quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Endereço novo

O Pensamentos Fabiofreireanos está de visual novo e mudou de endereço: http://fabiofreire.com/

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Netflix: filmes ruins

 
Como Você Sabe – Típico filme que tinha tudo para dar certo, mas morreu na praia. Dirigido e escrito por James L. Brooks, responsável pelos ótimos “Laços de Ternura” e “Melhor é Impossível”, e estrelado por um elenco interessante e eclético (Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson e Jack Nicholson), “Como Você Sabe” é o melhor exemplo de como as coisas em Hollywood podem dar errado. Longo e sem graça, a produção não tem história nenhuma, os personagens não fazem o menor sentido, e a química entre os atores é inexistente. Na teoria, é uma dramédia com toques da comédia romântica; na prática, é uma tragédia grega de grandes proporções. Fazendo um resumão, Reese Whiterspoon é uma mulher em crise profissional que se divide entre dois homens, com Jack Nicholson se despedindo do cinema em um papel lastimável. No papel, até parecer ser interessante; na tela, mal dá pra entender o que está acontecendo.

O Mordomo da Casa Branca – Sabe-se lá Deus por que, mas esse filme foi bastante elogiado nos Estados Unidos e rendeu mais de US$ 100 milhões na bilheteria. A produção é um passeio pela história recente do País visto pelos olhos sem graça de um mordomo que trabalhou mais de 20 anos na Casa Branca e serviu diversos presidentes (Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Reagan). Burocrático e cheio de elipses, o filme não é nada revelador e apenas demonstra a total incompetência de Lee Daniels como cineasta (o rapaz é responsável pelo exagerado e supervalorizado “Preciosa” e pelo horroroso “Obsessão”, cujo maior mérito é colocar Nicole Kidman para fazer xixi no Zac Efron). Entre um acontecimento histórico e outro, acompanhamos o drama da família do mordomo: a mulher alcoólatra que o trai com o vizinho (Oprah Winfrey tentando fingir ser boa atriz) e o filho rebelde que resolve seguir o caminho da luta ao invés da postura conformismo do pai. Para enterrar tudo, o filme é chato, lento, a dramaticidade é nula, os diálogos são vergonhosos, e a coisa mais marcante da produção é o festival de caracterizações equivocadas. Forest Whitaker ganha fácil o prêmio de pior ator no papel mais banana.

Viajar é PrecisoPaul Rudd e Jennifer Aniston já provaram ter química juntos no ótimo, fofo e simpático “A Razão do Meu Afeto”. Nessa suposta comédia sem a menor graça, nem mesmo a química entre o casal se salva. Os dois interpretam um casal nova-iorquino que perde tudo logo no começo do filme e acaba, por acaso, em uma comunidade hippie no meio do nada. A trama é sem graça, os personagens são o mais puro clichê (os coadjuvantes são em sua grande maioria insuportáveis) e nada faz muito sentido na tela.  O que mais chama a atenção no filme são o botox e o bronzeamento artificial de uma Jennifer Aniston mal aproveitada e fotografada. Uma das piores coisas que já vi (e olha que já vi muitas).

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cinema: Pílulas

  
Malévola: Da nova tendência hollywoodiana de adaptar contos de fadas/filmes infantis e transformá-los em produções mais adultas e violentas (“Alice no País das Maravilhas”, “Branca de Neve e o Caçador”, “Oz – Mágico e Poderoso”), esse “Malévola” é o melhorzinho. Não que isso signifique muito. Inundado por efeitos especiais e sem muito estofo narrativo, o grande mérito desse novo longa é o tom feminista e a abordagem um tanto subversiva (pelo menos em termos de Disney) de uma história muito bem enraizada no imaginário coletivo. Outro ponto positivo é o uso da imagem da superstar Angelina Jolie, uma das maiores estrelas do cinema mundial e dona de uma filmografia de fazer vergonha. Mesmo não sendo uma grande atriz, Jolie tem talento e carisma e carrega o longa praticamente sozinha. A melhor coisa do filme, no entanto, é mesmo o figurino e a caracterização da atriz.

No Limite do Amanhã: Tom Cruise já passou dos 50 e há tempos não protagoniza um filme de grande sucesso. Mas essa nova incursão do astro no gênero da ficção científica (ele já provou que se dá muito com o gênero nos anteriores "Minority Report", "Guerra dos Mundos" e "Oblivion") prova que ele ainda é capaz de segurar um longa sozinho. Seguindo a proposta “repetitiva” de produções como “Feitiço do Tempo” e “Contra o Tempo”, o novo trabalho de Doug Liman (“A Identidade Bourne” e “Sr & Sra Smith”) acerta ao colocar o ator no papel de um herói involuntário, misturando belas cenas de ação, humor na medida e uma trama que começa meio sem jeito, mas ganha força graças à mão firme do diretor e ao carisma de Cruise (muito bem acompanhado por Emily Blunt). O final é um tanto confuso e tem a boa e velha concessão hollywoodiana ao happy end, mas é de longe o melhor trabalho de Cruise em tempos.

A Culpa é das Estrelas: Esse é o típico filme que tinha tudo para dar errado. É baseado em um best-seller de qualidade duvidosa e dirigido por um qualquer sem grandes referências (Josh Boone). E é igual a tantos outros longas açucarados sobre casais apaixonados que têm que lidar com uma doença terminal (de cara já lembro de “Doce Novembro” e “Outono em Nova York”). Mas a sorte da produção e do público é que “A Culpa é das Estrelas” é protagonizado por dois ótimos novos atores que dão conta do recado. Shailene Woodley e Ansel Elgort são lindos, ótimos, cheios de química e têm o poder de transformar uma trama clichê e melosa em um filme fofo e totalmente assistível. Ela traz simpatia e honestidade ao papel da mocinha que sofre de um câncer terminal. Ele é dono de uma espontaneidade impressionante e que conquista a plateia logo de cara. Graças aos dois, a direção pouco inspirada de Boone e a narrativa um tanto arrastada são devidamente esquecidas.  Não me fez chorar litros como outros “filmes de câncer” (“Laços de Família”, “As Filhas de Marvin” e “Lado a Lado” são campeões de lágrimas), mas é uma produção bem decente e que vai além da classificação “filme adolescente feito apenas para chorar”.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Televisão: The Normal Heart

The Normal Heart faz “Clube de Compras Dallas” parecer uma obra-prima do cinema. Com temática bastante semelhante ao filme que deu a Matthew McConaughey e Jared Leto o Oscar, a produção da HBO Filmes faz jus ao termo “filme feito para TV”, quando isso não era elogio. Mal escrito, mal dirigido e mal editado, o longa pega uma história forte e comovente e transforma em um dramalhão sem dramaticidade alguma.

