pena. Os pouco mais de três minutos do comercial da Nike dirigido por Alejandro González Iñárritu coloca todo o "Vidas que se Cruzam" no chinelo. Se é para manipular imagens e sons, vamos pelo menos manipular de verdade. 

sábado, 22 de maio de 2010

E nada de Imax, Alice não merecia mesmo!


Sim, esse blog ainda existe, apesar da preguiça. E ele vai acabar se tornando um blog sobre cinema mesmo. Mais um na multidão. Ou não, se eu me animar a escrever sobre outras coisas. Por enquanto, continuo sem ir muito ao cinema. O último que vi foi Alice no País das Maravilhas, sem dúvida o pior filme do Tim Burton, consegue ser mais fraco do que o remake de Planeta dos Macacos.

A ideia era ver o filme no Imax, mas todo mundo me disse para não ir. Ainda bem que segui os conselhos. O Imax é na puta que pariu virando a esquerda, é caro e o filme não valia a pena mesmo. Em "Alice", é tudo equivocado e pouco se salva. A narrativa e a dramaticidade são nulas, o que gera um envolvimento zero com a trama e as personagens. Johnny Depp se repete. Anne Hathaway se afunda em uma caracterização ridícula. Helena Bonham Carter é a única que acerta no exagero, mas não salva o filme do naufrágio. 

Nem o visual me empolgou. A direção de arte e os figurinos são caprichados, mas abandonam o tom geralmente lúgubre dos filme de Burton para apostar em um festival de cores alucinógenas e lisérgicas. Com tudo muito cansativo e chato, Alice no País da Maravilhas vai direto para a vala dos filmes esquecíveis.

Enquanto isso, no País dos videoclipes...

Finalmente, vi um produto audiovisual de impacto. E nem era um filme, nem precisei ir ao cinema para isso. O nome é Born Free e é o videoclipe novo da M.I.A., aquela cantora de rap com descendência indiana, ou algo parecido. Com pouco mais de nove minutos de duração, o clipe é uma porrada, vibrante e chocante, que juro que não sei se quero ver de novo. Dirigido por Roman-Gravas, filho do polêmico diretor grego Costa-Gravas, o clipe tem ritmo de filme de ação e, para o bem e para o mal, é de tirar o fôlego. Quem quiser se arriscar, o clipe segue abaixo. Eu não me arrisco.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Primeiras aventuras audiovisuais em Sampa - 2a. parte


Depois de Chéri, vi Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen. Amado por alguns, odiado por muitos, Allen é um dos poucos cineastas que pode colocar seus personagens dizendo que Deus é um decorador gay, sem ser apedrejado. Tudo Pode Dar Certo segue a linha de filmes mais neuróricos de Allen, que volta a filmar em Nova York, seu cenário predileto, depois de uma incursão de filmes pela Europa, Londres e Madri mais precisamente. Boris, o protagonista vivido por Larry David, é o típico personagem alleniano: chato, falastrão, preconceituoso, reclamão, hipocondríaco e tudo mais. 

Filmado de modo convencional, característica do cinema de Allen, o filme se destaca pelos diálogos inspirados e atores sempre em sintonia. Só mesmo Allen para colocar um dupla tão improvável como David e a bela Evan Rachel Wood como um casal "romântico" e tirar proveito disso. A química entre os dois é sensacional e garante boa parte das piadas do longa. Não chego a ser um grande fã de Woody Allen, mas admito que o diretor sabe como ninguém explorar as neuroses do ser humano. Longe da Europa e dos assassinatos misteriosos que dominaram seus últimos filmes (Match Point, Scoop, Cassandra's Dream), o cineasta continua fazendo o mesmo cinema de sempre. Mas e daí, ele consegue fazê-lo muito bem.

Homem de Ferro 2

Nem só de filmes-cabeça se vive o homem, então sempre que possível abraço os blockbusters sem preconceito. Como ainda não tive disposição para ir ver Alice no País das Maravilhas no Imax, lá longe aqui de casa, acabei assistindo ao barulhento Homem de Ferro 2, que estreou no Brasil antes mesmo do que nos Estados Unidos. Eu confesso que achei o primeiro um bom filme, nada demais. Nem me empolguei muito para assistir a essa continuação, mas, sei lá, vi porque no cinema que fui não tinha mais nenhum outro filme que me empolgasse. Achei divertido como o primeiro, mais bem amarrado, com melhores vilões. Mas é isso, não bateu de modo marcante. Acho que a culpa é mais minha do que do filme em si. Tenho ficado cada vez menos nerd com o passar da idade, o que me faz pensar que tenho tudo para ser um personagem chato dos filmes de Woody Allen quando ficar mais velho.