segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cinema: À Toda Prova

Steven Soderbergh chuta o pau da barraca nesse À Toda Prova, longa de ação descerebrado que tem como mérito maior ser protagonizado por uma lutadora de MMA (não me perguntem o que é isso, porque eu não sei!), Gina Carano, e trazer um bando de atores fazendo pontas, ou sendo espancados, melhor dizendo. A história, um tanto confusa, gira em torno da boa e velha traição, com direito à espionagem, mortes e viagens pelo mundo afora.

É um filme de ação com toques de produção de espionagem envernizado com a grife Soderbergh de ser. Ou seja, fotografia em tons amarelados (desde “Traffic” que o moço insiste na mesma paleta de cores), rostos conhecidos e uma edição engraçadinha cheia de firulas. Em resumo: muito estofo para pouca coisa.
A trama gira em torno de Mallory Kane (Carano), espiã que é traída pelos chefes em meio a uma missão e tem que provar sua inocência. Nada mais do que óbvio. Para disfarçar a obviedade, Soderbergh estraga tudo e vai contando a história de forma não linear, o que só atrapalha mais ainda a brincadeira. Ok, talvez, as duas cervejas que tomei antes da sessão não tenham ajudado, mas saí com a impressão de que o longa seria bem melhor se fosse contado de forma convencional, sem porra de flashbacks e vai e voltas no tempo.
Entre sopapos, pontapés, alguns tiros e explosões, Carano se saiu muito bem na parte física da coisa toda, mas não convence como atriz, sempre com uma cara emburrada nada carismática. O elenco masculino é interessante, mas só serve de escada à “atriz” e vai morrendo ou sendo descartado no decorrer da produção (Michael Douglas, Ewan McGregor, Antonio Banderas e os garotos da vez Michael Fassbender e Channing Tatum dão o ar ou os bíceps de sua graça).
O resultado é um filme frouxo que só se sustenta pela curiosidade de ver Soderbergh desbravando mais um gênero (o rapaz já fez de tudo: drama, filme polêmico sobre sexo, longa de doença catástrofe,produção kafkaniana, filme de assalto, veículo para Julia Roberts ganhar Oscar,produção experimental, ficção científica, cinebiografia de líder político, fracasso dirigido em preto e branco e mais uma porrada de fime - gente, como esse homem trabalha!). No caso de “À Toda Prova”, menos seria mais, e Soderbergh é o principal defeito do longa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Há dois anos...

... eu desembarcava em São Paulo com algumas malas e sonhos. Mais do que sonhos, na verdade, eu buscava voltar a sentir sensações que tinha sentido antes ao visitar a cidade e que não mais sentia na minha cidade de origem, Fortaleza (que nem minha cidade de origem é, mas foi onde passei a maior parte da minha vida!). A sensação de vivenciar uma vida mais cultural que sempre tanto me agradou. A sensação de pertencimento ao andar esbarrando em um monte de gente pelas ruas cheias de uma das maiores metrópoles do mundo. A sensação de crença de estar mais próximo de pessoas que levam um estilo de vida mais parecido com o meu. No meio do recheio de todas essas vontades clichês, a maior de todas: fugir de mim mesmo ao achar que, mudando de cidade, mudaria por tabela meu modo meio torto de ver o mundo e encarar as coisas.
  
