sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cinema: Sete Dias com Marilyn

O maior problema de Sete Dias com Marilyn é ser vendido como um filme “sobre” Marilyn Monroe. E como não esperar algo arrebatador de um filme sobre um dos maiores ícones do mundo? Aí é que está a questão. Além de não ser sobre a atriz, a produção do desconhecido Simon Curtis não tem nada de arrebatadora. É um longa genérico e que passa longe de qualquer ousadia.

O filme não é uma biografia da atriz, e sim retrata o período de filmagens de O Príncipe Encantando, quando Marilyn foi a Londres trabalhar sob a direção do renomado Sir. Laurence Olivier (um Kenneth Branagh desprovido de vaidades). Pincelando os conflitos entre a atriz e o ator/diretor, o longa se concentra na paixão e relação entre a atriz e um jovem britânico (um simpático Eddie Redmayne, o verdadeiro protagonista do longa) que participava da produção e desenvolveu uma paixão por ela.

A favor do trabalho de Curtis, temos um longa leve e fácil de assistir. Curtis dirige no piloto automático, mas acerta ao direcionar suas lentes para a interpretação carismática de Michelle Williams, que carrega o filme praticamente nas costas. Cercada por uma legião de bons atores (Julia Ormond, Toby Jones, Judi Dench, Dominic Cooper etc), Williams se sobressai ao criar uma interpretação cativante de um mito perdido entre uma imagem sexy e frágil e uma conduta autodestrutiva.

Toda vez que Williams dá as caras, o filme ganha peso e graça. Michelle Williams é a razão de ser da produção (basta ver essa cena para comprovar - e eu amo o Youtube). É a atriz que dá sentido à trama e empresta alguma luz a um longa desprovido de impacto, meio confuso entre um tom de comédia romântica e um verniz mais dramático. Pelo menos temos um filme charmoso e dominado pela presença marcante de Michelle Williams, uma atriz cada vez mais interessante.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Cinema: Os Vingadores

Em cerca de dez anos, os filmes de super-heróis deixaram de ser uma aposta arriscada em Hollywood para virarem arroz de festa. Como resultado dessa transformação do gênero, uma avalanche anual de filmes e mais filmes que costuma sempre se apoiar na mesma fórmula, desgastando a coisa toda. Hoje, para cada “X-Men: Primeira Classe” ou “Batman – O Cavaleiro das Trevas” existe uma penca de “O Motoqueiro Fantasma” ou “Lanterna Verde”.
  
O aguardadíssimo (leia e pense em uma entonação bem exagerada) Os Vingadores não é uma coisa nem outra, mas é um belo filme. Longe do desastre que poderia ser (reunir vários personagens conhecidos em apenas um único longa não é tarefa fácil, convenhamos), a produção é uma mostra de que o gênero “adaptação de super-heróis de HQs” ainda pode dar caldo.
Crítica e fãs têm “culpado” o sucesso da empreitada (foram anos de desenvolvimento do projeto e alguns filmes que serviram como introdução à produção) ao diretor Joss Whedon, que cria uma obra coesa ao misturar heróis, ação, drama e todo um imaginário do público.

Com um elenco de peso em mãos (Robert Donwey Jr., Scarlett Johansson, Chris Evans, Mark Ruffalo, Jeremy Renner, entre muitos outros), o cineasta, mais conhecido por dirigir episódios de séries de TV (de Buffy a Glee), abre espaço para todo mundo brilhar e costura a trama com uma edição matadora que joga o público dentro da história sem muito esforço.
Mas, se por um lado, Whedon entrega um trabalho competente, por outro, não deixa de cometer deslizes. Um deles são os próprios vilões do longa (repetir o mesmo vilão de Thor é de uma preguiça sem tamanho). O caos imagético do clímax também compromete, principalmente por adotar uma violência de produção da Disney. 

