sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cinema: Antes da Meia-Noite

Alguns filmes são mais do que filmes. Eles são sobre nós e fazem parte da nossa vida. Em 1995, quando vi Antes do Amanhecer pela primeira vez, eu tinha quase 20 anos e era mais gay na teoria do que na prática. Assisti ao filme e me apaixonei. Pelos diálogos. Pela química latente que eu desconhecia. Pelos dois jovens (Jesse e Celine) que se conhecem em um trem e descem do vagão para passar um dia juntos se conhecendo. Era aquilo que eu queria. Um romance ingênuo e idealizado em meio a belas paisagens de uma cidade europeia, mais precisamente Viena.

O fato do longa ser protagonizado pelos belos Ethan Hawke (que já fazia parte do meu imaginário de namorado ideal desde “Sociedade dos Poetas Mortos”) e Julie Delpy só dava um gostinho a mais ao filme. A direção de Richard Linklater, os diálogos inteligentes, as atuações naturais e a construção de um romance com prazo de validade transformaram a produção em cult.

Nove anos depois, lá em 2004, eis que Jesse (Hawke) e Celine (Delpy) se encontram novamente para responder as perguntas deixadas em aberto pelo primeiro filme. Já namorando e longe da virgindade (amém!), assisti a Antes do Pôr do Sol acompanhado do namorado, prestes a mudar de cidade e dar tchau ao romance. A idealização dos dois jovens na casa dos vinte e poucos anos descobrindo a vida dá lugar a uma pontada de amargura de adultos na perigosa casa dos 30 que seguiram rumos diferentes, nem sempre tomando as decisões certas.

Sai Viena, entra Paris. Um dia se transforma em poucas horas. E Jesse e Celine conversam sobre eles, a vida e a existência terrestre. Ele é um escritor casado e com um filho pequeno. Ela, uma ambientalista um tantinho neurótica. Os dois não são mais os mesmos, mas o romance, a esperança e a química continuam no ar (a cena dele revendo Celine é tão simples e bela que faz chorar). O filme, claro, termina mais uma vez em aberto, deixando várias portas abertas.

Portas que se fecham em Antes da Meia-Noite, que aparentemente conclui a trilogia e coloca novamente os dois personagens no centro das discussões. De cara o trailer já responde algumas perguntas: os dois estão juntos, têm filhos e visitam de férias a Grécia. Na beira dos quarenta anos, Jesse se ressente pela distância do filho do primeiro casamento, e Celine se sente frustrada no trabalho e como mãe. A partir daí, ambos colocam sua relação em xeque, transformando o novo longa em uma grande DR que termina, ao contrário dos trabalhos anteriores, de modo bem claro. A maturidade exige clareza e não joga com sugestões.

Já eu, assisti ao filme sozinho, ensanduichado por dois casais de namorados héteros. O que, talvez, reflita muito sobre meu atual estado de descrença em um mundo gay cujas relações são mais balizadas por apps e sites de relacionamentos do que por encontros reais e espontâneos.

Parte da magia da trilogia criada por Linklater, Hawke e Delpy (os atores assinam junto com o diretor o roteiro dos dois últimos filmes) é que ela é tão real que dói. Jesse e Celine são personagens criveis vivendo e discutindo situações corriqueiras. Os filmes também são reflexos de um tempo. Jesse e Celine decidem não trocar contatos quando se conhecem, lá pelo meio dos anos 1990, um tempo em que celulares eram escassos, emails eram praticamente inexistentes e redes sociais que aproximavam pessoas não eram nem mesmo uma possibilidade.

Em 2004, quando os dois se reencontram, o mundo é outro e parte dessas mudanças está presente no comportamento e nos diálogos que os dois mantêm em Paris. Do encontro que surge a partir da nota de um lançamento de um livro em um jornal ao fato corriqueiro da perda de um voo, algo que já foi bem mais estressante no passado, Linklater mostra ao seu público que o mundo não é mais o mesmo, muito menos seus protagonistas.

Em 2013, Celine não larga seu iPhone e as relações parecem estar cada vez mais efêmeras. Isso fica claro no discurso dos personagens, principalmente na cena do jantar, quando diferentes gerações questionam e debatem as diversas formas de amor e como a própria percepção do que é amar se alterou com o passar do tempo. O casal mais jovem serve até como contraponto à história de Jesse e Celine, já que os dois mais jovens se conheceram em uma festa, moram em cidades diferentes, mas conseguem se manter próximos graças às facilidades de um Facebook ou Skype de plantão. 

