segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

2010: os melhores - parte II

A pedidos (na verdade, a um pedido dessa moça aqui), eis a segunda parte do melhor que vi em 2010: categoria seriados.

Eu já fui viciado em seriados, assistia vários, comédias, dramas, romances. Junto com a Felicity, era apaixonado pelo Ben e pelo Noel. Me distraí com as aventuras e desventuras de Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte em Sex and the City, sempre sonhando com as ruas, as baladas e festas e os homens de Manhattan. Achava Dawson uma graça, apesar de chato. Torcia por Will e pela Grace. Ria das bobagens de Friends e That 70's Show. E mais tantos outros, que não lembro, não marcaram muito ou vi apenas alguns episódios perdidos. Isso sem falar nos seriados da infância e adolescência, dos anos 80 e 90 ("MacGyver", "Dama de Ouro", "Anjos da Lei", "Alf, o ETeimoso", "Barrados no Baile", "Melrose Place" e por aí vai).

Mas o tempo passa, o tempo voa e a vida muda. Deixei os seriados de lado e me entreguei a outros vícios (que não mencionarei aqui porque esse é um blog de família). A falta de uma TV a cabo e o desconhecimento das maravilhas que um torrent pode fazer por você ajudaram, claro. Mas devo confessar que, do nada, ficar acompanhando personagens anos a fio me cansou um pouco. Resolvi deixar de viver a vida dos/pelos outros e fui viver a minha. Quebrei um pouco a cara, fato, mas tudo bem.

Em 2010, porém, tudo mudou e voltei a me fascinar por seriados. Deixei novos personagens entrarem na minha vida sem medo e abracei alguns seriados com todas as forças do meu ser. Foram poucos, é verdade, ainda tenho todo um potencial e séries a serem explorados. O tempo ocioso está aí para isso.

A primeira série que me arrebatou foi Dexter. Sim, a série existe há um bom tempo, mas só em 2010 fui conhecê-la. Me apaixonei por Dexter, um serial killer de serial killers. Drama, suspense, um pouco de ação e comédia em tramas cheias de reviravoltas rechearam temporadas que foram num crescendo que alcançaram o ápide da dramaticidade e da perfeição no chocante episódio final da 4a. temporada. A 5a. temporada teve alguns tropeços, mas seguiu firme criando novas situações para Dexter e apresentando todo um novo lado do personagem até então desconhecido. Bem escrita e dirigida e com um elenco perfeito liderado por um Michael C Hall de matar, Dexter pavimentou todo um caminho para eu me entregar aos seriados novamente.

True Blood não deixou por menos e me fez esquecer toda a baboseira de vampiros adolescentes, virgens e chatos daquela saga cinematográfica ridícula que prefiro não mencionar o nome. Os vampiros de verdade estão na tevê (esqueçam "The Vampire Daries"). E eles são sexies, lindos, matam, fazem sexo e mordem sem pena (Bill, o lindo Stephen Moyer, por exemplo, poderia me morder de manhã, de tarde e de noite). Partindo de uma premissa muito bem sacada (vampiros e humanos convivem em uma sociedade "pacificamente"), True Blood mistura vampiros, lobisomens, metamorfos, fadas, sangue artificial, peitos e bundas e fez minha alegria em 2010.

No quesito comédia, tenho pouco a dizer. Confesso que prefiro o drama à comédia, as lágrimas aos risos, pelo menos audiovisualmente. Comecei a ver Glee e me deixei levar pela mistura de estilos musicais e referências pop do seriado. A primeira temporada tem episódios sensacionais (o da Madonna é apenas um deles), momentos mágicos que casam música pop e imagem à perfeição (a releitura dos clipes de Vogue e Physical são exemplos) e personagens carismáticos (Sue Sylvester é um tapa na cara dos hipócritas). A segunda temporada perdeu um pouco o brilho, e a série virou um pastiche de si mesma, usando citações só por citar e virando um panfleto contra o bullying.

