terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crise financeira e triângulo amoroso


Tentando pescar mais filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, acabei vendo dois exemplares bem distintos de longas que buscam propostas diversas. Um documentário que tenta explicar a crise financeira que acometeu o mundo em 2008 e uma ficção metida a moderna sobre dois amigos - um rapaz e uma garota - que se apaixonam pelo mesmo garoto.

Trabalho Interno (Inside Job) é aquele típico filme que funciona como um tapa na cara de nossa sociedade hipócrita e mesquinha. Tentando elucidar e contextualizar a crise mundial que se abateu sobre o mundo em 2008, o documentário de Charles Ferguson aposta em uma linguagem didática e ágil para explorar um tema complexo e inacessível para grande parte da população. Por meio de vários depoimentos, Ferguson faz uma análise histórica, econômica e política do mercado financeiro estadudinense, jogando luz na podridão que consome um sistema apoiado no lobby.

Sem direito a final feliz, o fime encerra mostrando uma perspectiva negra e só peca ao adotar um tom panfletário e heróico que não condiz com o que acompanhamos anteriormente. Como curiosidade, o documentário é narrado por Matt Damon, fez sucesso em Cannes e é uma das apostas para o Oscar da categoria em 2011.

Os Amores Imaginários segue caminho contrário e aposta em um viés mais poético para narrar os conflitos entre dois amigos (Maria e Francis) que se apaixonam pelo mesmo rapaz (Nicolas). Bonitinho e ingênuo, "Os Amores Imaginários" é dirigido, roteirizado e protagonizado pelo jovem canadense Xavier Dolan, que, aqui, repete os mesmos cacoetes do anterior "Eu Matei Minha Mãe".

No alto dos seus 22 anos de idade, Dolan faz um cinema para modernete ver, apostando em cores, músicas e em uma mise-en-scène quase barroca. É um cinema divertido, mas de certa forma ingênuo e um tanto caricato. Se sobra autenticidade nos personagens, falta no esquematismo de citações e interferências visuais que deixam tudo muito bonito, mas meio oco.

Emulando Almodóvar e suas cores vivas, Wong Kar-Wai e seu apreço pela cenografia, além da forma quase coreográfica com que filma atos banais, Dolan ainda paga pau para a Nouvelle Vague e sua aura intelectualóide. Tudo filmado em uma bela embalagem de encher os olhos e com direito a um pretensão que até faz bem ao filme.

"Os Amores Imaginários" é cinema para cult ver. Está longe de ser ruim, mas não deixa de ser um tanto redundante (o excesso de câmera lenta chega a incomodar, e os depoimentos são engraçados, mas só quebram a narrativa e pouco acrescentam) depois do bem mais interessante e original "Eu Matei Minha Mãe".

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um dia na vida...

Eduardo Coutinho é considerado o maior documentarista brasileiro. Isso ninguém questiona. Seus filmes sempre levantam debates e colocam, muitas vezes, o próprio cinema enquanto dispositivo em primeiro plano. Um dia na vida, que teve sua primeira e última concorrida exibição durante a programação da 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, segue caminho similiar às outras produções do diretor e faz uso de imagens aleatórias para apontar questões sobre um tema nem sempre muito claro.

O filme - ou projeto, como prefere Coutinho - nada mais é do que uma amálgama de imagens aleatórias gravadas em 19 horas de um dia qualquer da programação televisiva brasileira. A princípio o projeto parece uma crítica ao lixo que é a TV aberta (as imagens são captadas de vários canais: Globo, SBT, RedeTV, Record, Band etc), mas logo fica evidente que esse não é o intuito. Mais do que uma crítica a TV, o projeto quer mostrar o quanto a sociedade em geral é bizarra, usando a TV como espelho e reflexo dessa podridão. Tudo muito lindo no papel, mas um tanto questionável quando apresentado na tela.

Primeiro, o "filme" não tem nada de criativo, é apenas uma colagem de imagens que pretendem chocar a partir de uma edição que, palavras de Coutinha, evitam qualquer tipo de olhar ideologizante. É óbvio que esse discurso até pode funcionar na teoria, mas na prática a própria escolha das imagens de determinados canais/emissoras em determinados horários já impõe uma ideologia (novelas dividem espaço com desenhos animados, publicidade, programas policialescos, telejornais etc.)