O filme começa no início dos anos 1980, quando ser gay, segundo o próprio longa, era sinônimo de sexo fácil, orgias, promiscuidade e liberdade sexual. Até que uma doença desconhecida começou a mudar esse cenário. Gays começaram a apresentar sintomas e morrer, alarmando a comunidade para o chamado “câncer gay”. “The Normal Heart” coloca em foco então um grupo de gays que tenta chamar a atenção das autoridades, na época omissas, à questão. Liderados por Ned Weeks (Mark Ruffalo) e Bruce Niles (Taylor Kitsch), esse grupo se divide entre a liberdade sexual alcançada e o medo de morrer, já que, na época, não se sabia como a doença era transmitida.

O dilema dos personagens é o mesmo da produção, que não esconde sua posição conservadora, assumindo a mesma voz de Ned Weeks, contrário a tal promiscuidade e a favor do celibato e/ou monogamia como forma de proteção. É por meio do olhar do personagem que acompanhamos a jornada dessas pessoas e a trajetória de uma doença que virou praga mundial. Mas o filme, claro, está menos preocupado em ser um retrato histórico e mais interessado no drama do personagem central, que se divide entre fazer, aos berros, a AIDS ser reconhecida pelo governo e cuidar do seu parceiro doente (Matt Bomer).  

Dirigido por Ryan Murphy, que não fez sua fama baseado na sutileza (vide “Glee”, “American Horror Story” e seus irregulares trabalhos para o cinema: “Correndo com Tesouras” e “Comer, Rezar, Amar”), “The Normal Heart” é um grande anticlímax em forma de filme. As cenas são mal costuradas, a narrativa truncada não se desenvolve, e os personagens são mal escritos, não dando muito espaço aos atores: Julia Roberts tem uma grande cena; Taylor Kistch e Jim Parsons tem muito pouco a fazer.

Mas Mark Ruffalo é o pior em cena. Ele pode até ganhar todos os prêmios de televisão daqui pra frente, mas o ator constrói um personagem chato, raso e sem um pingo de carisma, quase uma bicha louca que passa o filme inteiro com raiva e gritando.

O discurso panfletário do filme não ajuda. As frases são clichês, e os atores ficam muitas vezes engessados pelo formato teatral da peça que originou o longa. O resultado beira o constrangedor, desperdiçando uma grande história em uma produção que não causa impacto ou desperta emoção no espectador (com exceção de uma cena aqui outra ali). Muita pouco para uma produção tão cheia de pretensões.

PS: Sobre a descoberta da AIDS e a sua repercussão, outro telefilme bem mais interessante é o pouco visto E a Vida Continua. Fica a dica.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cinema: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

 
A saga dos X-Men no cinema é a mais irregular possível. E a saga dos X-Men no cinema é a melhor de todas. Mesmo não mantendo o equilíbrio entre uma produção e outra e, muitas vezes, errando ao alterar as tramas dos quadrinhos e reescrever a história dos personagens, os mutantes são os mais interessantes da já saturada leva de filmes de super-heróis. O mérito é dos próprios personagens (sejam eles heróis ou vilões) e daqueles que conseguiram manter a essência das histórias na tela grande, ainda que muitas modificações incomodem e/ou não se justifiquem (Raven e Xavier amigos de infância, really?).

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é inspirado em uma das melhores tramas do grupo e traz de volta ao comando da saga Bryan Singer, dono do melhor longa da franquia (“X-Men 2”). O resultado é um belo filme que consegue amarrar a trilogia original ao ótimo prequel que conta o nascimento na equipe. Claro que o longa tem seus problemas, mas o conceito dele segue direitinho a lógica dos quadrinhos e funciona muito bem na tela grande. Se não supera as expectativas criadas pela massiva campanha de marketing ou pela própria trajetória dos heróis no cinema, está bem longe de ser um vexame (vide “X-Men: O Conflito Final” ou os filmes-solo do Wolverine).

Singer, que não dirigiu uma só boa produção depois de ter abandonado os mutantes, assume à cadeira de diretor, coloca ordem na casa e recupera parte do seu prestígio perdido em filmes como “Superman – O Retorno” e “Jack, o Caçador de Gigantes”. O cineasta mistura muito bem um tom mais melancólico característico dos heróis vistos como párias e/ou algozes com uma pegada épica que casa com a grandiosidade das cenas de ação.

Nesse embate entre conteúdo e espetáculo, quem ganha são os fãs e o espectador comum. “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” é nostálgico, épico, emocionante, avassalador, complexo e muito bem realizado. A trama que gira em torno de viagens no tempo (a história original inspirou nada menos que James Cameron a criar “O Exterminador do Futuro”) poderia resultar em uma bagunça só no cinema, mas Singer mantém o controle mesmo nos momentos em que o filme escorrega (nunca é explicado, por exemplo, de onde Kitty Pride conseguiu poderes para manipular consciências no tempo/espaço).

As cenas de ação e destruição são muito bem orquestradas. O elenco cheio de rostos conhecidos do passado e novos nomes (com destaque para o Mercúrio de Evan Peters, dono da melhor cena de ação do longa) dá conta do recado e é responsável pelo coração e carga dramática do filme. E a narrativa, ainda que privilegie os eventos que acontecem no passado, consegue balancear muito bem os muitos elementos que tomam conta das 2h11 de duração. A fotografia aqui também ganha destaque em cenas de sombras, luzes, silhuetas e formas que ajudam e muito a plateia a entender os personagens.

E em meio a batalhas, explosões, efeitos especiais, uniformes, sentinelas, passado, futuro, mortes e renascimentos, os mutantes são a grande força da franquia. Ainda que as produções não estejam no mesmo patamar de perfeição de outras séries de super-heróis (a direção de arte e os figurinos muitas vezes aparentam ser fakes) e o tom fantástico vá de encontro ao realismo adotado nos filmes da DC Comics, por exemplo, são os conflitos emocionais dos personagens que tornam a franquia tão interessante. Mais do que deuses ou heróis e vilões com super-poderes, os mutantes estão mais próximos de nós graças a questões importantes que permeiam todas suas histórias: preconceito, intolerância e medo.

São mutantes demais, é verdade, alguns com pouco ou quase nada a fazer. O final é muito amarradinho e explicativo (a HQ termina de modo totalmente aberto). Mas quem se importa? Resumindo, já quero ver X-Men: Apocalipse, que estreia em maio de 2016.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Cinema: Praia do Futuro

 

Karim Ainouz é meu cineasta nacional predileto. Ele constrói imagens e filma palavras e silêncios de um modo que me diz muito. Cada um a sua maneira, “O Céu de Suely”, “Viajo porque te amo, volto porque preciso” e “Abismo Prateado” são experiências cinematográficas bem íntimas para mim. Dono de um olhar poético nada prepotente, Ainouz está interessado em personagens em estado de inquietação e desconforto. Existe certo descontentamento em seu cinema e na fala de seus protagonistas, sempre em processo de fuga, ainda que geralmente fugas subjetivas.
 