No final, a trilogia de Richard Linklater e a história de Jesse e Celine são sobre mim, você e todos nós. São três filmes sobre relacionamentos e como estes evoluem ao longo do tempo (o nosso e o tempo de um modo mais amplo). São três longas que constroem um relacionamento que eu e  muita gente nunca foi capaz de construir. Alguns filmes são mais do que filmes. Eles podem revelar mais sobre nós do que muitas palavras, gestos ou atitudes. E Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight, cada um a seu modo, revelam mais sobre mim do que eu mesmo gosto de revelar.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Cinema: O Grande Gatsby

Antes de qualquer coisa, já aviso que não li o livro do tio Fitzgerald, muito menos vi nenhuma das outras versões da obra para o cinema e televisão. Então esse texto é único e exclusivamente sobre o filme de Baz Lurhmann enquanto obra cinematográfica e não adaptação ou produto de comparação. Dito isso, começo: O Grande Gatsby é uma decepção, aquele típico filme hollywoodiano hiper produzido, mas que não diz muita coisa e não chega a lugar nenhum. Não é ruim, mas também está longe de ser bom.

Baz Lurhmann pode não ser uma unanimidade, mas seus filmes sempre foram filmados com paixão e exalando certo barroquismo em suas cores exageradas, cortes hiperbólicos e músicas anacrônicas. Nesse sentido estético, “O Grande Gatsby” não difere muito da obra do cineasta. Mas aí a coisa pega. Do cafona e ingênuo “Vem Dançar Comigo” ao modernismo calculado de “Romeu + Julieta”, do acerto videoclíptico de “Moulin Rouge” ao erro épico e melodramático de “Austrália”, Lurhmann sempre entregou trabalhos que exigiam do público e caíam na dicotomia “ame ou odeie”. Mas, em “O Grande Gatsby”, o cineasta fica em cima do muro e entrega seu trabalho mais insosso.

Sim, o diretor usa seu apuro visual exagerado e compõe belas imagens: a fotografia deixa tudo brilhando como se os criados da mansão de Gatsby estivessem acabado de passar o melhor dos pinhos Sol nos cenários; os figurinos são elaborados e exuberantes; e a direção de arte grita luxo e riqueza. Mas isso já é quase dado em se tratando de um diretor que construiu a fama em cima da grandeza requintada de suas produções. Mas aqui o diretor usa todo seu arsenal apenas para causar encantamento, e não a favor da história. A grandiosidade de “O Grande Gatsby” é muito mais uma estratégia de marketing do que propriamente uma qualidade do filme.

Para início de conversa, Luhrmann praticamente repete a estrutura de “Moulin Rouge”, colocando um dos personagens para narrar a história em flashblack. O recurso pode ser fiel ao livro e até funcionar na literatura, mas no cinema resulta de uma preguiça sem tamanho (ainda mais quando o diretor entrega o papel do narrador a um Tobey Maguire cada vez mais sem graça). A literalidade também é ressaltada pelo diretor por meio de palavras e mais palavras que saltam na tela, dando um ar redundante um tanto quanto dispensável ao longa. É como se ele não confiasse nas imagens criadas por ele e quisesse dar credibilidade a elas por meio da palavra.

Como se não bastasse essa insegurança do velho Baz em relação ao próprio trabalho, o diretor praticamente mimetiza a câmera frenética de “Moulin Rouge” para dar agilidade e transmitir euforia às festas que o protagonista oferece em sua mansão. Sai os cabarés de Paris, entra a agitação de Nova York. Funciona como distração e até para atribuir ritmo a um filme longo demais e que carece de energia. Mas parece mais uma tentativa de salvar o longa na edição do que um recurso narrativo válido para impulsionar a trama e mostrar as motivações dos personagens.

A sorte do cineasta é que ele conta com um elenco competente para despertar um envolvimento no público que as imagens em um dispensável 3D, as músicas pop reviradas em arranjos dos anos 1920 (usadas de forma até discretas) e o próprio olhar de Lurhmann não conseguem. Entre uma rara cena emocionante aqui (a visita de Daisy à mansão é a única realmente que me vem à memória), panorâmicas em câmera lenta e uma festa cheia de fogos de artifício ali, é o carisma de Leonardo DiCaprio, a ingenuidade idealizada e blasé de Carey Mulligan e a fúria esnobe de Joel Edgerton que impedem que “O Grande Gatsby” seja um trabalho vazio e frio. Um grande pastel de vento aparentemente delicioso por fora, mas carente de sabor por dentro.