O local e o evento escolhidos como plataforma de lançamento do projeto também refletem uma ideologia. Afinal, supostamente um público que se estapeia por um ingresso de um filme do Coutinho no maior festival de cinema do país não está acostumado a assistir imagens tão exdrúxulas como as exibidas na tela grande do Cine Livraria Cultura. Isso se reflete na própria reação do público, que gargalha e ri como se não fizesse parte daquele universo retratado na tela grande. Talvez, se exibido para um outro público, mais afeito e acostumado às mazelas exibidas na TV aberta, a reação seria outra. Seria outra também caso fosse outro cineasta e não Coutinho a frente do projeto.

Enfim, tudo suposições que ficarão no ar, já que o destino do filme/projeto é incerto. Entre dúvidas e questões colocadas na tela, a única certeza que "Um dia na Vida" deixa é que ele é o mais puro exemplar do cinema de horror, com mocinhos, vilões e clichês, mas sem direito a final feliz.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Filmes da Mostra

Trabalhar na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo não é fácil. Ainda mais quando se gosta de cinema. Você está cercado de filmes, sabe a sinopse de vários, se interessa por muitos, mas acaba não vendo quase nada. Mas ainda assim compensa. E no meio de uma rotina meio massacrante, você tenta encaixar um filme aqui e ali. A 34ª Mostra ainda não terminou, mas até agora só consegui tempo para ver dois filmes.

O primeiro, mais do que apenas ver um filme, foi uma experiência coletiva, por mais brega que isso pareça. Vi Metropolis deitado no gramado do Parque Ibirapuera, em uma puta tela grande e com direito à orquesta tocando a trilha musical do longa ao vivo. Ao fundo, o céu e as nuvens carregadas de São Paulo e um frio de rachar os dentes.

Antes de mais nada, confesso que nunca tinha visto Metropolis, só algumas cenas. Nunca fui muito fã de cinema mudo, ou silencioso, como preferem alguns. Geralmente me perco, confundo os personagens, não consigo acompanhar a narrativa e pouco me interesso pela história que está sendo contada (isso quando tem história). Mas não dá pra negar que "Metropolis" é um achado cinematográfico. Vê-lo em uma cópia restaurada e em uma tela grande dá um significado maior ainda às belas imagens do filme.

Hoje em dia, o longa pode até ter uma mensagem um tanto datada e já muito explorada pelo cinema, mas isso não tira o mérito do filme, que ecoa até hoje em termos de referências. Da história à cenografia, dá para perceber resquícios de "Metropolis" em filmes como Matrix, O Exterminador do Futuro, Batman e por aí vai, além de vários videoclipes (ver a dança da atriz que interpreta Maria, por exemplo, nos faz lembrar que as coreografias ousadas de Shakira e Britney Spears não têm nada de novas).

Se "Metropolis", ainda hoje, sobrevive ao tempo, não se pode dizer o mesmo de Atração Perigosa, segunda empreitada de Ben Affleck na direção. É um filme forte sobre assalto a bancos, com um bom elenco (com destaque para o Mad Men Jon Hamm) e uma produção de primeira. Mas o longa deixa a desejar justamente por apostar em uma caminho fácil já percorrido antes.

Entre clichês e mais clichês, temos o bandidão chamorso e boa pinta que se salva no final e uma relação amorosa mal construída entre ele (o próprio Affleck) e a subgerente refém de um dos assaltos (Rebecca Hall). Um dos problemas da produção é justamente esse: o flerte entre Affleck e Hall nunca convence, menos pelos atores e mais pelo roteiro apressado que não deixa tempo para o desenvolvimento dos personagens.

Atração Perigosa não chega a ser ruim, mas passa longe da urgência dos filmes de ação dos anos 1970 que o inspiraram ("Serpico", "Um Dia de Cão", "Operação França", por exemplo). O longa também fica devendo quando comparado à grandiosidade trágica de um "Fogo contra Fogo" (de Michael Mann) ou a tensão constante de um "O Plano Perfeito" (de Spike Lee), por exemplo. Correto e sem alçar grandes voos, "Atração Perigosa" pelo menos demonstra que Ben Affleck tem potencial como diretor, ainda que lhe falte mais coragem para quebrar regras.

sábado, 2 de outubro de 2010

"Eu matei minha mãe"



Filmes com pretensão de serem "modernos" geralmente dividem a crítica. Alguns amam as fírulas narrativas, a montagem frenética, o uso pop da trilha musical e o ar blasé e supostamente poético desses filmes que versam sobre drogas, sexo e relacionamentos em um mundo cada vez mais urbano e acelerado. Outros acham isso tudo clichê e esquemático e acreditam que tais recursos jogam o filme em um registro estético demais e emocional de menos.