Dois anos depois, já voltei a viver inúmeras vezes a sensação que senti no belo show do Radiohead, na Chácara do Jockey, lá em 2009, quando me dei conta que, realmente, talvez eu fosse mais feliz em São Paulo do que em qualquer outro lugar (e foi voltando no avião, ao som de “Reckoner” e “Weird Fishes/Arpeggi”, que caiu a ficha de que era hora de realmente vir para Sampa; cerca de um ano depois, cá estava eu). Dois anos depois ainda me assusto ao fazer uma baldeação na Sé ou nas estações Consolação e Paulista e me deparar com um mar de gente que parece não ter fim. Dois anos depois, efetivamente, conheci algumas pessoas bacanas e que levam, sim, um estilo de vida mais próximo do meu. Infelizmente, depois de dois anos, ainda não consegui fugir de mim mesmo e continuo pensando meio torto e encarando as coisas da forma mais complicada possível. Culpa minha, não de São Paulo!
Hoje, exatamente hoje, estou na dúvida se dois anos é pouco tempo, ou se muito tempo já passou. Nesse pouco ou muito tempo, descobri, claro, que a São Paulo das visitas é bem diferente da São Paulo do dia a dia. Hoje, a cidade, antes confusa e que me deixava com receio, já tem uma lógica geográfica na minha cabeça, e isso me deixa extramete feliz, ainda que eu circule bem pouco por várias regiões dela. Hoje, a Metrópole, antes contemporânea e moderna, ganhou ares de cidade conservadora e reacionária que, às vezes, assusta.
Mas a questão é que, com pouco ou muito tempo, a impressão é que já fiz e vivi um monte de coisas por aqui. E o melhor, ainda tenho a impressão/esperança que tem muita, muita coisa a ser feita e vivida. Acho que é isso que mais me agrada atualmente em São Paulo. O emprego bacana não veio e, hoje, trabalho porque tenho que trabalhar e pagar contas. Aquela pessoa legal também não deu as caras, mas o sexo fácil em São Paulo serve como tapa buraco para os vários vazios existenciais. O dinheiro também não veio. Pelo contrário, ele foi embora, porque São Paulo é muito, muito cara. Mas tudo bem, porque, para o bem ou para o mal, São Paulo sempre deixa as portas abertas para possibilidades.
E, talvez, essa tenha sido a grande razão deu ter deixado tudo para trás (família, amigos, empregos, conforto) em Fortaleza e vindo para cá. Fortaleza já deu o que tinha que dar (boas coisas, é verdade), mas fechou às portas para as possibilidades que eu estava/estou/estarei almejando sempre.
Entre shows internacionais, festivais de música, mostras de cinema, exposições bacanas, conversas banais em bares da vida, noites dançantes na pista do Netão, sexos casuais, freelas e empregos, o que mais me orgulha é saber que fiz tudo isso enquanto “cidadão paulistano”, morando e vivendo nessa cidade que pode ser muito, muito cão (Qualquer um pode fazer isso em um final de semana em São Paulo, na verdade. Vários amigos de Fortaleza, vira e mexe, fazem. Mas, desculpem-me, morando aqui, com CEP fixo, o gostinho é diferente).
Para quem com mais de 30 anos, já deixando a juventude para trás e sem muito ânimo para riscos, chegou aqui sem eira nem beira, sem lenço e sem documento, sem nada realmente concreto em mãos, a não ser sonhos e possibilidades, morrendo de medo de fracassar, ficar sem grana e ter que voltar com o rabinho entre as pernas, é muita coisa.  
Em pleno inferno astral e ouvindo Sigur Rós (lindo como sempre) como trilha, não sei se São Paulo será meu destino final, mas é hora de assumir que minha decisão de vir para cá não foi um erro e deixar de pensar nas coisas que ficaram para trás. É hora de, finalmente, realizar que aqui é onde eu moro, aqui é onde eu trabalho e aqui é, exatamente, onde eu quero que outras coisas boas aconteçam.
PS: Mil perdões pelo texto piegas e confuso, cheio de “muitos” e palavras repetidas. Em breve, voltaremos a programação normal de textos sobre coisas interessantes: cinema, música, seriados etc. Enquanto não escrevo nada novo aqui, comecei a colaborar com o portal Umbigo das Coisas e já tem dois textos meus lá: Jovens Adultos e Beleza Adormecida.
PS1: O Pensamentos FabioFreireanos, alcunha dada por uma amiga, nasceu logo quando vim para São Paulo. Ele nunca foi, nem nunca será, uma obrigação ou algo que eu realmente leve a sério. Mas, enfim, ele é um bom fruto da minha vida em Sampa.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cinema: Um método perigoso

David Cronenberg já tinha assumido uma postura mais “acadêmica” em seus últimos trabalhos, “Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”, para ser mais preciso. Deixando de lado uma narrativa mais intrincada e um apuro estético para o grotesco, o diretor, conhecido por seus filmes esquisitos nos quais pessoas explodem cabeças de outras com o poder da mente ou cientistas se transformam em moscas gigantes, nos últimos filmes, o cineasta apontava para um novo caminho de formalismo mais didático. Os personagens envoltos em violência - física, moral, ética ou psicológica - continuavam fazendo parte do universo de Cronenberg, mas em uma chave mais universal e limpinha que vinha ampliando seu público.