Com toda a destruição que acontece na batalha final, não vemos uma morte, um pingo de sangue. Depois do realismo proporcionado por Batman – O Cavaleiro das Trevas, o fato de “Os Vingadores” ser tão limpinho incomoda (os três minutos do trailer novo de The Dark Knight Rises é muito mais tenso e violento do que as duas horas e meia da produção da Marvel).

Mas isso é apenas um detalhe. "Os Vingadores" é um filme bonito de se ver. Seja como entretenimento escapista, seja como objeto de fetiche para nerds, "Os Vingadores" abraça uma mitologia e a trata com respeito. Ok que o filme não é nenhum X-Men 2. Mas aí já seria pedir demais.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cinema: À Toda Prova

Steven Soderbergh chuta o pau da barraca nesse À Toda Prova, longa de ação descerebrado que tem como mérito maior ser protagonizado por uma lutadora de MMA (não me perguntem o que é isso, porque eu não sei!), Gina Carano, e trazer um bando de atores fazendo pontas, ou sendo espancados, melhor dizendo. A história, um tanto confusa, gira em torno da boa e velha traição, com direito à espionagem, mortes e viagens pelo mundo afora.

É um filme de ação com toques de produção de espionagem envernizado com a grife Soderbergh de ser. Ou seja, fotografia em tons amarelados (desde “Traffic” que o moço insiste na mesma paleta de cores), rostos conhecidos e uma edição engraçadinha cheia de firulas. Em resumo: muito estofo para pouca coisa.
A trama gira em torno de Mallory Kane (Carano), espiã que é traída pelos chefes em meio a uma missão e tem que provar sua inocência. Nada mais do que óbvio. Para disfarçar a obviedade, Soderbergh estraga tudo e vai contando a história de forma não linear, o que só atrapalha mais ainda a brincadeira. Ok, talvez, as duas cervejas que tomei antes da sessão não tenham ajudado, mas saí com a impressão de que o longa seria bem melhor se fosse contado de forma convencional, sem porra de flashbacks e vai e voltas no tempo.
Entre sopapos, pontapés, alguns tiros e explosões, Carano se saiu muito bem na parte física da coisa toda, mas não convence como atriz, sempre com uma cara emburrada nada carismática. O elenco masculino é interessante, mas só serve de escada à “atriz” e vai morrendo ou sendo descartado no decorrer da produção (Michael Douglas, Ewan McGregor, Antonio Banderas e os garotos da vez Michael Fassbender e Channing Tatum dão o ar ou os bíceps de sua graça).
O resultado é um filme frouxo que só se sustenta pela curiosidade de ver Soderbergh desbravando mais um gênero (o rapaz já fez de tudo: drama, filme polêmico sobre sexo, longa de doença catástrofe,produção kafkaniana, filme de assalto, veículo para Julia Roberts ganhar Oscar,produção experimental, ficção científica, cinebiografia de líder político, fracasso dirigido em preto e branco e mais uma porrada de fime - gente, como esse homem trabalha!). No caso de “À Toda Prova”, menos seria mais, e Soderbergh é o principal defeito do longa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Há dois anos...

... eu desembarcava em São Paulo com algumas malas e sonhos. Mais do que sonhos, na verdade, eu buscava voltar a sentir sensações que tinha sentido antes ao visitar a cidade e que não mais sentia na minha cidade de origem, Fortaleza (que nem minha cidade de origem é, mas foi onde passei a maior parte da minha vida!). A sensação de vivenciar uma vida mais cultural que sempre tanto me agradou. A sensação de pertencimento ao andar esbarrando em um monte de gente pelas ruas cheias de uma das maiores metrópoles do mundo. A sensação de crença de estar mais próximo de pessoas que levam um estilo de vida mais parecido com o meu. No meio do recheio de todas essas vontades clichês, a maior de todas: fugir de mim mesmo ao achar que, mudando de cidade, mudaria por tabela meu modo meio torto de ver o mundo e encarar as coisas.
  