O resultado é um filme lindamente filmado que versa sobre paixão e tragédia, mas que não desperta paixão nenhuma. Há algo de errado no reino de Baz.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Cinema: Pílulas

Indomável Sonhadora: Dos longas indicados ao Oscar de melhor filme esse ano, deixei passar este, que só vi agora perdido em algum torrent da vida. Sorte minha não ter visto nos cinemas, porque a probabilidade deu me levantar e ir embora era grande. De longe, um dos filmes mais constrangedores que já vi, a produção é uma ode à pobreza disfarçada de poesia audiovisual. Com um visual sujinho e um pé no grotesco, o longa (indicado a melhor filme, direção, roteiro adaptado e atriz) lança suas lentes na relação entre um pai e uma filha que sobrevivem em um algum pântano imundo em New Orleans. Me chamem de reacionário, mas achei tudo um lixo, salvo um pouco apenas pela atuação carismática da menina de nome impronunciável, que pode até ser fofa mas não merecia mesmo ser indicada à categoria de melhor atriz. Consegue ser pior do que “Lincoln” e “Os Miseráveis” juntos, o que não é pouco para uma produção com menos de 90 minutos.

O Lugar Onde Tudo Termina: A melhor coisa desse longa que coloca na mesma tela os deuses do Olimpo Bradley Cooper e Ryan Gosling é o fato dele subverter a expectativa do público não apenas uma, mas duas vezes. Em duas horas e 20 minutos, o cineasta Derek Cianfrance deixa de lado o drama amoroso de “Blue Valentine” e aposta suas fichas nessa trama criminal e familiar que mistura tragédia e destino em três diferentes atos. Ryan Gosling é um motoqueiro de cabeleira descolorida que acaba se envolvendo com o crime e Eva Mendes; Bradley Cooper é um policial exemplar e bom moço que se torna um herói e se mete com corrupção e política; e o espectador vai acompanhando a câmera dinâmica e o olhar aguçado de Cianfrance para registrar a dor desses personagens destinados a sofrer. A duração é um tanto longa, e os diferentes atos são irregulares, mas o filme tem peso. Além do abdome do Ryan Gosling, prestem atenção em Dane DeHaan, a cara de Leonardo DiCaprio quando este apareceu no cinema.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Televisão: série X minissérie

The Americans foi uma das grandes revelações entre as novas séries que estrearam no começo do ano. Já Top of the Lake deixou certa impressão de decepção. A primeira conseguiu a proeza de, em 13 episódios, fazer frente a outro seriado com temática similar (o elogiadíssimo “Homeland”) e ainda deixar para trás nossa ideia contemporânea de produções sobre espionagem (ritmo acelerado, alta tecnologia e viagens pelo mundo afora, tudo culpa do novo James Bond e do energético Jason Bourne). A minissérie de sete episódios produzida pela cineasta Jane Campion estreou cheia de pompa, foi comparada ao cult “Twin Pinks” (de outro diretor/produtor egresso do cinema, David Lynch) e morreu na praia, apesar da realização competente.

Criada por Joseph Weisberg, novato no ramo que escreveu apenas alguns episódios de “Damages” e “The Falling Skies”, The Americans volta no tempo da Guerra Fria para mostrar a rotina de um casal de agentes russos infiltrados no subúrbio de Washington nos anos 1980, em plena Era Reagan. Elizabeth e Philip foram recrutados ainda cedo para viverem um casamento de fachada e espionar o inimigo norte-americano de perto, no próprio solo ianque. Com dois filhos adolescentes, a cada episódio, o casal enfrenta uma nova missão que envolve sequestros, mortes, sabotagem e por aí vai.
 
O grande acerto da série é nunca esquecer que tanto Elizabeth quanto Philip são seres humanos que vivem a vida de um casal comum e enfrentam problemas banais do dia a dia. Mesmo sendo uma série norte-americana, bancada por um canal norte-americano, Weisberg trata os personagens russos com respeito e nunca os retrata como vilões. Nós, do lado de cá da tela, sempre tão acostumados a ver filmes, séries e qualquer tipo de produção retratando o heroísmo estadudinense, seguimos a mesma lógica, ficamos em cima do muro e torcemos pelo casal ao mesmo tempo em que temos simpatia pelos agentes da CIA que correm atrás da dupla.
Apesar da história envolvente, cheia de idas e vindas no tempo para explicar o passado dos protagonistas, e de uma dramaturgia que cresce a cada episódio, chegando ao final com vários ganchos para a segunda temporada, o sucesso da série é decorrente do ótimo trabalho do elenco. Keri Russell (a eterna Felicity) e Matthew Rhys (de “Brothers & Sisters”) se saem muito bem como o casal de espiões, despertando carisma e transmitindo os sentimentos confusos de duas pessoas que vivem uma vida de mentira da forma mais verdadeira possível. O elenco de apoio não fica atrás. Noah Emmerich, Annet Mahendru, Alison Wright e Margo Martindale interpretam personagens duros, sofridos e que vivem sob a sombra da disputa entre dois países e dois ideais.
 