Um Método Perigoso é o ápice desse cinema quadrado adotado pelo cineasta canadense. Fantasiado de filme de época, o longa deixa o espectador vislumbrar uma série de possíveis características do cinema "cronenberguiano" (a violência psicológica, o sexo, os temas tabus), mas a embalagem genérica da produção resulta em uma experiência qualquer nota. Nada no filme realça a trama que envolve Freud, Jung, sexo, uma paciente obcecada por humilhações e o despertar de um novo modo de pensar na psicologia moderna.
Tudo em “Um Método Perigoso” é apático. A produção do filme nunca chama a atenção. E o que poderia ser uma qualidade, a partir do momento em que longas de época costumam apelar ao visual para esconder falhas, acaba sendo um defeito, já que temos a impressão que nada nunca acontece. O roteiro irregular e a direção em terceira pessoa de Cronenberg potencializam mais ainda a fraqueza do trabalho. “Um Método Perigoso” é um desses filmes qualquer coisa. É um Cronenberg para coxinha ver.
Nem o “elenco de sonhos” salva. Se o ator da vez, Michael Fassbender, faz o que pode no papel de um Jung perdido em questões éticas, Viggo Mortensen até empresta certa dignidade a um Freud visivelmente frustrado, mas não vai muito além disso. A única coisa digna de nota no filme é a interpretação exageradíssima de Keira Knightley, que erra feio ao tentar emular o espírito da obra de Cronenberg, entregando uma atuação acima do tom que destoa do resto do longa. Quando o filme chega ao fim, o que fica na nossa lembrança são as mandíbulas da atriz. Muito pouco para um cineasta outrora tão ousado quanto Cronenberg.

sábado, 31 de março de 2012

Cinema e música: dois lados de Madonna

Não deixa de ser surpreendente que Madonna ainda seja uma artista relevante nos dias de hoje. Em tempos de consumo rápido e fama passageira, a cantora, atriz, diretora e sei lá mais o quê ainda consegue se manter em voga, seja pelas polêmicas ou pelos trabalhos, em um mercado cada vez mais poluído de gente. Em tempos de Lady Gaga, Kety Perry, Rihanna e outras tantas musas pré-fabricadas que mudam de figurino, peruca e estilo musical conforme a maré, Madonna ainda é a rainha, mesmo com cerca de 30 anos de carreira nos ombros e já tendo passado dos 50 anos.
Nesse tempo, ela já fez de tudo um pouco e bebeu nas mais diversas referências musicais, ditando moda e virando modelo a ser seguido. Hoje, depois de tanto tempo na batalha, ela pode não mais inovar em postura, polêmicas ou tendências da música pop, mas ainda assim se mantém no topo. Seu mais recente trabalho, o 12º álbum da carreira, MDNA, é a prova disso. O disco pode não trazer a cantora ousada de Like a Prayer e Erotica, ou a experimental de Ray of Light, seus melhores discos, mas é um álbum coeso que tem seus momentos de brilho.

Se os primeiros singles, a equivocada “Give Me All Your Luvin´” e a genérica “Girl Gone Wild”, prenunciavam um tremendo fracasso, senão comercial, artístico, MDNA vazou, foi lançado e acalmou os fãs. O álbum tem suas fraquezas, quebras de ritmo e sonoridade genérica. Mas são os momentos brilhantes que ficam na cabeça. “Gang Bang”, por exemplo, entra direto na lista das melhores canções da artista. Com uma letra safada e batidas eletrônicas empolgantes, a música é a melhor do disco e perfeita para as pistas.