Dois anos depois, já voltei a viver inúmeras vezes a sensação que senti no belo show do Radiohead, na Chácara do Jockey, lá em 2009, quando me dei conta que, realmente, talvez eu fosse mais feliz em São Paulo do que em qualquer outro lugar (e foi voltando no avião, ao som de “Reckoner” e “Weird Fishes/Arpeggi”, que caiu a ficha de que era hora de realmente vir para Sampa; cerca de um ano depois, cá estava eu). Dois anos depois ainda me assusto ao fazer uma baldeação na Sé ou nas estações Consolação e Paulista e me deparar com um mar de gente que parece não ter fim. Dois anos depois, efetivamente, conheci algumas pessoas bacanas e que levam, sim, um estilo de vida mais próximo do meu. Infelizmente, depois de dois anos, ainda não consegui fugir de mim mesmo e continuo pensando meio torto e encarando as coisas da forma mais complicada possível. Culpa minha, não de São Paulo!
Hoje, exatamente hoje, estou na dúvida se dois anos é pouco tempo, ou se muito tempo já passou. Nesse pouco ou muito tempo, descobri, claro, que a São Paulo das visitas é bem diferente da São Paulo do dia a dia. Hoje, a cidade, antes confusa e que me deixava com receio, já tem uma lógica geográfica na minha cabeça, e isso me deixa extramete feliz, ainda que eu circule bem pouco por várias regiões dela. Hoje, a Metrópole, antes contemporânea e moderna, ganhou ares de cidade conservadora e reacionária que, às vezes, assusta.
Mas a questão é que, com pouco ou muito tempo, a impressão é que já fiz e vivi um monte de coisas por aqui. E o melhor, ainda tenho a impressão/esperança que tem muita, muita coisa a ser feita e vivida. Acho que é isso que mais me agrada atualmente em São Paulo. O emprego bacana não veio e, hoje, trabalho porque tenho que trabalhar e pagar contas. Aquela pessoa legal também não deu as caras, mas o sexo fácil em São Paulo serve como tapa buraco para os vários vazios existenciais. O dinheiro também não veio. Pelo contrário, ele foi embora, porque São Paulo é muito, muito cara. Mas tudo bem, porque, para o bem ou para o mal, São Paulo sempre deixa as portas abertas para possibilidades.
E, talvez, essa tenha sido a grande razão deu ter deixado tudo para trás (família, amigos, empregos, conforto) em Fortaleza e vindo para cá. Fortaleza já deu o que tinha que dar (boas coisas, é verdade), mas fechou às portas para as possibilidades que eu estava/estou/estarei almejando sempre.
Entre shows internacionais, festivais de música, mostras de cinema, exposições bacanas, conversas banais em bares da vida, noites dançantes na pista do Netão, sexos casuais, freelas e empregos, o que mais me orgulha é saber que fiz tudo isso enquanto “cidadão paulistano”, morando e vivendo nessa cidade que pode ser muito, muito cão (Qualquer um pode fazer isso em um final de semana em São Paulo, na verdade. Vários amigos de Fortaleza, vira e mexe, fazem. Mas, desculpem-me, morando aqui, com CEP fixo, o gostinho é diferente).
Para quem com mais de 30 anos, já deixando a juventude para trás e sem muito ânimo para riscos, chegou aqui sem eira nem beira, sem lenço e sem documento, sem nada realmente concreto em mãos, a não ser sonhos e possibilidades, morrendo de medo de fracassar, ficar sem grana e ter que voltar com o rabinho entre as pernas, é muita coisa.  
Em pleno inferno astral e ouvindo Sigur Rós (lindo como sempre) como trilha, não sei se São Paulo será meu destino final, mas é hora de assumir que minha decisão de vir para cá não foi um erro e deixar de pensar nas coisas que ficaram para trás. É hora de, finalmente, realizar que aqui é onde eu moro, aqui é onde eu trabalho e aqui é, exatamente, onde eu quero que outras coisas boas aconteçam.
PS: Mil perdões pelo texto piegas e confuso, cheio de “muitos” e palavras repetidas. Em breve, voltaremos a programação normal de textos sobre coisas interessantes: cinema, música, seriados etc. Enquanto não escrevo nada novo aqui, comecei a colaborar com o portal Umbigo das Coisas e já tem dois textos meus lá: Jovens Adultos e Beleza Adormecida.
PS1: O Pensamentos FabioFreireanos, alcunha dada por uma amiga, nasceu logo quando vim para São Paulo. Ele nunca foi, nem nunca será, uma obrigação ou algo que eu realmente leve a sério. Mas, enfim, ele é um bom fruto da minha vida em Sampa.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cinema: Um método perigoso