O novo trabalho do cineasta, Praia do Futuro, segue caminho semelhante. Cheio de elipses e quase momentos mortos, aqui Ainouz dá mais força às imagens do que às palavras, pouco é dito pelos personagens e muito está implícito em seus gestos e olhares.
 
Saltando no tempo para estabelecer a trama, o cineasta separa sua história em três capítulos para mostrar o relacionamento entre um salva-vidas e um alemão de passagem por Fortaleza. Menos preocupado em dissecar o envolvimento entre os dois, Ainouz prefere explorar momentos importantes para tentar compreender tal sentimento. Donato (em uma atuação corajosa de Wagner Moura) conhece Konrad (um Clemens Schick dono de um par de olhos azuis de abalar estruturas) e muda sua vida, abandona a família em Fortaleza e vai se aventurar em Berlim.
A trama banal se revela e ganha camadas no modo delicado como o diretor filma essa relação e suas consequências. Algumas cenas ganham mais pela plasticidade e força das imagens, compensando certo despojamento de um roteiro que não se prende à lógica de tudo explicar e/ou mostrar: os dois seminus em meio às pedras e ao mar; tudo que é não dito na intensa cena do trem, seguida pela alegria dos dois na boate; o explosivo reencontro dos irmãos; o final em meio a uma imensidão desoladora e uma narração em off cheia de significados etc.
Semelhante a seus trabalhos anteriores, em “Praia do Futuro”, os espaços também são importantes elementos narrativos. Em “O Céu de Suely”, a cidade do interior em que a personagem está presa é fundamental para determinar a inquietude da personagem. O deslocamento vivido pelo caminhoneiro de “Viajo porque te amo, volto porque preciso” e o próprio modo como o longa é filmado são essenciais para a estrutura do filme. E em “Abismo Prateado”, o Rio de Janeiro é um espectador a mais da decadência que Alessandra Negrini sofre após ser abandonada pelo marido. Aqui, tanto Fortaleza quanto Berlim são partes da história e importantes para entender o comportamento dos personagens.
Flertando com o pop (a estrutura capitular, o apelidos dos personagens e a bela trilha sonora), em “Praia do Futuro”, Ainouz segue fazendo um cinema interessante, poético, contemplativo, envolvente e autoral. Tudo isso fugindo do padrão chato, panfletário e/ou amador tão comum ao nosso cinema. Sim, Karim Ainouz é meu diretor brasileiro preferido.
 

 

 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Cinema: Sob a Pele

Sob a Pele é um filme bem interessante. Mesmo não apostando em uma trama amarrada, o novo filme de Jonathan Glazer (“Sexy Beast” e “Reencarnação”) parte de uma narrativa bastante solta para criar clima e buscar a experimentação. Para alguns, o longa pode ser bem chato, mas é um belo exercício audiovisual.
 
O pouco de trama que o filme apresenta é o suficiente para despertar a atenção do público: Scarlett Johansson é uma alienígena que atrai homens solitários para a morte nas gélidas paisagens da Holanda. E passamos grande parte da duração da película acompanhando a atriz (ora sensual e simpática, ora nua, ora meio catatônica) procurando novas pressas.
 
Mas ainda que a narratividade seja bem repetitiva, Glazer cria imagens sedutoras que intrigam e incomodam o espectador (a cena da praia em especial). A trilha sonora ajuda na construção desse clima um tanto desolador, ora apelando quase à cacofonia, ora casando à perfeição com a frieza das imagens.
Em alguns momentos, Glazer flerta quase com o ridículo e, mesmo não se preocupando em responder perguntas, sai-se muito bem ao dar mais atenção à plasticidade da produção do que às peripécias da trama (e quando se volta à história, dando uma virada na forma como a personagem da alienígena se comporta, quase se perde).
Parte desse olhar menos preso à narrativa de Glazer é decorrente de sua experiência como diretor de videoclipes. Junto com Spike Jonze, David Fincher, Mark Romanek, Michel Gondry, Chris Cunningham, Jonas Akerlund e mais alguns outros, Jonathan Glazer foi um dos reis da MTV na década de 1990, estabelecendo estilos, criando tendências e ditando estéticas ao brincar com imagem e som em vídeos de bandas consagradas como Radiohead, Massive Attack, Blur etc.
 
Mesmo que no cinema o diretor ainda não tenha encontrado um caminho consolidado como alguns de seus contemporâneos (“Sob a Pele” é apenas seu terceiro filme em quase 15 anos), essa experiência fica evidente em seus trabalhos para a tela grande. A câmera está mais preocupada em captar a beleza das tomadas do que estabelecer um sentido para as imagens. E o filme é construído muito mais a partir de um conceito do que de um roteiro coerente.
 
O resultado é que muita gente já torceu e ainda vai torcer o nariz para "Sob a Pele". Eu gostei e achei legal bem interessante.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cinema: Godzilla

Gareth Edwards dirigiu um dos melhores filmes de monstro da atualidade, o ótimo e pouco visto Monstros. O cineasta então era a escolha perfeita para conduzir uma nova versão do monstro mais famoso do cinema. Mesmo não sendo incrível e dramático como o primeiro trailer anunciava, o Godzilla de Edwards é um acerto, e o diretor constrói um belo filme cheio de tensão, caos, destruição e desordem.

Edwards não poupa barulho. Godzilla tem terremotos, tsunamis, explosões e monstros gigantes brigando e destruindo cidades. O cineasta segue direitinho a cartilha dos filmes-catástrofe, trazendo drama, suspense, tensão e muitos efeitos. A balança, claro, pende para um lado. Apesar de o elenco (Juliette Binoche, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Sally Hawkins, David Strathairn, Ken Watanabe e Aaron Taylor-Johnson) anunciar que a dramaticidade aqui poderia se sobressair, é a urgência que o cineasta imprime à produção que chama a atenção.

“Godzilla” demora um pouco a engrenar e traz todo aquele blábláblá científico que tenta dar coerência à coisa toda e pouco funciona na tela grande. Mas assim que somos apresentados aos personagens e à trama, o filme flui e vai crescendo em tensão. Interessa-nos menos o drama dos personagens (a maioria tem muito pouco a fazer em cena) e mais a forma como o cineasta filma seu espetáculo audiovisual.