Talvez a maior qualidade de Eu matei minha mãe resida justamente em conseguir um meio termo entre o emocional e o estético. O jovem Xavier Dolan, que aos 20 anos dirigiu, escreveu e protagonizou o longa, mescla com cuidado um tom melancólico com uma narrativa vigorosa, fazendo bom uso de recursos já desgastados por esse cinema dito "moderno": câmera lenta, edição picotada, registro de depoimentos confessionais em preto & branco, textos transcritos na tela etc.

Por um lado, temos todas essas estratégias narrativas que atraem um público mais jovem e dão ao longa uma cara mais "anos 2000", digamos assim. Mas de outro, temos uma trama bem construída e que exala honestidade, principalmente em razão do olhar um tanto ingênuo que Dolan atribui ao conturbado relacionamente entre mãe (Anne Dorval) e filho (Dolan). É esse olhar ingênuo, mas sincero, que impede que o filme se afunde em clichês e nos faça acreditar nessa história de desentendimentos.

"Eu matei minha mãe" é, na verdade, um longa sobre a dificuldade de comunicação. Não é um tema novo, ainda mais quando essa dificuldade parte das diferenças entre gerações de pais e filhos (Juventude Transviada, nos anos 1950, já levantava essa questão). A abordagem também não é inédita e, dos anos 1990 para cá, vários outros filmes construíram sua fama graças a uma roupagem narrativa mais pop (Trainspotting é um bom exemplo).

Mas Dolan sabe conduzir seu filme de modo poético sem soar superficial ou forçado. Talvez ele peque um pouco na construção dos dois personagens principais, exagerando na infantilidade da mãe e do filho e no modo agressivo que ambos se relacionam entre si. Um pequeno porém que não impede que "Eu matei minha mãe" funcione como um belo exercício de olhar sobre o velho conflito de gerações.

Obs: o novo filme de Dolan, Les amours imaginaires, está na programação do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Poucas palavras sobre algumas coisas

A preguiça é a maior inimiga dos blogs. Bom, pelo menos do meu. Sempre penso em textos para postar, comentários sobre filmes, shows, algum álbum ou videoclipe que me chamam a atenção. Chego até a escrever alguns deles mentalmente. Mas tudo acaba ficando no campo das ideias. Sou expert em deixar minhas ideias guardadas em algum lugar que nem eu mesmo sei onde é. Mas tudo bem, tirando uns dois ou três amigos, ninguém lê isso aqui mesmo, então a culpa por deixar esse espaço sempre no leito de morte diminui bastante.

Reclamações à parte, a cada dia que passa sou uma pessoa menos e menos cultural. Vejo menos filmes do que antes, leio menos livros, não me choco mais com videoclipes e pouco me entrego aos vícios midiáticos proporcionados pelas séries de tevê. Não me perguntem a razão, Freud deve explicar, não eu! Isso acaba me limitando um pouco para escrever, já que minha vida é meio chatinha e não anda merecedora de posts. A verdade, no entanto, é que sempre se vê um filme, ouve-se uma música, vai-se a um show ou descobre-se uma banda merecedora de algum comentário, nem que seja de poucas linhas.

Então vamos lá, comentar o pouco visto, ouvido, registrado e catalogado no meu repertório cultural:

A banda mineira Pato Fu é umas das poucas do cenário nacional que ainda me desperta algum sentimento que não seja a raiva e o desprezo. Sempre cheios de delicadeza, passeando pelo lúdico, pop e experimental, Fernanda Takai e cia me fazem acreditar que a música nacional tem salvação, mesmo sabendo que ela não tem. O último trabalho da banda, o singelo Música de Brinquedo é uma pérola da "fofice", trazendo várias releituras de clássicos do rock - nacionais e internacionais - tocados com instrumentos e sons tirados de brinquedos. Se o álbum é bem redondinho, o show de divulgação do trabalho é sensacional. Visto numa sexta à noite no Sesc Vila Mariana, o espetáculo tem uma concepção visual ao mesmo tempo simples e de encher os olhos. As versões das canções ganham vida ao vivo e são marcadas por arranjos irreverentes e delicados. Da participação dos bonecos do Giramundo, passando pelo cenário, figurinos, iluminação, tudo é perfeito e transforma a experiência de ouvir (e ver) o Pato Fu ao vivo em um espetáculo de encher os olhos... de lágrimas!

Já o show do She Wants Revenge, no Clash Club, foi uma decepção. O atraso de cerca de duas horas e um show meio improvisado e sem muita empolgação me fizeram rever minha impressão sobre a banda.