Já Hung não chega a ser uma comédia no sentido clássico e aposta em uma pegada mais agridoce. A trama, absurda de original e ousada, gira em torno de um quase quarentão fracassado, divorciado e pai de dois filhos que descobre que seus "dotes" podem render dinheiro. Criada por Alexander Payne, dos ótimos filmes "Eleição" e "As Confissões de Schmidt", a série equilibra humor e drama e traz uma química perfeita entre Thomas Jane (o 40tão dotado) e Jane Adams (sua "cafetina"). Roteiro esperto e ironia na medida elevam Hung a um outro patamar. A série conquista aos poucos e ainda traz Anne Heche como a ex-mulher de Jane.

Mas, talvez, o seriado que mais me surpreendeu tenha sido The Walking Dead. Zumbis sempre foram utilizados como metáforas, seja do que for, desde dos tempos de George Romero. A novidade de The Walking Dead não está aí, mas sim em colocar esses personagens no centro de uma trama televisiva. Ecos de Extermínio e o remake de Madrugada dos Mortos, dois dos filmes que ressuscitaram os zumbis para os novos tempos, podem ser visto aos longos dos seis episódios da primeira temporada, mas isso nem de longe é um demérito. The Walking Dead tem sua cota de originalidade e mostra um mundo sem esperança e cercado de zumbis por todos os lados. Criada por Frank Darabont a partir de uma HQ homônima, a série mostra um grupo de pessoas tentando sobreviver aos caos e tendo que lidar com zumbis e os próprios seres humanos em constante estado de tensão em uma situação-limite (Darabont fez uma obra-prima com situação semelhante no excepcional "O Nevoeiro").

Em 2011, novas temporadas começam: "True Blood" inicia a 4a temporada; "Dexter" vai para a sexta, provavelmente a última; "Hung" tem a 3a temporada garantida; "Glee" termina a segunda; e "The Walking Dead" ganha uma segunda temporada com 13 episódios. Novas séries surgirão, outras acabarão. Quero ver 'The Big C", conhecer "United States of Tara', finalmente me entregar a "Mad Men"... Duas coisas são certas: os torrents estão aí e a banda larga é a melhor amiga do homem.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O Primeiro que Disse



Cinema italiano não é para todo mundo. Quer dizer, pelo menos se for aquele cinema italiano clichezão, cheio de gente falando alto e ao mesmo tempo e explorando o esteriótipo do italiano barulhento, católico, apostólico, romano e preconceituoso. O Primeiro que Disse segue exatamente essa linhas, mas mesmo assim fui lá assistir. Provavelmente pela temática.

O filme narra a história de Tommaso, jovem bonito e bem sucedido que saiu do interior e foi estudar na capital. Em uma de suas idas à casa da família, Tommaso (interpretado pelo clone mais bonito do Domini, aquele rapaz que já ganhou um BBB) decide revelar que é gay. Mas antes o faz para o irmão mais velho. Ele só não esperava que o irmão roubasse sua ideia e revelasse sua homossexualidade aos pais em um jantar de negócios, deixando o rapaz sem muita opção a não ser mudar seus planos.

A partir dessa interessante premissa, O Primeiro que Disse lança um olhar sobre os preconceitos arraigados da típica e tradicional família italiana, mostrando-se um passatempo divertido, mas que não vai muito além. Culpa da direção de Ferzan Ozpetek, que nunca se decide se o filme vai ser um drama ou uma comédia.

A profusão de personagens e a tentativa do diretor de dar estofo a cada um deles também não ajudam, e "O Primeiro que Disse" acaba perdendo força ao apostar em histórias paralelas pouco interessantes e que nunca se desenvolvem (os flashbacks do passado, o suposto romance entre Tommaso e a filha doidinha do sócio da família, a tia destrambelhada, a vinda dos amigos de Tommaso à cidade e por aí vai...).

Entre uma pegada mais divertida e um tom por vezes melancólico, "O Primeiro que Disse" peca ao apostar em clichês gays (os amigos de Tommaso, por exemplo, não podiam ser mais caricatos) e héteros (o fato do patriarca ter uma amante e a matriarca saber até funciona para reforçar a hipocrisia da família, que não aceita a homossexualidade de Antonio, o irmão mais velho, mas não deixa de ser uma saída fácil).