E “Godzilla” é um belo espetáculo. Edwards confia nos efeitos especiais e não tem medo de mostrar seus monstros em detalhes. Ele também confia na ação que está construindo e não picota as cenas a ponto de deixá-las sempre incompreensíveis. Amparado por um belo trabalho de som, o diretor entrega um longa que demonstra certo apuro estético, e algumas cenas são de uma plasticidade e tensão que impressionam (a do trem na névoa e a dos paraquedistas saltando para uma missão impossível são as que se destacam).

Ao contrário da última produção hollywoodiana sobre o monstro, Godzilla aqui é um dos mocinhos do filme. A partir da premissa estabelecida pelo longa (Godzilla salva o mundo), Edwards tenta traçar paralelos entre o monstro e seu personagem principal (Aaron Taylor-Johnson), que segue trajetória parecida ao dos protagonistas de seu trabalho anterior. Ambos são colocados de forma involuntária em determinada situação e percorrem todo um trajeto de destruição até chegarem ao seu destino final (a diferença é que ,em “Godzilla”, Taylor-Johnson não é um mero observador da ação como o casal de “Monstros”).

Ainda que não seja o grande filme que todos esperavam, "Godzilla" é aquele tipo de produção que de certa forma redime os blockbusters e prova que explosões, efeitos especiais e muito barulho também podem combinar com bom cinema.

PS: A título de comparação, o filme funciona bem melhor que "Cloverfield", "Super 8" e "Círculo de Fogo", exemplos recentes que se enquadram na categoria "monstros destruindo tudo".

terça-feira, 13 de maio de 2014

Trilogia involuntária: Clube dos Corações Indies Solitários

Para mim, Lost in Translation, Eternal Sunshine of the Spotless Mind e Her formam uma bela trilogia. São filmes diferentes, com diretores e atores diferentes e assinaturas visuais distintas, mas que funcionam muito bem em conjunto quando assistidos um atrás do outro. Os três filmes têm em comum casais bem diversos entre si que sofrem ao som de uma trilha sonora indie e se dividem entre desejo e realidade. Os três longas são quase como uma trilogia indie para corações solitários, cada qual trazendo um olhar melancólico sobre o amor e suas consequências em jovens adultos perdidos na vida.
 
Lost in Translation é o mais poético dos três e o menos apegado a uma narrativa. O filme é uma espécie de passeio pelas ruas de Tóquio, onde um ator de sucesso esbarra na esposa solitária de um fotógrafo. A diferente de idade entre os dois é grande, mas a química entre Bill Murray e Scarlett Johansson dissolve essa questão em poucos minutos. Ambos são casados e infelizes, estão em Tóquio a contragosto e descobrem em uma amizade furtiva uma saída para a realidade entediante. Entre noite dançantes no karaokê e doses de uísque no bar do hotel, a amizade errante dos dois se transforma em um amor que nunca se consuma. Sofia Coppola usa as luzes e o neon de Tóquio e a trilha sonora indie perfeita para embalar uma obra bem mais apegada à contemplação do que à história e se sai muito bem construindo o romance moderno perfeito.

Eternal Sunshine in the Spotless Mind segue um caminho distinto, ainda que faça uso da melancolia como estratégia. Clementine e Joel se conheceram, se amaram, se odiaram e esqueceram um ao outro, não como um processo natural da vida, mas porque ambos passaram por um procedimento que deleta da memória as lembranças indesejadas. Indo e voltando no tempo em um roteiro genial todo amarradinho de Charlie Kaufman, o filme de Michel Gondry é uma delícia de destruir corações. Amparados por atuações camaradas de Jim Carrey e Kate Winslet, o longa explora aquele desejo não tão secreto assim de esquecer completamente as pessoas e as coisas que nos magoaram. Mas, ao mesmo tempo em que abraça essa premissa, o roteiro nos mostra que a dor vem justamente porque antes existiram bons e grandes momentos que merecem ser guardados. A direção típica de Gondry, dono de uma assinatura visual bem peculiar, envelheceu um pouco com as repetições estéticas do cineasta em outros filmes e videoclipes, mas a força da história permanece.

Her, de Spike Jonze, fecha a trilogia apostando no caminho do meio termo. O olhar de Jonze não deixa a poesia se sobrepor à dramaticidade como no trabalho de (sua ex-mulher) Sofia Coppola, mas também não se prende tanto ao roteiro como na produção de Gondry. Passeando entre a beleza de suas imagens e direção de arte e a força da palavra, Jonze retrata uma relação além do conceito de normal para discutir várias questões pertinentes ao nosso comportamento nos dias de hoje. Theodore (interpretado lindamente por Joaquim Phoenix) é um moço que ainda sofre com a separação da ex-mulher (Rooney Mara) e que se pega em um relacionamento com seu novo sistema operacional (mais uma Scarlett Johansson, aqui apenas em voz deliciosamente sedutora). Os tons pastéis na fotografia e nos figurinos e a trilha sonora melancólica, cortesia de parte do Arcade Fire, embalam muito bem a proposta de Jonze em construir uma produção agridoce que vai muito além do rótulo de comédia romântica.

Os três filmes, na verdade, trabalham muito bem nessa chave que mistura elementos da comédia romântica (garoto encontra garota) com muitas pitadas de drama para discutir amor, relacionamento, possibilidades, memória, desejo, expectativas e por aí vai. O melhor: ambos são melancólicos, mas terminam cheios de esperança.

PS: os três filmes levaram para casa o Oscar de melhor roteiro original, ou seja...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Cinema: X-Men – A Saga

Na virada dos anos 1980, só dava X-Men na minha cabeça. Lia os quadrinhos, adorava as histórias e me identificava com os personagens. Menos porque eles tinham poderes (que até onde eu sei, não tenho) e mais porque eles eram mutantes, diferentes e sofriam preconceitos (o fato deu ser gay deve ter algum peso nisso). Adorava as sagas. O surgimento e a morte da Fênix. O Massacre e a Queda dos Mutantes. O Inferno. X-Men contra Os Vingadores. X-Men contra o Quarteto Fantástico. Lia outros gibis de heróis, tanto da Marvel quanto da DC, mas meu coração era deles, dos mutantes (X-Men, Novos Mutantes, X-Factor).

Sabe-se lá Deus o porquê, um dia resolvi parar de ler e colecionar HQs. Simplesmente deixei de lado. O tempo passa, a vida voa, eu mudei, comecei a me dedicar mais a ver filmes e parei por completo de comprar quadrinhos. Dei minha coleção de mais de 500 revistas para meu irmão mais velho e me enfiei em salas e mais salas de cinema.