David Cronenberg já tinha assumido uma postura mais “acadêmica” em seus últimos trabalhos, “Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”, para ser mais preciso. Deixando de lado uma narrativa mais intrincada e um apuro estético para o grotesco, o diretor, conhecido por seus filmes esquisitos nos quais pessoas explodem cabeças de outras com o poder da mente ou cientistas se transformam em moscas gigantes, nos últimos filmes, o cineasta apontava para um novo caminho de formalismo mais didático. Os personagens envoltos em violência - física, moral, ética ou psicológica - continuavam fazendo parte do universo de Cronenberg, mas em uma chave mais universal e limpinha que vinha ampliando seu público.

Um Método Perigoso é o ápice desse cinema quadrado adotado pelo cineasta canadense. Fantasiado de filme de época, o longa deixa o espectador vislumbrar uma série de possíveis características do cinema "cronenberguiano" (a violência psicológica, o sexo, os temas tabus), mas a embalagem genérica da produção resulta em uma experiência qualquer nota. Nada no filme realça a trama que envolve Freud, Jung, sexo, uma paciente obcecada por humilhações e o despertar de um novo modo de pensar na psicologia moderna.
Tudo em “Um Método Perigoso” é apático. A produção do filme nunca chama a atenção. E o que poderia ser uma qualidade, a partir do momento em que longas de época costumam apelar ao visual para esconder falhas, acaba sendo um defeito, já que temos a impressão que nada nunca acontece. O roteiro irregular e a direção em terceira pessoa de Cronenberg potencializam mais ainda a fraqueza do trabalho. “Um Método Perigoso” é um desses filmes qualquer coisa. É um Cronenberg para coxinha ver.
Nem o “elenco de sonhos” salva. Se o ator da vez, Michael Fassbender, faz o que pode no papel de um Jung perdido em questões éticas, Viggo Mortensen até empresta certa dignidade a um Freud visivelmente frustrado, mas não vai muito além disso. A única coisa digna de nota no filme é a interpretação exageradíssima de Keira Knightley, que erra feio ao tentar emular o espírito da obra de Cronenberg, entregando uma atuação acima do tom que destoa do resto do longa. Quando o filme chega ao fim, o que fica na nossa lembrança são as mandíbulas da atriz. Muito pouco para um cineasta outrora tão ousado quanto Cronenberg.

sábado, 31 de março de 2012

Cinema e música: dois lados de Madonna

Não deixa de ser surpreendente que Madonna ainda seja uma artista relevante nos dias de hoje. Em tempos de consumo rápido e fama passageira, a cantora, atriz, diretora e sei lá mais o quê ainda consegue se manter em voga, seja pelas polêmicas ou pelos trabalhos, em um mercado cada vez mais poluído de gente. Em tempos de Lady Gaga, Kety Perry, Rihanna e outras tantas musas pré-fabricadas que mudam de figurino, peruca e estilo musical conforme a maré, Madonna ainda é a rainha, mesmo com cerca de 30 anos de carreira nos ombros e já tendo passado dos 50 anos.
Nesse tempo, ela já fez de tudo um pouco e bebeu nas mais diversas referências musicais, ditando moda e virando modelo a ser seguido. Hoje, depois de tanto tempo na batalha, ela pode não mais inovar em postura, polêmicas ou tendências da música pop, mas ainda assim se mantém no topo. Seu mais recente trabalho, o 12º álbum da carreira, MDNA, é a prova disso. O disco pode não trazer a cantora ousada de Like a Prayer e Erotica, ou a experimental de Ray of Light, seus melhores discos, mas é um álbum coeso que tem seus momentos de brilho.

