segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Seriado: Bates Motel

Demorei, demorei, mas me rendi e assisti, em ritmo de maratona, a primeira temporada de Bates Motel. A premissa é bem interessante: mostrar a relação entre Norman Bates e sua mãe Norma antes dos acontecimentos do clássico Psicose. Mas de premissas interessantes o inferno está cheio, e "Bates Motel" fica no meio do caminho entre ser uma curiosidade e uma completa bosta.

A série começa com a misteriosa morte do pai de Norman Bates (interpretado de modo correto por Freddie Highmore) para logo em seguida ele e sua mãe se mudarem para uma cidade pequena e comprarem um antigo hotel à beira da estrada. A partir daí, toda a ideia de que a série vai centrar o foco na relação um tanto incestuosa e de dependência entre Norman e sua mãe é deixada de lado para mostrar mortes, assassinatos, conspirações e um monte de subtramas que nunca empolgam.

"Bates Motel" já começa errado ao repetir o velho clichê de que toda cidade pequena é cheia de gente que esconde esqueletos no armário (coisa que David Lynch ou mesmo Jane Campion já fizerem com mais propriedade na clássica “Twin Peaks” e na recente “Top of the Lake”). Sem suspense ou terror, o seriado fica no meio termo entre o drama convencional e uma comédia involuntária. O elenco coadjuvante e a ambientação contemporânea (apesar de ser um prequel de “Psicose”, Bates tem iPhone e as preocupações de um adolescente dos dias de hoje) pouco acrescentam, e a série é salva pela interpretação tragicômica da ótima Vera Farmiga como a superprotetora Norma.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Cinema: Ferrugem e Osso

De gente fudida, o mundo está cheio. No cinema, não é muito diferente, e filmes de gente fudida que cruza a vida de mais gente fudida se transformaram quase em fórmula. A gente assiste a esse tipo de produção sempre em busca de alguma coisa, afinal, é mais fácil achar superação e redenção no cinema do que na vida real.

Na linha “é melhor ser fudido junto que sozinho”, Ferrugem e Osso é desses longas que chegam como uma voadora no peito. Sem muito alívio ou referências, somos apresentados a Alain (Matthias Schoenaerts) e Stéphanie (Marion Cotillard). Ele trabalha como segurança e não faz a menor ideia do que fazer com o filho de cinco anos. Ela é uma treinadora de baleias que perde as pernas e a vontade de viver em um acidente. Ambos têm algo em comum: são quase ímãs de tragédias pessoais. Eventualmente os dois se esbarram e acabam usando um ao outro em uma relação de dependência mútua (tem um nome lindo na biologia pra isso, mas não lembro qual é e nem vou atrás de saber).

Com um plot assim, não dá para esperar um filme feliz de “Ferrugem e Osso”. E Jacques Audiard (“O Profeta”) também não faz muita questão de minimizar a dor dos personagens (e consequentemente do público). O cineasta filma com elegância, usando câmeras lentas e uma fotografia que aposta sempre na luz do sol estourando para tentar tirar alguma beleza do vazio e desespero de seus personagens. Audiard também filma de uma forma que deixa a impressão que alguma merda está sempre prestes a acontecer. E elas acontecem.

Seja pelo ótimo desempenho dos atores ou carinho com que Audiard narra a história dessas duas almas perdidas (as cenas de sexo e luta são filmadas com a mesma intensidade e beleza), “Ferrugem e Osso” evita ser um longa extremamente desesperançoso, ainda que assuma ser pesado. Longe de ter um típico final feliz, o filme termina com uma lição: os fudidos também amam.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cinema: Frances Ha

A melhor coisa de Frances Ha, nova incursão do diretor Noah Baumbach (“A Lula e a Baleia”) na seara do cinema independente norte-americano, é mesmo a personagem que dá título ao filme. Frances Ha tem vinte e muitos anos, não tem muita grana, brinca de ser bailarina contemporânea nas horas vagas e circula pelas ruas de Nova York sempre com um sorriso no rosto. Ela é meio abobalhada, tem certo talento para se meter em situações constrangedoras e passeia por empregos, casas e casos sem se fixar a nenhum deles. Ou seja, segundo as normas da sociedade atual, precisa dar um rumo na vida.

É Frances Ha (interpretada de modo bastante carismático por Greta Gerwig) que dá vida a esse filme de Baumbach, que, para o bem e para o mal, poderia ser confundido com um episódio esticado da série cult-indie-moderninha do momento: “Gilrs”, com a vantagem da personagem (e atriz) ser bem menos chata do que a personagem (e atriz) de “Girls” (Lena Dunham).