E foi graças à sétima arte que os mutantes voltaram a fazer parte da minha vida. Lá em 2000, eu ainda jovem e bobo, em uma época que filmes de super-heróis eram raros e mal vistos, uma produção colocou de volta o Wolverine, a Tempestade, a Vampira, Ciclope, Jean Grey, Professor Xavier, Mística, Magneto e tantos outros no meu radar. Gostei e passei a acompanhá-los na tela grande. As histórias não eram iguais aos quadrinhos, óbvio. Nem sempre os personagens eram bem retratados. Fatos foram modificados, personagens ganharam novos destinos e trajetórias. Mas, tudo bem, eles eram os X-Men e nada mais importava.  

2014, mais de 20 depois de ter parado de ler as histórias e quase 15 anos após o lançamento do primeiro longa-metragem baseado nos personagens, eles estão de volta. E o melhor, a próxima produção é inspirada em uma das minhas histórias prediletas do grupo: Dias de um Futuro Esquecido (já devidamente relida). Depois de ser inundado por teasers, trailers e pôsteres, tive um pequeno surto, visitei meu irmão, roubei algumas revistas dele e revi todos os longas anteriores em sequência.
X-Men (2000) – O primeiro longa sobre os heróis considerados por muitos como vilões não é o épico que muitos esperavam, mas é uma bela introdução aos personagens. Com pouco mais de 1h30 de duração, o diretor Bryan Singer apresenta os heróis principais da equipe, remodela seus uniformes (menos colantes e coloridos e mais inspirados no preto sóbrio de “Matrix”, que tinha chocado o universo cinematográfico no ano anterior) e coloca os mutantes do bem (X-Men) contra os mutantes do mal (Magneto e a Irmandade dos Mutantes), os dois lados lutando de forma diferente pela mesma causa: o reconhecimento dos mutantes pelos humanos. Entre muitos acertos (Hugh Jackman eternizou Wolverine, o roteiro enxuto, o elenco de primeira e uma produção caprichada) e alguns erros (Halle Berry e sua caracterização de Tempestade e alguns diálogos vergonhosos), X-Men – O Filme abriu o caminho para novas e mais ousadas produções sobre os heróis e foi o pontapé para que o “gênero” se tornasse o mais lucrativo do cinema atualmente.
X-Men 2 (2003) – Com respaldo graças ao sucesso do primeiro filme, Bryan Singer não poupou esforços e transformou “X-Men 2” em uma das melhores adaptações dos quadrinhos feitas pelo cinema até hoje. Com mais heróis, mais tempo e mais dinheiro em mãos, os X-Men finalmente ganharam uma tradução fiel e digna, misturando elementos de tramas como a origem do Wolverine, o surgimento da Fênix e mais uma vez colocando a questão Humanos X Mutantes como elemento principal. A sequência inicial com Noturno é espetacular. O uso rápido de alguns heróis dos quadrinhos é um primor (Kitty Pryde, Colossus, Banshee etc). A direção de Singer é respeitosa. E a ação é mais orgânica e presente. O resultado é o melhor filme da série.
X-Men: O Confronto Final (2006) – Bryan Singer pulou fora para dirigir o horroroso “Superman: O Retorno”, e no lugar dele o genérico Brett Ratner quase colocou tudo a perder e estragou uma das melhores histórias dos heróis (A Saga da Fênix). Com uma pegada mais de ação e menos preocupado com coerência, o diretor inventou uma história de cura mutante, vestiu os mutantes maus com roupas de couro, pretas, piercing e tatuagens e por pouco não jogou a franquia dos heróis no lixo. A qualificação dos mutantes em níveis de poder é ridícula, e a caracterização deles idem. A morte de Ciclope é anticlimática e banal. E Ratner confunde ação com exagero e grandiosidade, esquecendo-se de dar estofo à história. De bom, a luta entre Fênix e o Professor Xavier e o aparecimento de Anjo, que, infelizmente, é super mal aproveitado. Um final bem triste para os heróis.
X-Men: Primeira Classe (2011) – Depois do fraco encerramento da trilogia original e de um filme solo do Wolverine sem grande impacto, os produtores da franquia decidiram arriscar e fazer um prequel dos heróis, remontando à formação do grupo. A ideia foi bastante criticada e tinha tudo para dar errado, mas uma das forças motoras da cultura pop é a nostalgia, e o diretor Matthew Vaughn acertou em cheio ao fazer bom uso dessa estratégia. Mostrando o início das “carreiras” de Charles Xavier e Erik Lensherr antes de se tornarem os arqui-inimigos Professor Xavier e Magneto, Vaughn reescreve a história dos heróis tentando ao máximo fazer uma ligação entre esse filme e os anteriores. O resultado é uma delícia que tenta reconstruir uma mitologia já enraizada na cultura pop (JJ Abrams fez coisa parecida com “Star Treek”) e deixou os fãs eufóricos. Ainda serviu de ponte para que os produtores juntassem o elenco da trilogia original com o dessa “releitura” no próximo “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, que traz de volta Bryan Singer à cadeira de diretor. A expectativa é grande.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Cinema: Pílulas

 
O Grande Mestre – Depois do fraco “Um Beijo Roubado”, esperava-se mais do retorno de Wong Kar-Wai à tela grande, mas “O Grande Mestre” consegue ser ainda mais fraco que o trabalho anterior do cineasta chinês. Kar-Wai ainda sabe filmar como poucos, misturando câmera lenta e música para criar imagens de deixar qualquer um babando (a produção recebeu indicações à melhor fotografia e figurino), mas narrativamente não consegue sustentar a pretensão de uma produção que quer ser épica, histórica, romântica, melodramática e de ação. O resultado é um longa chato, cansativo e que só se sustenta graças à fotografia caprichada e à coreografia das lutas, muito bem encenadas. Depois de tanto tempo longe das telas e voltando a um tipo do filme que o consagrou no início da carreira, Kar-Wai fica devendo mais uma vez.

Nóe - O maior mérito de Darren Aronofsky é evitar que esse épico bíblico seja uma grande tragédia. O roteiro não amarra a contento a variedade de gêneros que a produção quer abraçar (épico, filme catástrofe, drama familiar, produção com pitada religiosa). O elenco parece desconfortável (o carisma de Russell Crowe e o empenho de Emma Watson destoam da beleza vazia de Jennifer Connelly e Douglas Bloom, da apatia de Logan Lerman e da vilania clichê de Ray Winstone). E os efeitos especiais são apenas ok diante da grandiosidade propostas pelo filme. Mas, ainda assim, o longa é envolvente e tem uma edição que impede que as 2h20 minutos se arrastem sem fim. Mesmo se saindo melhor na parte épica e catastrófica, demonstrando que Hollywood sabe oferecer um espetáculo como ninguém, “Nóe” não deixa de ser o elo mais fraco na ótima carreira de Aronofsky (sim, eu gosto de “A Fonte da Vida”).