Na mesma linha de qualidade, “Turn Up the Radio” é uma música pop precisa e cheia de ginga, dessas poucas que elevam a alma e merecem ser cantadas junto. “I´m Addicted” é outra música de balada que funciona muito bem regada a tequilas e suores no meio da multidão. “Some Girls”, “Superstar” e “I Don´t Give A” mantém a pegada pop e são eficientes. 
Um dos clichês das cantoras pop é investir em baladinhas. Madonna não foge à regra e entrega a bela “I Fucked Up”. Outras baladas, “Falling Free” e “Masterpierce”, destoam do restante do álbum, mas são corretas.
Nesse mix de ótimas canções e outras nem tanto (“Beautiful Killer” parece uma releitura piorada de “Die Another Day”, “B-Day Song” é bobinha e passa batida e “Best Friend” dispara como a mais fraca do trabalho), MDNA ganha peso com letras como “I´m a Sninner”, que de certa forma sintetiza o talento da cantora para a confusão, ou com Nicki Minaj decretando em algum momento: “There's only one Queen, and that´s Madonna”.

W.E
Se na música, a cantora Madonna não precisa provar mais nada a ninguém há muito tempo, no cinema, a história é outra. A atriz Madonna nunca foi respeitada e suas incursões cinematográficas raramente foram bem sucedidas. O caminho da artista como diretora parece seguir o mesmo rumo. Depois de adiar por semanas uma ida ao cinema para conferir seu segundo trabalho (o primeiro, eu não vi) atrás das câmeras, o ambicioso W.E, a conclusão é que ela é uma diretora com muito a aprender.

O filme foi rechaçado, cuspido e mijado pela crítica sem pena. Existem razões para tal fúria. Madonna patina em insegurança e demonstra uma preocupação excessiva em dar um ar estético demais ao longa, deixando de lado a coerência narrativa. Imbuída em criar uma obra suntuosa, relevante e visualmente acachapante (os figurinos são deslumbrantes, a encenação é caprichada, os movimentos de câmera são elegantes e a trilha sonora bem utilizada), a diretora Madonna cria vários momentos de absoluto constrangimento típicos de alguém que não quer assumir a inexperiência.
W.E é um filme complexo, e esse talvez seja seu grande defeito. Madonna não sabe lidar com a nuanças da obra e, na maioria das vezes, soa arrogante e aposta pesado no clichê. A produção já começa errada ao se dividir em duas linhas temporais. Essas idas e vindas no tempo são amarradas por uma edição que quer a todo momento criar uma ligação entre elas, o que enfraquece o conjunto e vai deixando o filme cansativo à medida em que o recurso vai se esvaziando.

A diretora também era ao apostar em uma abordagem didática que explica da forma mais simples possível o que não é dito na tela. Enquanto a trama do passado (que relata o envolvimento do futuro rei do Reino Unido com uma plebeia americana e casada) é conta por meio de elipses e mais elipses que pouco contribuem para seu entendimento; no presente, temos uma história pouco convincente sobre uma mulher presa a uma casamento fracassado e que se vê envolvida com um segurança russo um tanto intelectual demais para ser convincente.
O resultado é um filme frouxo. A suntuosidade da encenação se perde diante da superficialidade narrativa. Os acertos estéticos são ofuscados pelas atuações fora de tom. Se no passado, temos uma Wallis (Andrea Riseborough) exagerada, com uma impostação teatral e forçada disparando frases feitas de modo afetado; no presente, o espectador se depara com uma Wally (Abbie Cornish) apagada e sem vida, com uma voz doce e postura insegura. Nenhuma das duas convence, e tudo a volta delas parece ser charmoso, elegante, luxuoso e sem propósito.