Gerwig pode não ter uma dramaticidade a la Meryl Streep, mas empresta ao longa uma naturalidade que o distancia do mero exercício independente. É a atriz (e a personagem) que cola as cenas soltas e as situações esparsas que vão acontecendo ao longo de quase 90 minutos. Ela é o coração e a alma desse filme delicado e simpático, mas quase banal

Quanto à produção em si, Baumbach já fez melhor antes, mas, ainda assim, “Frances Ha” é um filme bem fácil de assistir. O roteiro cheio de saltos narrativos não atrapalha. Os diálogos são inteligentes e engraçados. A fotografia em preto & branco não se justifica, mas empresta certa aura nostálgica ao longa. A trilha sonora é bonitinha e está toda no lugar. E os coadjuvantes podem não ser grandes personagens, mas dão o suporte necessário para Frances/Greta brilhar. Pode ser pouco, mas também pode ser muito.

PS: a péssima projeção com o som baixíssimo da sala do Reserva Cultural não ajuda muito.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cinema: Passion

Apesar de já ter se arriscado por vários gêneros (ficção científica, filmes de máfia, ação, terror e até comédia), menino Brian De Palma fez seu nome dirigindo longas de suspense com uma pegada hitchcockiana ou thrillers com uma roupagem noir, talvez até uma mistura dos dois. “Vestida para Matar”, “Dublê de Corpo”, “Síndrome de Cain”, “Femme Fatale”, “A Dália Negra” e “Um Tiro na Noite” são alguns dos trabalhos que criaram a fama do diretor.

Sempre cuidadoso com as imagens e mestre em elaborar planos-sequência cheios de tensão, De Palma volta ao tipo de filme que o consagrou em Passion, remake de uma produção francesa, e caga tudo. Praticamente jogando a carreira no lixo, o cineasta desperdiça belas cenas e composições (a cena do balé é visualmente linda) em uma trama absurdamente sem pé nem cabeça e que descamba para a comédia involuntária.

Resumindo a coisa toda: é Rachel McAdams canastrona dando uns pegas na insossa Noomi Rapace em um longa que envolve inveja, vingança, paixão, publicidade, assassinato e mistério. Tudo isso jogado sem critérios em um liquidificar de autoplágio. Graças à trilha musical de quinta e um clima de filme ruim feito para TV, os lampejos de genialidade que menino De Palma demonstra em alguns momentos são desperdiçados em uma típica produção lesbian chic com cara de Supercine do mal. Lastimável e um tanto constrangedor, ainda que bonitinho de se ver.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bling Ring – A Gangue de Hollywood

Sofia Coppola filma o vazio e a futilidade como poucos. The Bling Ring não é diferente. A cineasta constrói belas cenas mostrando closets, casas suntuosas e filma sapatos, bolsas e roupas caras como se fossem um personagem a mais em seu novo filme. A produção narra a história de um grupo de jovens riquinhos em Los Angeles. Sem nada para fazer, eles invadem a casa de celebridades para experimentar e roubar de um mundo que não é o deles, apesar deles o conhecerem como se fosse.
A história parece absurda para nós brasileiros, que raramente deixamos a casa vazia com portas abertas ou chaves debaixo do carpete. Mas, em Los Angeles, as coisas são diferentes, tanto que o longa é inspirado em uma história real.
 
Realidade ou ficção, Coppola parte de um ponto senso comum e chega a uma conclusão um tanto óbvia em seu novo trabalho: a juventude de hoje é oca, preocupada demais com aparência, marcas ostensivas e um mundo de celebridades onipresente, ainda que longe de realidade da maioria de nós meros mortais. Os jovens do universo retratado por Coppola não largam o smartphone, andam como se estivessem em desfiles de moda e são donos de uma arrogância típica da juventude. Não sabemos o que os move, e a diretora também não parece muito preocupada em desvendar suas razões.
Sendo assim, “The Bling Ring” começa de modo interessante, trocando a típica paisagem sonora Sofia Coppola de ser (composta pelo som etéreo do Air e Phoenix) pelo hip hop de Kayne West, Frank Ocean, M.I.A, Azealia Banks e Chris Brown, o som que representa essa nova geração hiperbólica. A empolgação e a vibração do início, porém, vão perdendo o brilho na medida em que o deslumbramento inicial das invasões vira rotina dentro de um roteiro que não tem muito a dizer (e quando tem, é apenas o básico).
 