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho - "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" poderia descambar pelo caminho pobre dos filmes adolescentes nacionais ou o da mera repetição, já que é inspirado em um curta-metragem do mesmo diretor e com o mesmo elenco. Mas o diretor Daniel Ribeiro consegue fugir desse infeliz destino e entrega um longa-metragem fofo, delicado e todo amarradinho sem cair na armadilha de reproduzir clichês e estereótipos que, supostamente, agradam a geração que assiste ao seriado global "Malhação", na teria, o público-alvo da produção. Ainda que não seja o grande filme memorável que todos esperavam, que tenha lá suas gorduras (a subtrama do intercâmbio pouco acrescente à narrativa) e que repita, sim, algumas situações e diálogos do curta "Eu Não Quero Voltar Sozinho", a química e o amadurecimento do elenco como atores e o desenvolvimento de temas antes apenas sugeridos tiram de letras esses pequenos incômodos.

terça-feira, 11 de março de 2014

Séries: HBO

 
A HBO é foda. A emissora nem sempre acerta (os cancelamentos repentinos de “Hung” e “Enlightened, por exemplo), mas quando quer, ela faz bonito. Logo no início de 2014, a HBO lançou duas novas séries para entrarem no mesmo hall da fama de “The Sopranos”, “Sex and The City”, “Game of Thrones”, “Big Love”, “True Blood”, “Girls” e “Boardwalk Empire”: as ótimas True Detective e Looking.

De longe, True Detective causou mais impacto. Trouxe de volta ao olimpo uma trama envolvendo policiais e um serial killer, depois de “Dexter” ter esvaziado e “The Following” quase enterrado a fórmula. Com uma direção dos deuses de Cary Fukunaga (“Jane Eyre”), um texto brilhante do criador Nic Pizzolatto e um elenco de peso “emprestado” da tela grande (Woody Harrelson, Matthew McConaughey e Michelle Monaghan), “True Detective” é televisão, é cinema, é sangue, mistério, violência, sexo e assassinatos.

Indo e voltando no tempo, a série se passa em um período de cerca de 20 anos, tempo que os detetives Rust e Martin levam para tentar solucionar uma série de desaparecimentos envolvendo crianças, mulheres, religião e rituais satânicos. Parte da força da série está justamente na construção de um quebra-cabeça envolvente cheio de peças soltas e que nem sempre fazem muito sentido.

Pizzolatto costura a trama com precisão em meio à vida pessoal dos dois diferentes e conflitantes policiais. Fukunaga pega a narrativa de primeira e eleva a experiência ao máximo: a forma como passado e presente se conectam é perfeita, sempre revelando detalhes sobre os personagens e a própria trama (boa parte da série é conduzida por meio de entrevistas recheadas de flashbacks).

Além da competência do elenco, outra coisa que chama a atenção é o olhar cinematográfico de Fukunaga. A direção de arte é detalhista e impressiona. A fotografia é deleite puro e imprime um ar melancólico à série (o plano-sequência que fecha um dos episódios é melhor que muito filme por aí). O ritmo lento ajuda a desenhar melhor os personagens. E a série cresce a cada novo episódio, encerrando-se em um capítulo final tenso e que não se importa em deixar algumas pontas soltas.

Looking não tem a pretensão de “True Detective”, mas cumpre muito bem seu papel. Lançada com uma versão gay de “Girls”, a série segue a rotina de três amigos em São Francisco. Patrick trabalha com videogames e vive em busca de um relacionamento. Agustín é um artista plástico eternamente em conflito e em busca de inspiração para sua arte. E Dom, o mais velho, é um garçom que quer montar seu próprio restaurante.

De “Girls”, a série pega emprestado a simplicidade no formato e a estrutura episódica. Mas “Looking” vai muito além de ser uma mera reprodução da hypada série sobre quatro amigas tentando viver em Nova York. Criada e escrita por Michael Lannan, a maioria dos oito episódios da primeira temporada é dirigida por Andrew Haigh (do ótimo “Weekend”), que lança um olhar sensível sobre a vida desses três amigos que tentam viver entre erros e acertos.

Fugindo da visão mais efusiva da vida gay tão alardeada por “Queer as A Folk”, “Looking” retrata preconceitos e lança um olhar mais maduro e delicado sobre velhos estereótipos: o gay mais velho e amargo, a artista que se acha superior e o amigo mais ingênuo e romântico. Todos os três em alguns momentos erram feio, soam como idiotas imaturos, mas são salvos pelo carisma dos atores que os interpretam (outra coisa em comum com as protagonistas de “Girls”). O desenrolar da série, no entanto, mostram essas pessoas sem maniqueísmos, e “Looking” só não ganha mais pontos pela brevidade dos capítulos, que muitas vezes impede uma aproximação maior com os protagonistas e um melhor desenvolvimento das tramas.

De qualquer forma, as duas séries voltam em 2015: "True Detective" seguindo a estratégia de "American Horror Story", com novos personagens e atores e mais uma trama fechada; e "Looking" acompanhando a trajetória um tanto torta de Patrick, Agustín e Dom.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Cinema: Balada de um Homem Comum

O novo filme dos irmãos Coen ("Fargo", "Onde Os Fracos não Têm Vez") está longe de ser arrebatador, assim como seu protagonista. Orgulhoso, egocêntrico e com cara de poucos amigos, Llewyn Davis tenta a todo custo vencer na vida e viver de sua paixão: a música. Mas a vida no Greenwich Village do início dos anos 1960 não é fácil, e Davis come o pão que ele mesmo amassou, amargando decepção atrás de decepção e pulando de sofá e sofá sem nenhuma perspectiva de futuro.

Balada de um Homem Comum não é um filme fácil de assistir. Não porque seja ruim, mas porque os irmãos Coen não oferecem saídas para seu protagonista. Não há redenção, não há catarse. Acompanhamos Davis deixar passar todas as oportunidades que aparecem na sua frente graças à sua arrogância. Para ele, a música é mais do que seu ganha pão, é a forma de arte que ele encontrou para se expressar.

Para representar essa figura quase antipática, azarada e depressiva, Ethan e Joen Coen acharam no corpo, alma, voz e olhos perdidos de Oscar Isaac o intérprete ideal. É sob os ombros do ator que recai grande parte da melancolia que emana do longa. Melancolia essa que ganha força com a bela fotografia (indicada ao Oscar), a direção de arte precisa da produção e a trilha sonora folk.