O ótimo elenco também é a grande força de Top of the Lake, mas não há carisma ou tensão aqui. Sempre versando sobre o universo feminino, Jane Campion se arrisca na televisão com essa minissérie que leva o público aos confins da Nova Zelândia para, junto com a detetive Robin, desvendar o paradeiro de uma garota grávida e desaparecida em uma gélida e isolada região. Claro que Robin, que nasceu e cresceu ali e está voltando da Austrália, enfrentará o preconceito local e descobrirá uma série de esqueletos no armário em sua investigação.
Ainda que já tenha trabalhado com o suspense no injustiçado “Em Carne Viva”, Campion perde tempo demais na caracterização dos personagens e na ambientação e cria uma produção visualmente interessante, mas que se arrasta em sua proposta. Com uma bela fotografia e uma trilha sonora marcante, a minissérie fica devendo não apenas em tensão, mas no desenvolvimento da trama. Fugindo de uma abordagem mais melodramática, Campion desperdiça personagens, abandona ideias e entrega um final apressado e que deixa a desejar.
 
A maior prova da aura de decepção que impregna a produção é a personagem da atriz Holly Hunter, uma espécie de guia espiritual que comanda uma comunidade de mulheres que se instala à beira de um lago para repensar a vida. A comunidade não acrescenta em nada à história, que mistura pedofilia, abuso sexual, drogas e segredos familiares, e a interpretação de Hunter (uma atriz talentosa que teve com Campion um de seus maiores sucessos, “O Piano”) fica restrita a uma caricatura infeliz.
Felizmente, o rosto estranho e emblemático da ótima Elizabeth Moss conduz a história e empresta certo ar de melancolia à produção. A minissérie encontra na atriz a melhor tradutora das intenções de Campion, e é a atriz, em uma interpretação madura e triste, que compensa as falhas de uma minissérie que prometia entregar mais e fica apenas na superfície.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cinema: Terapia de Risco


Terapia de Risco é Steven Soderbergh fazendo suspense genérico no melhor estilo Supercine. É o típico filme que você assiste e presta atenção na fila de reviravoltas, mas não diz nada porque parece ser feito em série. Se não fosse pelo nome do cineasta e os rostinhos bonitos da vez expostas no cartaz, essa trama hitchcockiana de quinta passaria batida e seria lançada direto em vídeo. Como o longa traz a grife de Soderbergh estampada na paleta de cores habitual do diretor e estrela os queridinhos Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones e Channing Tatum, a gente paga caro para ver na tela grande e ainda dá check-in no Foursquare e no GetGlue sem medo de passar vergonha.
A história começa promissora, dando a ideia de que o filme será um estudo de caso sobre os efeitos colaterais dos remédios para a depressão e as artimanhas que a indústria farmacêutica usa para atrair mais consumidores. Mas logo vemos que essa premissa inicial é deixada de lado para a produção abraçar um suspense com toques de noir lesbian chic. Tudo muito bem envernizado para agradar plateias de todos os gostos.

Alguém pode bradar e dizer que a produção não passa de um exercício de estilo de Soderbergh, aqui arriscando enveredar pelo cinema de gênero. Mas outros cineastas “autores” já fizeram isso e se saíram bem melhor, vide Martin Scorsese em “Cabo do Medo” e “A Ilha do Medo”, pra ficar em um exemplo. Pode ser também apenas um problema de expectativas em relação ao trabalho de um diretor que já foi bem mais interessante um dia, tanto estética quanto tematicamente.
Entre uma tomada interessante aqui e um ritmo fluido ali, temos Jude Law bancando o herói hitchcokiano habitual, alguém que está no lugar errado na hora errada, Catherine Zeta-Jones no limite da canastrice e uma Rooney Mara que não convence nem como mulher depressiva muito menos como femme fatale. Channing Tatum faz o papel de galã coadjuvante amigo de Soderbergh da vez. E o público fica dividido entre a realização correta, a ideologia caretinha e a expectativa de um filme melhor que nunca acontece.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cinema: Amor Profundo

Se, no cinema, mulheres contemporâneas que trocam o marido pelo amante já não costumam se dar bem (vide Entre o Amor e a Paixão), imagine então as mulheres do passado. Em Amor Profundo, Rachel Weisz troca um casamento infeliz, mas seguro, pela aventura com um amante mais novo, mas sem fortuna. O cenário é a Londres miserável do pós-Guerra. O marido é mais velho, abastado, mas sem paixão, sem vida. O amante é bonito, jovial, sempre animado, mas instável. Ela não pensa duas vezes e troca o certo pelo duvidoso. E, claro, sofre por isso.