"O Primeiro que Disse" é então uma comédia pastelão que fica na promessa. A gente ri, se diverte com algumas boas piadas e situações, mas fica aquela sensação de que o filme podia ser bem mais. Sensação agravada pela duração mais longa do que necessário (às vezes fica a impressão que Ozpetek não quer terminar o filme e fica criando novas situações) e pelo final que mistura presente e passado de modo totalmente sem sentido.

sábado, 8 de janeiro de 2011

2010: os melhores - parte I

2010 foi um ano de transformação, de passagem. Entre idas e vindas, um sonho virou realidade, os amigos e a família ficaram distantes. Foi um ano de desapego, de deixar a segurança e o conforto de lado e apostar no arriscado. Se fui bem-sucedido ou não, só o tempo vai dizer. Entre um pouco de medo, solidão, esperança, desejos e vontades, 2010 foi mais um ano de ver filmes, ir a shows, ouvir músicas e conhecer bandas, me apaixonar por seriados...

Enquanto 2011 não diz a que veio, eu digo o que eu vi e ouvi de melhor em 2010. É uma seleção pessoal e intransferível, sem a menor pretensão de dizer que isso é melhor do que aquilo. É o melhor para mim, sem pretensões estéticas, históricas ou o que for. Ponto. Foram momentos especiais para mim, que me tocaram, alegraram, me deixaram triste, melancólico, nostálgico, ora feliz, ora cinza.

Filmes
Tenho visto cada vez menos filmes. Compro DVDs e os deixo guardados na estante. Baixo filmes e os deixo ocupando espaço no HD. Vou cada vez menos ao cinema, sempre selecionando o que realmente eu vou achar bom, o que me interessa. Tenho me arriscado menos e menos a descobrir novos cineastas, cinematografias diferentes, estéticas novas. A questão da grana pesa, claro, mas acho que é mais um comodismo cinematográfico mesmo.

Entre o pouco que vi esse ano, destaco A Rede Social. Um filme que tinha tudo para ser chato, mas é um achado nas mãos hábeis de David Fincher, um cineasta que é cara dos anos 1990 ("Seven" e "Clube da Luta' estão entre os melhores desta já distante década), mas não ficou parado no tempo.

No quesito "caralho, o que é isso!", vale lembrar de A Origem (resenha aqui), filme para ser visto em tela grande, com a trilha sonora de Hans Zimmer gritando no último volume. Cinema quebra-cabeça. Cinema ousado. Cinema para gente grande. Muita gente amou. Muita gente odiou. E Christopher Nolan, mais uma vez, fez o filme mais falado do ano (em 2008, o diretor realizou a mesma proeza com o épico "Batman, O Cavaleiro das Trevas").

O cinema nacional não ficou atrás e provou que também sabe fazer filme de verdade, não episódios de novela esticados para a tela grande, nem teses chatas sobre o sertão, o árido ou o mundo cão. Em ritmo de filme de ação, José Padilha não apenas quebrou todos os recordes de bilheteria no país, como fez um longa com ampla repercussão e cheio de braços. Tropa de Elite 2 discute cinema, política, sociedade, tudo com maestria, feito por quem sabe manipular imagens e sons como poucos.

Cinema também é emoção. E eu me abro sem medo a filmes que só querem emocionar, mesmo que não inovem ou tenham falhas. Mesmo não sendo perfeitos, Toy Story 3 (resenha aqui) e Direito de Amar (péssimo título para um filme exemplar) estão bem perto de serem. O primeiro é um animação madura e que não tem medo de ser nostálgica e melancólica em alto grau. Um roteiro primoroso nos leva a uma jornada que mostra que crescer é deixar coisas para trás, é desapegar, sofrer e seguir em frente. Um filme infantil que traz um olhar belo e adulto sobre como é preciso deixar o passado em seu lugar para se alcançar o futuro.