Mal comparando, o filme lembra um pouco a estreia do estilista Tom Ford na direção. A diferença é que todo o capricho visual de A Single Man é amparado por uma trama com estofo sobre perda e solidão. Já W.E aposta na beleza pela beleza. 
Se na música, Madonna vai muito bem, obrigada; no cinema, a artista ainda tem muito a aprender. MDNA e W.E são dois pontos distintos na carreira de uma artista multimídia que parece que ainda tem muito a dizer, mesmo que não seja da melhor maneira possível.

terça-feira, 20 de março de 2012

Música: The Ting Tings - Sounds from Nowheresville

Depois da empolgante estreia em We Started Nothing, a dupla britânica The Ting Tings está de volta com o aguardado Sounds from Nowheresville. Como todo segundo álbum, o lançamento vem cheio de expectativas e dúvidas. Será que o duo consegue emular a energia e repetir o feito de músicas vibrantes como “That´s Not My Name”, “Shut Up and Let Me Go” e “Great DJ”? Infelizmente, a resposta é não!

Quatro anos após o sucesso do debut do duo e quase dois depois do single “Hands”, dançante, mas aquém dos hits do primeiro álbum, Sounds from Nowheresville chega e muda um pouco a imagem do The Ting Tings. A primeira música do álbum já demonstra essa mudança.  “Silence” é mais melódica e depois de um refrão repetitivo ganha ares apoteóticos e uma versão mais soft da voz esganiçada da Katie White. Não deixa de ser uma escolha estranha para abrir o disco se lembrarmos de que o trabalho anterior já começava dizendo a que veio e colocando todo mundo para dançar com os sucessos “Great DJ” e “That´s Not My Name”.
“Hit Me Down Sonny” e o primeiro single “Hang it Up” ganham mais força, mas nunca chegam realmente a empolgar. “Give it Back” é divertida e apoiada numa base de palmas típica de grandes canções pop. Rápida e cheia de ritmo, é o primeiro grande momento de Sounds from Nowheresville. E um dos poucos também.

Apesar de algumas músicas trazerem a mistura de guitarras roqueiras com a batida eletrônica característica do primeiro trabalho, o novo disco do The Ting Tings é mais calmo e nunca decola, terminando até de modo anticlimático com uma sequência final de canções apagadas. “Day to Day” é uma baladinha preguiçosa. “Help” não funciona com sua melodia arrastada e interpretação desanimada de White. “In Your Life” fecha o álbum de forma decepcionante e deixa saudades do The Ting Tings do “passado”.

Entre uma canção boa ali, outra ruim acolá, a interessante “Guggenheim” e a mais eletrônica do álbum, “One by One”, com uma sonoridade típica do Ladytron, completam o recheio de um disco que não impressiona e passa longe da estreia promissora.

Dizer que é um trabalho mais maduro porque a banda baixa um pouco o tom e troca o som um tanto “absurdinho” por uma pegada mais leve seria clichê. Mas não deixa de ser uma surpresa, não muito agradável, o caminho escolhido pela dupla. A sonoridade mais irreverente é meio deixada de lado e aparece apenas tímida em canções como “Hang It Up”, “Hit Me Down Sonny” e “Soul Killing”. Sounds from Nowheresville repete assim o clichê do segundo álbum: expectativa demais, resultado de menos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Cinema: Shame

Quando Sissy se lamenta desesperada a um irmão quase alheio a ela que eles não são pessoas más, fica claro o estado de destruição e dependência emocional dos dois personagens de Shame, filme de Steve McQueen que traz como tema central o vício em sexo. O tema em si já é tabu e difícil de ver no cinema. Fala-se em dependência a drogas, álcool, dinheiro, compras, tudo, mas pouco sobre sexo.

Ainda que tateando a questão sem muita força, McQueen toca no vespeiro e desnuda, física e mentalmente, Sissy e Brandon (Carey Mulligan e Michael Fassbender em interpretações comoventes). Ela é uma mulher instável, “promíscua” e carente de atenção. Ele se mostra frio, irritadiço e consumista de sexo, seja real ou virtual. Ambos perambulam sem rumo por uma Nova York solitária e cinzenta, sem brilho ou cor, propicia a encontros casuais e sem intimidade.
Shame não é um filme imune a críticas. Alguns apontam um olhar moralista de McQueen em relação a seus personagens, almas desgarradas e perdidas em um mundo pintado como sórdido e sem salvação. Outros reclamam do tom frio e distante que transforma a derrocada de Sissy e Brandon em uma narrativa intelectualizada, reacionária e visualmente bela.