Os comentários da cineasta até existem e permeiam o filme por meio de entrevistas com os jovens envolvidos nas invasões e nos roubos. Eles, no entanto, são um tanto desnecessários e acrescentam pouco à dinâmica da produção, apenas emperrando o ritmo de um longa que flerta mais com a velocidade de informações que nos bombardeiam hoje do que com a contemplação dos trabalhos anteriores da diretora. O vazio narrativo de Sofia dá lugar a um vazio de significados. Não deixa de ser um caminho diferente escolhido por ela, ainda que a temática (juventude, vazio, banalidade) e a ambientação (Los Angeles) sejam comuns à filmografia da cineasta.
“The Bling Ring” pode não ser um grande trabalho, mas é um filme divertido, bem filmado e com um bom elenco jovem de rostos desconhecidos (exceção de Emma Watson e Taissa Farmiga). É quase Coppola flertando com a comédia, ainda que o riso surja menos por meio de situações e mais de um olhar irônico sobre a coisa toda. Mas falta algo: talvez uma compaixão maior da diretora pelos próprios personagens ou mesmo um olhar sem tantos julgamentos.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Cinema: Círculo de Fogo

É, acho que no fundo eu tenho um pé na nerdice. Nada em Círculo de Fogo me deixou empolgado antes de sua estreia: nem o trailer, os cartazes ou a direção de Guillermo Del Toro. Aliás, toda a campanha “ui que geek!” só me deixou com preguiça de assistir ao filme, e minha expectativa era zero. Mas a verdade é que o longa é muito, muito divertido.
Sim, a produção está longe de ser perfeita, e algumas opções de Del Toro podem até ser entendidas, mas não deixam de ser um tanto frustrantes. A fotografia é escura demais; o típico tom ufanista do cinemão hollywoodiano marca presença; a destruição é em massa, mas é tudo limpinho demais, não se vê mortes ou sangue. Normal, mas frustrante sim.

Mas a preocupação de Del Toro não é subverter um gênero ou virar paradigma, e sim entregar um puta filme de aventura, ação e destruição em escala épica, o que ele faz com certo louvor. Está certo que os personagens são sofríveis, os diálogos, rasteiros e o humor válvula de escape raramente funciona (os dois cientistas são bem chatinhos). Mas as batalhas são épicas, a trilha sonora encontra o tom certo entre a grandiosidade e o sentimentalismo, e o ritmo é bem correto e não deixa aquela sensação cada vez mais comuns em filmes de ação que a porra toda poderia ser bem mais curta.

O visual do filme também é bem interessante, no que diz respeito à direção de arte (Hong Kong é totalmente chupada de “Blade Runner”) e ao colorido neon que, às vezes, domina a fotografia. Os robôs gigantes impressionam (eles são pesados e sua movimentação é bem real), já os monstros nem tanto (sim, culpa da fotografia escura que não mostra muitos detalhes e os deixa com caras de esboços incompletos).

Um dos maiores problemas de “Círculo de Fogo”, no entanto, nem são os personagens marcados para morrer ou vencer desde o início do filme, mas sim a própria construção de sua mitologia, entregue em um início bem didático e preguiçoso em voz off. Mas se o longa não inova em termos de estrutura ou mesmo efeitos, pelo menos Del Toro sabe focar no que o filme tem de melhor: as lutas grandiosas e seu potencial para a diversão. E sem direito a gancho chato para a continuação. Imperfeito sim, mas entretenimento e dos bons.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cinema: Wolverine - Imortal

Houve uma época em que filmes de super-heróis eram raros e especiais. Hoje, são uma praga, lançados de todos os jeitos, com todo tipo de orçamento e para todos os nichos de mercados. Tornaram-se tão corriqueiros quanto banais. Em outra época, Wolverine – Imortal seria até interessante, mas, em pleno 2013, é qualquer coisa que se situa no limbo entre uma bomba como “Elektra” e uma maravilha como “X-Men: Primeira Classe”.

O filme de James Mangold é tão genérico que nada se sobressai. É tudo tão formulaico e sem apelo que pode não ser uma tragédia, mas também está longe de fazer jus ao herói, simplesmente um dos membros mais interessantes (e agora desgastados) dos X-Men. Hugh Jackman, talvez, seja a única razão para se assistir a esse filme. Ele interpreta Logan/Wolverine com a mesma garra e vontade dos tempos do primeiro X-Men, mas o esforço do ator não se justifica graças a um roteiro nada empolgante e um monte de tentativas de piadas sem graça.

A questão nem é se o longa é fiel ou não aos quadrinhos, mas sim a quantidade de caminhos que ele poderia seguir e não segue. A falta de carisma dos vilões e a previsibilidade da trama também não ajudam (a mutante loirinha lembra, e muito, a Erva Venenosa do horroroso “Batman & Robin”; e a suposta reviravolta final é bem óbvia).

Mas enfim, olhando pelo lado positivo, se o 3D do filme não vale a pena, se a produção está longe de ser arrebatadora em termos estéticos e/ou narrativos, e se Hugh Jackman parece ser o único que realmente se importa com tudo que está acontecendo à sua volta, pelo menos uma coisa vale o preço do ingresso: a cena-surpresa depois dos créditos abre caminho para o próximo filme dos X-Men e deixa os fãs babando e torcendo para que Hollywood não cague uma das melhores tramas dos mutantes: a clássica Dias de um Futuro Esquecido. Não nos decepcione, Bryan Singer!