Direito de Amar também é sobre perda, sobre como somos afetados por pessoas e elas influenciam nossas escolhas, trajetória e vida. Esteticamente perfeito, o estreante Tom Ford mostra uma realidade impecável, cheia de ternos bem cortados e cabelos milimetricamente penteados, como contraponto a uma vida vazia de sentidos graças à perda de um grande amor, desses que são tipo avassaladores e não deixam pedra sobre peda. Colin Firth, Julianne Moore e a trilha excepcional de Abel Korzeniowski são a cereja do bolo.

Outros destaques:
A bela trilha sonora, cortesia do Daft Punk, e o visual neon de Tron, O Legado (resenha aqui); O olhar delicado de Spike Jonze sobre a imaginação infantil em Onde Vivem os Monstros; A poesia ganha tradução em imagens no belo Brilho de uma Paixão; Michelle Pfeiffer encara a idade sem medo no drama de época Chéri; Martin Scorsese e Roman Polanski demonstram que sabem abraçar as regras de um gênero como poucos em Ilha do Medo e O Escritor Fantasma; Ryan Reynolds prova que é mais do que um rostinho bonito no ótimo e tenso Enterrado Vivo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Machete will kill again

Quentin Tarantino e Robert Rodriguez criaram uma marca, um estilo bem próprio de fazer cinema. Tarantino com um senso estético e narrativo mais apurado, Rodriguez um tanto mais relapso e descompromissado. Mas ambos apostam em um cinema pop, meio sujo e pé no chão, cheio de referências e pedindo para ser cult. Algumas vezes a fórmula funciona, outras, mostra-se mais cansativa.

Machete, novo trabalho de Rodriguez, fica no meio do caminho. Por um lado, é cinema de entretenimento, divertido pacas, trash no melhor sentido do termo; por outro, tenta a todo custo ser cool e acaba enchendo um pouco a paciência. A começar pela própria origem do filme (derivado de um falso trailer exibido no projeto "Grindhouse", da dupla Tarantino-Rodruiguez), tudo é tão calculado para ser nerd que o longa perde um pouco o foco, e Rodriguez exagera na dose.

Rodriguez, apesar de tentar, também não é nenhum Tarantino, e o que poderia ser um filme cheio de imagens icônicas e possibilidades narrativas se contenta apenas em ser uma produção divertida, vagabunda e com muito sangue e membros decepados. Nada contra. Mas Tarantino sabe fazer isso com mais embasamento, até mais embasamento cinematográfico, seja lá o que isso signifique. Rodriguez coloca uma câmera lenta aqui, outra acolá, faz muita piada com tudo e acha que isso já é o suficiente para ganhar o público.

Nos resta então aproveitar o que o filme tem de melhor a oferecer. O humor escrachado, a ação descelebrada e o elenco nonsense. Danny Trejo é o protagonista perfeito para esse tipo de filme. Robert De Niro, Jessica Alba e Michelle Rodriguez emprestam o carisma ao longa. Lindsay Lohan brinca com sua persona. E Steven Seagal, Don Johnson (da série "Miami Vice") e Jeff Fahey (de "O Passageiro do Futuro", alguém lembra?) são resgatados do limbo dos atores esquecidos.

Quanto à trama, para variar, envolve vingança. O resto é detalhe...


sábado, 11 de dezembro de 2010

Cinema claustrofobia

Se o mundo fosse justo, Enterrado Vivo ganharia destaque e não seria apenas mais uma estreia curiosa no circuito. Se o mundo fosse realmente justo, o filme teria, inclusive, chances de levar pelo menos indicações ao Oscar de melhor roteiro original, fotografia e, por que não, ator para Ryan Reynolds. Mas o mundo está longe de ser justo, então o longa está tendo um lançamento pequeno e sem muita repercussão.

Mesmo não sendo um filme perfeito, não se pode negar que Enterrado Vivo seja acima de tudo uma produção corajosa. Com uma história simples (mas cheia de leituras), o longa traz uma trama inusitada. O personagem de Reynolds acorda enterrado dentro de um caixão, com apenas um isqueiro, uma lanterna e um celular. Depois descobrimos que ele é um motorista de caminhão e está no Iraque, tendo sido sequestrado por bandidos/terroristas que exigem um resgate em dinheiro.