A história de “Shame” nunca chega a ser uma história. É um fiapo de trama que mostra duas párias que se reencontram e, a partir daí, precisam lidar com a presença um do outro. Sissy quer ser amada e chora pela atenção do irmão. Ele não quer nada, apenas o sexo descartável e sem sentido do dia a dia. Ela chega e atrapalha tudo, ainda jogando na cara dele sua dependência sexual.
Nenhum dos dois é feliz e ambos sabem disso. A câmera de McQueen sabe captar essa tristeza, seja no olhar dos atores, seja no movimento de seus corpos. Brandon é um rico publicitário, se veste bem, mas é consumido por um vazio maior que ele próprio. Sissy não tem nada nem ninguém, é vulnerável e ganha a vida cantando “New York, New York” melancolicamente na noite. É um retrato belamente triste de dois seres humanos que encontramos hoje aos montes, ainda que disfarçados de “gente como a gente”.

Nunca sabemos a razão de tanta dor e o que leva esses personagens a comportamentos tão autodestrutivos e extremos. Esse é, na verdade, um dos acertos do filme de McQueen. Não importa o que os levou aquele ponto, mas como eles lidam com seus vazios. O longa deixa claro que eles não lidam muito bem. Sissy chora e diz que não é uma má pessoa. Brandon não dá a mínima e se entrega à lúxuria. Quando em meio a uma orgia ele chega ao gozo, não sabemos se sua cara é de alegria ou desespero.

A fuga desempenhada por Sissy e Brandon não é fácil de acompanhar. McQueen erra ao tentar ficar em cima do muro e acabar pendendo para o lado moralista. Acerta, porém, ao não dar um desfecho de redenção a eles, nem mesmo erotizar o sexo, sempre presente sem pudores ao longo do filme. As presenças magnéticas de Fassbender e Mulligan ajudam a compensar as falhas. Eles são a razão de ser de uma produção um tanto fria e destroem sem pena o coração do público.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Cinema: Oscar 2012

Sim, o Oscar já passou e ninguém mais se importa com ele. Mas eu pouco me importo se vocês ainda se importam ou não com a premiação. Só agora consegui terminar de ver os filmes indicados na categoria principal, então, antes tarde do nunca, eis aqui minha opinião sobre eles em ordem de preferência. Como nota de rodapé, só digo uma coisa: essa é uma das piores listas de filmes da existência, relação de longas mais fraca do que caldo de bila (ou bola de gude, a depender da região onde você more).

A Invenção de Hugo Cabret: Homenagem é uma das palavras mais banalizadas da existência terrestre, qualquer Zé Mané usa sem a menor parcimônia, mas aqui cabe usá-la. Mesmo com um tom um tanto didático e abordagem infantil, Martin Scorsese faz uma bela homenagem ao cinema e a George Méliès nesse filme visualmente arrojado e narrativamente emotivo. Só ganhou prêmios técnicos, o que só comprova que o Oscar não vale nada.
Meia Noite em Paris: Só gente muito sem noção para comprar a balela de que Woody Allen voltou. “Match Point” e “Vicky Cristina Barcelona” são o que então? Esse novo filme de Allen não tem nada de novo, e o cineasta já fez coisas parecidas e de melhor qualidade. Mas o longa tem seu charme, é fácil de assistir e traz uma bela Paris como pano de fundo. Seria melhor caso o público pseudointelectual não ficasse se contorcendo na poltrona a cada referência cult que o diretor joga na tela. Mas aí a culpa não é do filme, né!

O Artista: Outro longa bonitinho e ordinário, o filme só vale pela experiência de vermos um filme mudo na telona de um multiplex. No mais, é genérico, melodramático e repetitivo. Uma boa experiência para ser vista, ouvida e logo em seguida esquecida. O mérito do filme é se sobressair em meio a uma pilha de produções medíocres. E só. Será uma vergonha em um futuro próximo. Claro que ganhou todas as categorias principais, o que só confirma que prêmio mais coxinha não há.