Mas pelo menos ela sofre com estilo no filme de Terence Davies. Por meio de uma bela fotografia e de uma ambientação cheia de fumaças, espelhos, sombras e luzes, o diretor entrega seu filme a Rachel Weisz e constrói um retrato sutil do início e término de um relacionamento que deixa como resultado uma mulher sem nada, apenas alguns tacos de golfe e a esperança.
Indo e voltando no tempo, Davies usa o rosto luminoso da atriz para mostrar as mudanças e as transformações que a personagem passa ao abandonar o marido (Simon Russell Beale), que ainda vive sob as rédeas da mãe, pelo sorriso aberto e os olhos claros e cheios de vida de Tom Hiddleston (um sub Michael Fassbender).

Seguindo a tradição das heroínas românticas dos filmes de época, nem tudo são flores no caminho de Weisz. Mas o filme opta por não exagerar no sofrimento da personagem e deixa todo o drama recair na interpretação da atriz e na mise-en-scène bem elaborada. A música começa quase de modo operístico, mas desaparece muitas vezes para deixar o espectador respirar a história. As idas e vindas no tempo servem para balancear a trama e contrapor a felicidade e a tristeza da protagonista, afastando-se do melodrama fácil.
Davies filma com apuro estético, mas sem afogar a história apenas em técnica vazia. O longa leva seu tempo, é editado em um ritmo lento, mas certeiro. No final, “Amor Profundo” pode não ser uma experiência arrebatadora, como é a paixão de Hester pelo soldado Freddie, mas é um exercício cinematográfico que vale pela maturidade com que é filmado. A aura do filme ainda remete, mesmo que as produções tenham tramas bem diferentes, ao igualmente belo e doloroso Fim de Caso, de Neil Jordan. Se lá temos uma sofredora e temente Julianne Moore, aqui temos Rachel Weisz em um de seus melhores papéis.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Cinema: Em Transe

Depois de apurar seu estilo com os bens recebidos “Quem quer ser Milionário” e “127 Horas”, Danny Boyle entrega Em Transe, um longa divertido, mas que nunca empolga. Misturando o gênero “filme de assalto”, um clima meio noir com direito a femme fatale e mais sua câmera epilética, o cineasta constrói um suspense que se perde em uma trama confusa demais que só vai realmente despertar atenção lá no finalzinho, quando tudo se resolve.
 
O plot segue aquele esquema “quanto menos você souber sobre o filme, melhor”. James McAvoy interpreta um leiloeiro metido em um assalto de um quadro de Goya que vale milhões. No meio da história, temos uma quadrilha comandada pelo feio mais sexy do planeta, Vincent Cassell, e uma moça gostosa (Rosario Dawson) que lida com hipnotismo. Obviamente, nada é o que parece ser, mas até o espectador se dar conta disso, haja Zé.
Boyle acerta ao não levar tudo muito a sério. “Em Transe” já começa sem rodeios e com o pé no acelerador. O diretor estilhaça a história em um vai e volta sem fim fazendo uso de seu arsenal visual típico. E tome filtros que deixam a impressão de as imagens terem saído de um caleidoscópio neon, angulações inusitadas e a quase assinatura visual do rapaz: uma câmera meio bêbada que cola nas costas do protagonista.
 
“Em Transe” segue uma estrutura narrativa bem parecida com o maior sucesso do diretor, “Trainspotting”, ainda que o propósito seja distinto. Os diálogos conduzem as artimanhas visuais. E até “a moral da história”, com uma das pessoas metida na confusão passando a perna em todo mundo, se repete.
A diferença é que, “Em Transe”, Boyle não está preocupado em representar uma geração por meio de imagens icônicas e uma trilha sonora perfeita. O foco aqui é apenas a construção de um longa com uma trama labiríntica que possibilite ao diretor mostrar suas firulas enquanto estilista visual, usando esses recursos para confundir o espectador em relação ao que é real e o que é imaginação do protagonista. Muito pouco para alguém que parecia estar trilhando caminhos mais ousados.