Tenho ido pouco ao cinema, não sei se por falta de empolgação ou de filmes bons. Acho que um misto dos dois. Antes que o Mundo Acabe é um belo filme sobre a adolescência. Alguns diálogos chavões e empostados diminuem um pouco a força do trabalho, assim como um personagem chato que vez ou outra resolve discutir fotografia e soltar outras pérolas do clichê. Mas o elenco entrosado e a sinceridade dos personagens compensam as falhas. Para quem não é mais adolescente, fica a nostalagia. Para os que ainda estão vivendo essa fase, a identificação é certeira. Quem sabe um dia Malhação aprenda um pouco com os filmes nacionais sobre a adolescência e deixe de ser um programa burro, feito por gente burra e assistido por gente mais burra ainda. Seria querer demais?!

O Refúgio é cinema francês em sua essência. Frio, distante e um tanto seco em se tratando de emoções. Os sentimentos dos personagens são sempre uma icógnita, e a narrativa é cheia de lacunas, o que de certa forma leva o público a se distanciar do que se vê na tela. Ainda assim é um filme válido. François Ozon é um diretor interessante e que sabe prender a atenção do espectador, mesmo que seus filmes passem longe da perfeição.

Por um curto período de tempo, o Belle & Sebastian foi a banda da minha vida. If You Feeling Sinister é um dos poucos álbuns que escuto do começo ao fim sem reclamar, além de ter canções que me desvendam em poucos refrões. Sem lançar nada desde The Life Pursuit (2006), os escoceses estão de volta com o belo Belle & Sebastian Write About Love, álbum já devidamente vazado, baixado, escutado e aprovado. Mais pop e menos retrô, o álbum traz belas composições que fogem um pouco da sonoridade sessentista caracterísitica da banda e abraçam um registro mais pop sem deixar de lado a melancolia. O disco tem participações de Norah Jones e da atriz Carey Mulligan. "I Didn´t See It Coming" e "Calculating Bimbo" são simplesmente sensacionais e de partir o coração.

Bandinhas novas às vezes me cansam. Geralmente escuto os álbuns, fico meio psycho por um tempo e logo em seguida nem lembro mais quem são. Tenho incontáveis discos (baixados, claro) de bandas que só acumulam espaço em algum CD qualquer de MP3. A maioria não chega nem a ser um rodapé no meu histórico musical. Espero que a Hurts não seja mais uma dessas. Eles, um belo duo britânico, tinham tudo para serem meio passados, afinal bebem na fonte dos esgotados anos 1980. Mas não, ao invés de apostar em um pop chichete já explorado por gente como The Ting Tings, La Roux e até a mala da Lady Gaga, eles pegam as referências oitentistas, misturam com o brit pop dos anos 90 e saem com um som melancólico que gruda, mas não enche o saco. As letras são tristes, a pegada é pop e a embalagem, cinzenta. De Happiness o álbum só tem o nome. "Devotion", com direito a participação de Kylie Minogue, "Unspoken, "Illuminated", "Evelyn" e "Blood, Tears & Gold" não param de tocar no Ipod.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um bom filme, outros nem tanto


Depois de um período de sumiço, eis que volto para fingir que me importo em atualizar isso aqui. Os filmes foram muitos. Primeiro, passei por uma temporada no Paulínia Festival de Cinema. O resultado foram alguns bons filmes (a quase comédia romântica Mallu de Bicicleta, o documentário Lixo Extraordinário e o belo curta Eu Não Quero Voltar Sozinho), outros nem tanto, caso da porcaria e bagunça narrativa de 400 contra 1, para citar só um.

Voltei e me decepcionei um pouco com o À Prova de Morte, filme do Quentin Tarantino que já há três anos mofava no depósito de alguma distribuidora sem noção. Gosto do diretor, acho "Pulp Fiction", "Kill Bill" e "Bastardos Inglórios" grandes filmes, mas, aqui, ele está mais a serviço de sua imagem de cara cool que entende e conhece cinema do que propriamente em prol da sétima arte.

Em um outro nível, também fiquei desapontado com Predadores, que destrói todo o conceito do filme clássico dos anos 1980, um dos melhores de Arnold Schwarzenegger. Na mesma onda de emular filmes do passado, outro que se dá mal é Os Mercenários, bobagem dirigida, produzida, escrita e protagonizada por Sylvester Stallone (confira resenha completa do filme aqui).


Mas nem só de filme ruim se vive um homem

Pois é, vez ou outra a gente consegue catar alguma coisa realmente boa e que valha a pena. Esse não é totalmente o caso de Destinos Ligados, mais um filme com a cansada estrutura colcha de retalhos, com várias histórias se intercalando. Mas o longa é honesto e tem três ótimas atrizes (a crítica completa pode ser lida aqui).