A partir daí, o diretor espanhol Rodrigo Cortés constrói um filme tenso e claustrofóbico que coloca todo seu peso sob os ombros de Ryan Reynolds. "Enterrado Vivo" dura cerca de uma hora e meia e se passa todo dentro do caixão, sem nenhum tipo de alívio para o espectador, que experencia a mesma sensação de Reynolds, preso em um espaço pequeno, apertado, com pouco ar e sem iluminação (metaforicamente quase remetendo à sala escura do cinema).

Se o ator é quem segura a onda e torna a história plausível para o espectador, Cortés toma as decisões certas e não hesita em mostrar longos planos escuros no qual só ouvimos o que acontece e fotografar o filme apenas com as luzes dos objetos que Reynolds tem em mãos (o isqueiro, a tela do celular, uma lanterna e dois sinalizadores).

O resultado é um filme intenso, que passa longe de ser arrastado ou tedioso, e que ainda lança uma série de críticas ao sistema americano: seja à política de resgate do exército americano, que se recusa a negociar com os sequestradores/terroristas, seja ao modo como a empresa que contrata Reynolds lida com a situação.

Filmado sem grandes concessões, o filme só perde um pouco do impacto no final, quando o diretor se alonga demais para concluir o longa e acaba apostando em resoluções um tanto apelativas. A impressão que fica é que Cortés gostou demais da ideia da produção e não soube abrir mão de situações que não agregam nada à trama.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Rede Social e outros filmes...

David Fincher é o cara. O diretor começou a carreira fazendo comerciais e ficou famoso comandando videoclipes de gente como Madonna (Vogue e Express Yourself são dele), Paula Abdul, Rolling Stones, Aerosmith e outros. Depois migrou para o cinema e, se não virou um dos melhores diretores contemporâneos, concebeu pelo menos duas obras-primas cinematográficas dos anos 90 (Seven e Clube da Luta). Dono de um estilo visual bastante peculiar e com um olhar narrativo apurado, Fincher virou referência e sinônimo de ousadia.

Não é de estranhar que A Rede Social seja um belo exercício cinematográfico. O filme, que narra a fundação de uma das maiores e mais importantes redes sociais da atualidade (o Facebook), tinha tudo para ser chato e desinteressante para que não é familiar ao assunto. Mas com um roteiro perfeito em mãos e um elenco jovem e atuando na medida, Fincher deixa um pouco de lado um olhar mais estilizado e aposta na história, construindo um longa envolvente e que prende a atenção unicamente pela trama.

Claro que as estripulias estéticas comuns ao diretor estão presentes (a edição vai e volta no tempo; a fotografia remete a seus trabalhos anteriores, com cores menos vivas e uma aura quase cirúrgica e clean; os enquadramentos procuram fugir do convencional; a trilha sonora é peça chave etc.), mas aqui elas são menos, e A Rede Social funciona por ser um ótimo exercício narrativo, vigoroso e passional. Entre traições, intrigas e muitas acusações, os personagens são a mola-mestra do longa.

E se algo pesa contra o filme, são os próprios personagens e a forma como a produção as coloca em primeiro plano que pode diminuir um pouco seu valor. Mesquinhos, sem escrúpulos e pretensiosos, eles querem mudar o mundo e acabam se tornando figuras pouco carismáticas aos olhos do público. Ainda que isso resulte em um distanciamento (é difícil criar empatia por alguém), o longa busca outras formas de envolver o espectador (seja pelo roteiro brilhante cheio de diálogos aguçados, seja simplemente pela honestidade com que os personagens são representados pelo elenco). O resultado é um filme ágil, moderno e impactante. A prova que hoje em dia é possível sim fazer cinema para gente grande.

Um assassino melancólico - George Clooney sempre me pareceu um ator limitado e que conquistava mais pelo carisma do que propriamente pelo talento. Depois de boas atuações em Conduta de Risco e Amor Sem Escalas, o ator volta a demonstrar competência mais uma vez no interessante Um Homem Misterioso, filme de espionagem contemplativo e com ares de produção europeia. Dirigido pelo renomado fotógrafo e diretor de clipes Anton Corbijn, Um Homem Misterioso ousa por não adotar o ritmo imposto pelos filmes de Jason Bourne ou James Bond e apostar mais na caracterização do personagem principal. Mesmo tendo uma trama que não vai a lugar algum, o filme é bem dirigido e bonito de se ver.