Os rostos conhecidos que entram e saem da vida de Davis ajudam o espectador a conhecer mais sobre o protagonista. É por meio dos diálogos e troca de olhares de Isaac com Carey Mulligan, Justin Timbarlake, John Goodman, Adam Driver (queridinho indie da série “Girls”), Robin Bartlett, Garrett Hedlund e até com o gato Ulysses que o espectador se conecta com Davis e tenta entendê-lo melhor.
Balada de um Homem Comum é um trabalho delicado dos cineastas. É um filme sobre erros e como eles afetam nossa trajetória. É um longa sobre teimosia e fracasso. Não é a toa que o esse belo trabalho tenha sido praticamente ignorado pelo Oscar 2014. Uma pena. A vida nem sempre é heroica ou redentora.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Cinema: Oscar 2014

O Oscar é um prêmio conservador, careta e quadradinho. Já deu provas disso inúmeras vezes ao longo dos seus mais de 80 anos. Então não é nenhuma surpresa, em um ano aclamado pela crítica como um dos melhores para o cinema recente, vermos tantas produções convencionais em busca da cobiçada estatueta. Pelo menos, o line-up desse ano não causa nenhum constrangimento, caso de anos anteriores, quando longas vergonhosos como “Indomável Sonhadora”, “Os Miseráveis”, “Tão Forte e Tão Perto” e “Um Sonho Possível” ou os chatíssimos “Lincoln” e “O Homem que Mudou o Jogo” concorreram ao prêmio.

Esse ano, depois de um bom par de anos sem conseguir ver todos os indicados a Melhor Filme nos cinemas antes da cerimônia (o último ano que consegui a proeza foi em 2011), estou em dia pelos menos com as categorias principais (filme, direção, todas as de atuação e roteiro, edição, fotografia, direção de arte). Eis então a lista dos indicados a Melhor Filme em minha ordem de preferência:

Ela – Pode não entrar para a História do Cinema, mas é o filme mais emocional da lista, o que mais me tocou e me marcou. De quebra, ainda é bem dirigido e escrito por Spike Jonze e traz ótimas interpretações de todo o elenco. Acrescente-se à fórmula uma bela direção de arte, fotografia, trilha sonora, trailer, pôster...

Capitão Phillips – Não existe melhor diretor para conduzir um exercício de tensão do que Paul Greengrass. Seguindo a linha dos ótimos Bournes e “Vôo 93”, o diretor se inspira em uma história real e cria um produto que vai bem além dos limites do cinema de ação. Tom Hanks ainda entrega a melhor atuação de sua carreira e é amparado por um ótimo elenco coadjuvante.

NebraskaAlexander Payne volta à boa e velha forma do início da carreira com esse ótimo quase road movie sobre a relação entre um pai já senil e seu filho mais novo. O filme ainda traz uma bela fotografia em p&B que emoldura esse retrato melancólico e agridoce de uma família nada perfeita. Na falta de Joaquin Phoenix e Tom Hanks na categoria de melhor ator, Bruce Dern merecia levar o prêmio para casa.

O Lobo de Wall Street – Apesar de ter três horas, Martin Scorsese segura muito bem esse longo exercício de estilo que segue a trajetória de um personagem amoral que ganha uma interpretação carismática de Leonardo DiCaprio. Scorsese começa a produção com o pé no acelerador, mas o filme perde um pouco do vigor na sua segunda metade, o que, talvez, justifique a ausência de Thelma Schoonmaker na categoria de edição.

Philomena – Filme absolutamente convencional que ganha pontos graças à direção econômica e honesta de Stephen Frears. De quebra, o filme traz uma interpretação comovente de Judi Dench. É filme para chorar e fazer você se sentir bem, mas pelo menos é muito bem feito dentro da sua proposta de simplicidade.

Gravidade – Um dos filmes mais supervalorizados do ano. Alfonso Cuáron, que já dirigiu longas bem superiores, como “E Tua Mãe Também” e “Filhos da Esperança”, ganhou respaldo e prêmios por esse achado técnico e estético que não alcança o mesmo resultado em termos narrativos. Ainda temos que aguentar Sandra Bullock fazendo caras e bocas de sofrimento em um papel bastante físico, mas sem grandes nuanças. George Clooney engraçadinho perdido no espaço também não ajuda.

Clube de Compras Dallas – Depois do interessante “Loucos de Amor” e do qualquer coisa “A Jovem Rainha Victoria”, Jean-Marc Vallée fica no meio termo nesse filme que não desenvolve todo seu potencial, mas se sustenta graças a duas grandes interpretações: Matthew McConaughey e Jared Leto em seus melhores momentos. Ainda que acerte ao fugir do melodrama barato, Vallée aposta demais no correto e entrega um longa que comove bem menos do que deveria.

12 Anos de Escravidão – Outro da série supervalorizado, o novo trabalho de Steve McQueen (“Hunger” e “Shame”) aposta na seriedade e no solene para narrar uma história de sobrevivência. Sem grande impacto audiovisual, a força do filme está toda no tema e nas atuações. É um bom filme, muito mais preocupado em passar uma mensagem e ser histórico do que propriamente ser cinema. É quase um “Lincoln” reloaded, porém bem melhor que o chatíssimo filme de Spielberg. Um dos grandes males do longa é que a edição nunca consegue nos fazer acreditar que se passaram 12 anos.

Trapaça -  Vai entender, mas o filme mais fraco da lista é também o com maior número de indicações (10). “Trapaça” não é ruim, mas está longe de ser bom. Com uma história sem pé nem cabeça, David O´Russell liga o piloto automático e finge ser Martin Scorsese nessa trama que começa e termina sem nunca diz a que veio. O elenco é bom e carismático, mas todos passam longe do memorável (Amy Adams é a melhor em cena, mas sua personagem é quase jogada pra escanteio do meio para o fim). No final das contas, é aquele típico cinema de plumas, paetês, perucas e figurinos que chamam mais atenção do que o filme em si. É quase a síntese do cinema comercial limpinho que o Oscar tanto curte. Se bobear, leva o prêmio para casa e se junta a outros tantos filmes okzinhos esquecíveis que já ganharam (“O Discurso do Rei”, “Argo”, “Uma Mente Brilhante”, “Shakespeare Apaixonado”, “O Paciente Inglês”... e a lista é longa).
 
 
 
 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Cinema: 12 Anos de Escravidão

A força de 12 Anos de Escravidão está toda em seu tema. A trajetória de Solomon Northup de homem livre a escravo é digna de nota e contém todos os elementos necessários para ser um bom filme (drama, tensão, horror, redenção) e levantar questões sobre a escravidão, questões que ecoam ainda hoje. Mas, de certa forma, o diretor Steve McQueen desperdiça a chance de transformar essa trajetória em grande cinema e se limita a fazer o básico.