Se os primeiros singles, a equivocada “Give Me All Your Luvin´” e a genérica “Girl Gone Wild”, prenunciavam um tremendo fracasso, senão comercial, artístico, MDNA vazou, foi lançado e acalmou os fãs. O álbum tem suas fraquezas, quebras de ritmo e sonoridade genérica. Mas são os momentos brilhantes que ficam na cabeça. “Gang Bang”, por exemplo, entra direto na lista das melhores canções da artista. Com uma letra safada e batidas eletrônicas empolgantes, a música é a melhor do disco e perfeita para as pistas.

Na mesma linha de qualidade, “Turn Up the Radio” é uma música pop precisa e cheia de ginga, dessas poucas que elevam a alma e merecem ser cantadas junto. “I´m Addicted” é outra música de balada que funciona muito bem regada a tequilas e suores no meio da multidão. “Some Girls”, “Superstar” e “I Don´t Give A” mantém a pegada pop e são eficientes. 
Um dos clichês das cantoras pop é investir em baladinhas. Madonna não foge à regra e entrega a bela “I Fucked Up”. Outras baladas, “Falling Free” e “Masterpierce”, destoam do restante do álbum, mas são corretas.
Nesse mix de ótimas canções e outras nem tanto (“Beautiful Killer” parece uma releitura piorada de “Die Another Day”, “B-Day Song” é bobinha e passa batida e “Best Friend” dispara como a mais fraca do trabalho), MDNA ganha peso com letras como “I´m a Sninner”, que de certa forma sintetiza o talento da cantora para a confusão, ou com Nicki Minaj decretando em algum momento: “There's only one Queen, and that´s Madonna”.

W.E
Se na música, a cantora Madonna não precisa provar mais nada a ninguém há muito tempo, no cinema, a história é outra. A atriz Madonna nunca foi respeitada e suas incursões cinematográficas raramente foram bem sucedidas. O caminho da artista como diretora parece seguir o mesmo rumo. Depois de adiar por semanas uma ida ao cinema para conferir seu segundo trabalho (o primeiro, eu não vi) atrás das câmeras, o ambicioso W.E, a conclusão é que ela é uma diretora com muito a aprender.

O filme foi rechaçado, cuspido e mijado pela crítica sem pena. Existem razões para tal fúria. Madonna patina em insegurança e demonstra uma preocupação excessiva em dar um ar estético demais ao longa, deixando de lado a coerência narrativa. Imbuída em criar uma obra suntuosa, relevante e visualmente acachapante (os figurinos são deslumbrantes, a encenação é caprichada, os movimentos de câmera são elegantes e a trilha sonora bem utilizada), a diretora Madonna cria vários momentos de absoluto constrangimento típicos de alguém que não quer assumir a inexperiência.
W.E é um filme complexo, e esse talvez seja seu grande defeito. Madonna não sabe lidar com a nuanças da obra e, na maioria das vezes, soa arrogante e aposta pesado no clichê. A produção já começa errada ao se dividir em duas linhas temporais. Essas idas e vindas no tempo são amarradas por uma edição que quer a todo momento criar uma ligação entre elas, o que enfraquece o conjunto e vai deixando o filme cansativo à medida em que o recurso vai se esvaziando.