Cavalo de Guerra: Steven Spielberg filma sua versão de “O Corcel Negro” com uma roupagem épica de plástico para público de novela do Manoel Carlos chorar. Genérico até a alma, o filme tenta emular um cinema clássico que se contorce de vergonha em algum lugar do passado. É um cinema de encher os olhos e de secar a alma. Só não é pior porque Spielberg sabe como filmar belas cenas em meio a uma narrativa esquemática e episódica. O final com fotografia de “nunca mais passarei fome!” é de doer.
Os Descendentes: Sério que Alexander Payne amadureceu como cineasta? Com isso aqui?!? Filme cheio de boas intenções que começa e termina sem dizer a que veio, a não ser que você considere a velha e batida lição de moral ambientalista e familiar como algo relevante. O longa passa diante dos olhos do espectador, os atores chamam a atenção e a trilha sonora havaiana incomoda e cansa. Bons tempos aqueles em que os roteiros de Payne tinham ironia ("Ruth em Questão", "Eleição", alguém?!). De boas intenções, o inferno cinematográfico está cheio.

Histórias Cruzadas: Hollywood já fez esse filme antes. Ele era bem melhor, mais honesto e se chamava “Uma História Americana”. Essa é uma versão para Disney ver da velha história de preconceito entre brancos e negros. O elenco se esforça. A história vai passando na sua frente. E a impressão que temos é que o filme é um puta pastel de vento: apetitoso em sua embalagem, completamente vazio por dentro. Vale pelo elenco tentando dar algum sabor a coisa toda.
A Árvore da Vida: Se vamos ser pretensiosos, vamos pelo menos filmar com propriedade, né! Terrence Malick joga na cara do público intelectualóide do Reserva Cultural o quanto ele é maconheiro nessa viagem etérea e sem sentido pelo cerne da “existência humana”. Em outras palavras: meu cu! Chato como a vida, o longa (realmente bem longo) só se salva por causa da fotografia dos deuses. O que é muito pouco, convenhamos!

O Homem que Mudou o Jogo: Brad Pitt merecia um Oscar só por prender a atenção nesse filme chato para caralho sobre um esporte que ninguém realmente entende: beisebol. Se eu não compreendo nem a lógica do que é um impedimento, o que dirá as regras desse jogo no qual homens pegam em um cassetete e tentam rebater uma bola sabe-se lá porque. De qualquer forma, Pitt entrega uma atuação envolvente e cheia de simpatia em um longa qualquer nota previsível e desprovido de alma. A quem interessar possa, além de ótimo, Brad Pitt está lindo como nunca.
Tão Forte e Tão Perto: Stephen Daldry joga na cara do espectador o quanto é manipulador e desonesto nesse arremedo de filme. Protagonizado por uma das crianças mais irritantes do cinema contemporâneo, que ainda narra tudo em off, Tão Forte e Tão Perto é tortura audiovisual. Simplista e simplório, o filme afunda a carreira de Daldry no poço da mediocridade. Só não é pior porque Sandra Bullock surge, vez ou outra, como um respiro de dignidade em meio a um caos narrativo de fazer chorar (no mal sentido).

Se o mundo fosse justo...
...ao invés de uma lista de filmes ora medíocres, ora equivocados, ora qualquer coisa, a Academia de Artes Cinematográficas teria ousado e aberto espaço para títulos como a versão cult (bem) melhorada de "60 Segundos" (Drive); o fim do mundo cabeça de Lars Von Trier (Melancolia); a volta em grande estilo de David Fincher ao universo dos serial killers (Os Homens que não Amavam as Mulheres); a atuação dilaceradora de Tilda Swinton em um filme igualmente pertubador (Precisamos Falar Sobre Kevin); o emocionante drama familiar em meios aos ringues de UFC (Guerreiro); e até o drama iraniano para Ocidente ver (A Separação). Mas de justo, o mundo não tem nada.