Um Woody Allen menor - Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos é um dos piores trabalhos de Woody Allen. Mal dirigido e com um bom elenco desperdiçado (Naomi Watts, Anthony Hopkins, Josh Brolin etc.), o filme é repetitivo e traz um dos roteiros menos inspirados do cineasta. Arrastado e sem muito propósito, o filme começa sem dizer a que veio e termina quase como se tivesse sido abandonado pelo diretor. O universo é aquele mesmo típico de Woody Allen, só que agora menos interessante, mais chato e com sotaque britânico.

Tropa de Elite 2 - O filme pode ser acusado de fascista e o que for, mas não dá para negar que é um dos melhores exemplares do cinema nacional, mostrando que a gente pode sim fazer coisas de qualidade. José Padilha é nosso Oliver Stone, sabe manipular como ninguém e construir teorias e mais teorias por meio de imagens e de sons. E que imagens e sons... Tropa de Elite 2 é filmado com sabedoria e traz cada peça no lugar: do roteiro preciso, passando pelas atuações viscerais e chegando à produção caprichadíssima, o filme é quase a redenção do cinema nacional. José Padilha não tem o menor pudor em dar um soco no estômago do espectador e cuspir na cara dos cineastas brasileiros que ao invés de apostar em um bom cinema perdem tempo tentando fazer teses audiovisuais sem sentido. Não é a toa que o filme virou o exemplar mais visto do nosso cinema.

domingo, 28 de novembro de 2010

Três vezes Piranha


Sempre gostei de filmes de terror. E também sempre tive uma tendência a querer ver coisas classificadas como trash, mesmo muita gente não entendendo essas minhas vontades. Aproveitando então a estreia do remake de Piranha (que, infelizmente, perdi de ver em versão 3D nos cinemas), resolvi rever os clássicos trash cults lançados em meados dos anos 1980. Já tinha vistos os filmes quando adolescente, mas não lembrava nada deles, apenas de que eram bem ruins.

Claro que ambos continuam ruins, mas até que são divertidos. O primeiro Piranha, dirigido por um desconhecido Joe Dante (que depois ficaria famoso com os dois Gremlins), é uma cópia descarada de "Tubarão", de Steven Spielberg, mentor de Dante, aliás. Com poucos recursos, efeitos de quinta e uma trama batida e cheia de furos, o filme tem como maior destaque os efeitos sonoros e as sombras utilizadas para representar as piranhas, que sabiamente são pouco mostradas.

Por incrível que pareça, Piranha 2 - Assassinas Voadoras é melhor que o primeiro. Apresentando James Cameron como diretor (depois ele estouraria com O Exterminador do Futuro), o filme é quase uma cópia do primeiro, com o adendo de as piranhas voarem (!!!). O elenco é primário (com direito a um clone oitentista do Bradley Cooper), e a trama é estapafúrdia, mas Cameron já dava indícios de saber o que fazer com uma câmera, construíndo uma narrativa tensa e que segura a atenção.

Os dois longas, lançados em 1978 e 1981, viraram cult e estão mais para trash do que para filmes de terror propriamente dito. Já o remake é uma decepção: os efeitos são melhores, óbvio, mas o tom apelativo e moralista não ajuda. Abraçando sem pena o camp, um dos grandes defeitos da produção é a pretensão de querer ser um cult. Entre muitos peitos e uma edição acelerada, o longa de Alexandre Aja fracassa por exagerar na sua tentativa de não se levar a sério.

Nem o elenco um pouco mais conhecido ajuda: dá pena ver Elisabeth Shue se prestando a ser heroína em filme de quinta; já Christopher Llyod meio que reprisa o papel de cientista maluco que o fez famoso na trilogia De Volta para o Futuro; e Ving Rhames e Richard Dreyfuss não fazem absolutamente nada a não ser virarem comida de piranha, o que convenhamos é muito pouco.