A diretora também era ao apostar em uma abordagem didática que explica da forma mais simples possível o que não é dito na tela. Enquanto a trama do passado (que relata o envolvimento do futuro rei do Reino Unido com uma plebeia americana e casada) é conta por meio de elipses e mais elipses que pouco contribuem para seu entendimento; no presente, temos uma história pouco convincente sobre uma mulher presa a uma casamento fracassado e que se vê envolvida com um segurança russo um tanto intelectual demais para ser convincente.
O resultado é um filme frouxo. A suntuosidade da encenação se perde diante da superficialidade narrativa. Os acertos estéticos são ofuscados pelas atuações fora de tom. Se no passado, temos uma Wallis (Andrea Riseborough) exagerada, com uma impostação teatral e forçada disparando frases feitas de modo afetado; no presente, o espectador se depara com uma Wally (Abbie Cornish) apagada e sem vida, com uma voz doce e postura insegura. Nenhuma das duas convence, e tudo a volta delas parece ser charmoso, elegante, luxuoso e sem propósito.

Mal comparando, o filme lembra um pouco a estreia do estilista Tom Ford na direção. A diferença é que todo o capricho visual de A Single Man é amparado por uma trama com estofo sobre perda e solidão. Já W.E aposta na beleza pela beleza. 
Se na música, Madonna vai muito bem, obrigada; no cinema, a artista ainda tem muito a aprender. MDNA e W.E são dois pontos distintos na carreira de uma artista multimídia que parece que ainda tem muito a dizer, mesmo que não seja da melhor maneira possível.

terça-feira, 20 de março de 2012

Música: The Ting Tings - Sounds from Nowheresville

Depois da empolgante estreia em We Started Nothing, a dupla britânica The Ting Tings está de volta com o aguardado Sounds from Nowheresville. Como todo segundo álbum, o lançamento vem cheio de expectativas e dúvidas. Será que o duo consegue emular a energia e repetir o feito de músicas vibrantes como “That´s Not My Name”, “Shut Up and Let Me Go” e “Great DJ”? Infelizmente, a resposta é não!

Quatro anos após o sucesso do debut do duo e quase dois depois do single “Hands”, dançante, mas aquém dos hits do primeiro álbum, Sounds from Nowheresville chega e muda um pouco a imagem do The Ting Tings. A primeira música do álbum já demonstra essa mudança.  “Silence” é mais melódica e depois de um refrão repetitivo ganha ares apoteóticos e uma versão mais soft da voz esganiçada da Katie White. Não deixa de ser uma escolha estranha para abrir o disco se lembrarmos de que o trabalho anterior já começava dizendo a que veio e colocando todo mundo para dançar com os sucessos “Great DJ” e “That´s Not My Name”.
“Hit Me Down Sonny” e o primeiro single “Hang it Up” ganham mais força, mas nunca chegam realmente a empolgar. “Give it Back” é divertida e apoiada numa base de palmas típica de grandes canções pop. Rápida e cheia de ritmo, é o primeiro grande momento de Sounds from Nowheresville. E um dos poucos também.

Apesar de algumas músicas trazerem a mistura de guitarras roqueiras com a batida eletrônica característica do primeiro trabalho, o novo disco do The Ting Tings é mais calmo e nunca decola, terminando até de modo anticlimático com uma sequência final de canções apagadas. “Day to Day” é uma baladinha preguiçosa. “Help” não funciona com sua melodia arrastada e interpretação desanimada de White. “In Your Life” fecha o álbum de forma decepcionante e deixa saudades do The Ting Tings do “passado”.

Entre uma canção boa ali, outra ruim acolá, a interessante “Guggenheim” e a mais eletrônica do álbum, “One by One”, com uma sonoridade típica do Ladytron, completam o recheio de um disco que não impressiona e passa longe da estreia promissora.

Dizer que é um trabalho mais maduro porque a banda baixa um pouco o tom e troca o som um tanto “absurdinho” por uma pegada mais leve seria clichê. Mas não deixa de ser uma surpresa, não muito agradável, o caminho escolhido pela dupla. A sonoridade mais irreverente é meio deixada de lado e aparece apenas tímida em canções como “Hang It Up”, “Hit Me Down Sonny” e “Soul Killing”. Sounds from Nowheresville repete assim o clichê do segundo álbum: expectativa demais, resultado de menos.