De realmente bom, vi só A Origem. Sim, aquele filme dirigido pelo Christopher Nolan, que coloca o espectador quase que literalmente de cabeça para baixo. Típico filme onde está tudo no lugar: roteiro esperto, direção precisa, elenco sensacional, produção caprichada, trilha sonora absurda (a crítica completa está aqui). Cinema para gente grande, dá gosto de ver e rever.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O amor no tempo
dos filmes de época


Sempre fui fascinado por filmes de época. Além dos cenários suntuosos e figurinos sofisticados, esse tipo de filme se destaca por, geralmente, investir em histórias centradas em desenlaces amorosos na maioria das vezes sem direito a final feliz. O amor e suas tragédias é uma questão central desse cinema cheio de babados, vestidos rodados, chapéus e cenas de baile. Talvez seja por isso que esses filmes nos digam tanto. Afinal, o tempo passa, o tempo voa, mas o "amor romântico" ainda é o grande mote dramático da nossa sociedade, seja na vida real ou no mundo da ficção.

Recentemente assisti a dois examplares que mostram que amar em tempos de figurinos de época (não importa qual) não é uma das coisas mais fáceis. Coincidentemente, ambos são inspirados em histórias reais, o que nos leva a crer que, em tempos passados, a vida era ditada e regida pelo amor, ainda que os valores e regras da sociedade fizessem crer que não.

Em Brilho de uma Paixão, a cineasta Jane Campion volta novamente seu olhar para uma personagem aparentemente a frente de seu tempo e deslocada em uma sociedade cheia de regras e princípios nem sempre compreendidos. Depois da explosão melodramática de O Piano e da sisudez de Retrato de uma Mulher, a diretora opta por um registro poético para narrar o amor entre um poeta e uma garota que, a princípio, mostra-se um tanto relutante ao rapaz e seu estilo de vida.

Cheia de delicadeza, Campion envolve seu filme em uma beleza que vai da fotografia à trilha sonora, dos figurinos ao texto extremamente bem cuidado. Apoiada em duas grandes interpretações de Ben Whishaw e Abbie Cornish, a diretora só peca por atribuir à história um tom distante, em parte graças à opção de mergulhar o longa em uma aura poética que o torna belo, mas muito vezes vazio. Aqui, sofre-se por amor, mas esse sofrimento não encontra resposta no público, embebido em uma embalagem de extrema beleza e frieza.

Em A Jovem Rainha Vitória, o problema vai bem mais além. A frieza do filme não está no texto, mas na própria encenação e interpretação dos atores. Retratando a vida da rainha Vitória (Emily Blunt em uma atuação apática) antes de sua chegada ao poder, o filme peca por não desenvolver nem as tramóias políticas nem o lado romântico, mergulhando o longa em um registro sem graça que compromete todo o resultado final da produção.

Se os figurinos e a direção de arte se destacam mais do que o próprio elenco (Miranda Richardson e Paul Bettany pouco têm a fazer), é porque alguma coisa está errada. O filme começa e termina e não diz a que veio. O amor romântico está ali, em algum lugar, mas o espectador pouco se importa tão surpreso com a pobreza narrativa do longa.

Outros dois filmes vistos recentemente no cinema também versam, cada um a seu modo, sobre o amor. Em Encontro Explosivo, ele encontra espaço entre explosões, tiroteios, perseguições mirabolantes e uma trama absurda que coloca Tom Cruise e Cameron Diaz no mesmo barco. Claro que em meio a uma edição acelerada, a química entre os dois atores vai resultar em beijos e final feliz (confira resenha completa aqui).

No suposto filme de vampiros (no qual eles não têm dentes pontiagudos, brilham na luz feito purpurina e quebram como vidro), o amor é o tema central e o catalizador de toda a trama. Isso para quem acredita em um amor ingênuo de quinta construído sem o menor apelo e defendido sem o menor ânimo pelo trio de atores mais sem sal da atualidade (Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner).

O filme chama-se A Saga Crepúsculo: Eclipse e é tão ruim quanto seus antecessores. Mal escrito, mal dirigido, mal interpretado, o sucesso da série (reflexo do êxito dos livros) só nos mostra o quanto a humanidade está perdida em meio a valores hipócritas e babacas do século passado. Apesar de ser um filme com vampiros, Eclipse é assustador pelo que representa em termos de decadência do ser humano (não os retratados na tela, mas o que, do lado de cá, compram esse lixo como algo redentor e se derretem em meio a um amor que não convence!). Tenham medo!