Depois de dois filmes mais intimistas e ousados ("Hunger" e "Shame"), apoiados nos dramas de um único personagem, McQueen envereda aqui por um caminho mais épico e clássico. Por meio de uma narrativa bem quadrada e demarcada, acompanhamos o sofrimento de Solomon (ou Platt) em um tempo em que ser negro era pior do que ser nada. Na visão de McQueen, “12 Anos de Escravidão” tem seus heróis e vilões bem caracterizados e o bem e o mal nunca se confundem, o que acaba diminuindo um pouco a importância do longa (o único personagem que foge do esquema maniqueísta é o fazendeiro vivido por Benedict Cumberbatch).

Apesar de amparado por ótimos atores, Freeman (Paul Giamatti), Tibeats (Paul Dano), Edwin Epps (Michael Fassbender) e Mistress Epps (Sarah Paulson) são tão vilanescos quanto qualquer outro vilão de um filme de super-heróis. E ainda que traga uma encenação bem realista (diferente, por exemplo, de “Django Livre”, que trata de tema semelhante de forma mais carnavalesca), essa opção do cineasta por adotar extremos acaba por afastar o espectador da obra. As cenas de chicoteamento e maus tratos são fortes e incômodas, mas perdem impacto porque parecem apenas um percalço corriqueiro antes da redenção final em que o bem supera o mal.

Outro pecado de McQueen é, muitas vezes, usar o fato de Solomon ser culto, letrado e sofisticado como um fator que agrava mais ainda o cerceamento de sua liberdade. Solomon é o centro das atenções e o olhar do diretor é mais condescendente em relação ao personagem, sempre de olhos arregalados diante do horror que é obrigado a assistir, muitas vezes sem participar dele (mesmo enfrentando de frente, sem grandes consequências, seus algozes). É como se o sofrimento de Solomon (vivido pelo ótimo e intenso Chiwetel Ejiofor) fosse maior do que os outros negros que nunca tiveram acesso à liberdade.

O filme também perde impacto porque a questão temporal nunca fica clara. Quando Solomon é sequestrado, é casado e pai de duas crianças. Quando os reencontra, depois de todos os percalços de sua vida, aquelas duas crianças já são adultos e Solomon, avô. Mesmo o título entregando que foram 12 anos de cárcere, o longa não trabalha bem a passagem do tempo. Os personagens não envelhecem, e a decadência de Solomon é mais perceptível pelo olhar do que por seu físico.

A bela fotografia e a direção de arte realista ajudam a minimizar os problemas pontuais da produção. A trilha sonora é envolvente e funciona muito bem para demarcar os momentos mais dramáticos e/ou tensos. Mas, ainda que seja um longa importante e essencial por retratar de modo tão real um tema do passado que reverba até hoje, “12 anos de escravidão” perde força graças um tratamento audiovisual sóbrio e solene demais. No final das contas, o filme se destaca mais por relevar certa hipocria do público. “12 anos de escravidão” é aquele típico longa que deixa o público elitista, classe média, reacionário e homofóbico perplexo e horrorizado sem perceber que seu desprezo, maus tratos e preconceito são as chicotadas dos dias de hoje.  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cinema: Nebraska

Apesar de gostar muito de “Ruth em Questão, “Eleição” e “As Confissões de Schmidt”, os últimos trabalhos de Alexander Payne não me disseram muito. “Sideways” e “Os Descendentes” me parecem muito mais preocupados em agradar a um público maior do que propriamente desenvolver o potencial que o cineasta demonstrara no início da carreira. Nebraska, o novo trabalho do diretor, pode não ter a mesma pegada irônica dos primeiros filmes de Payne, mas acerta ao ser mais espontâneo e apostar na simplicidade e melancolia.

O longa é uma história de despedida. Uma carta de amor sobre a relação de um filho e um pai. Ainda que seja bem convencional em sua estrutura, Payne mergulha seu filme em preto & branco para estabelecer uma conexão entre um pai que já apresenta os primeiros sinais de caduquice e um filho que tenta de alguma forma dar um final digno a ele. Mas não é a bela fotografia P&B que emoldura o longa que emociona, e sim o texto preciso e a encenação poética de Payne e seu elenco.

De modo simples e com uma trama quase banal, Payne busca na identificação a chave para conquistar o espectador. Woody é um velho rabugento e que nunca parece ter sido um bom pai e marido. David é seu filho mais novo que reluta, mas leva seu pai em uma viagem para resgatar um prêmio de US$ 1 milhão que nem mesmo existe. Estabelecida a trama, partimos juntos com os dois em um típico road movie norte-americano, no qual saberemos mais sobre a história de Woody, sua esposa Kate e, por tabela, dos hábitos de uma típica família white trash do meio dos Estados Unidos.

O cenário pode ser diferente. O sotaque pode não ser o mesmo. As referências podem ser outras. Mas o comportamento familiar dos personagens aproxima o espectador de “Nebraska”. Woody é silencioso e nada carismático (mas ganha uma interpretação acolhedora de Bruce Dern). Kate fala pelos cotovelos e só reclama (mas é amparada pela simpática June Squibb). E David não deixa sua frustração abalar seu olhar mais complacente em relação ao mundo (Will Forte parece entender o personagem como ninguém). A partir dessa tríade de personagens, somos apresentados a outros tantos (invejosos, saudosos, melancólicos, tristes, resignados, sem perspectiva) e conquistados por eles (minha preferida é a ingênua e doce dona do jornal local).

Payne sabe que tem uma história triste em mãos, mas consegue se desviar de um caminho mais pesado e constrói um filme agridoce e cheio de humor. A melancolia do olhar do diretor vem sempre acompanhada de risos para evitar que a produção ganhe um ar solene. E a cada cena de partir o coração (uma em particular é quando Woody é zombado por todos em um bar), Payne deixa que a leveza de alguns diálogos certeiros e situações espirituosas dominem a tela. E a cena final é dirigida como um belo retrato em p&B de uma relação prestes a chegar ao fim.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Cinema: Ela

 
Existem filmes, filmes e filmes. Muitos você assiste e nada acontece. Bons ou ruins, não importa: eles não te dizem nada e mal ocupam espaço no seu repertório cinematográfico. Alguns entram com tudo para a História do Cinema, promovem revoluções estéticas, avanços narrativos, representam uma época e fazem parte do imaginário de cinéfilos ao redor do mundo por serem mais do que um filme. Já poucos dialogam diretamente com você, te tocam de um jeito que poucas coisas te tocam, te fazem pensar, chorar, sorrir, acreditar... Esse último tipo de filme é íntimo e pessoal. Algumas pessoas compartilham com você do mesmo sentimento em relação a eles. Outras não. Simples assim.

Antes mesmo de ver Her (o título em inglês causa um impacto muito maior em mim), eu já sabia do potencial que a produção tinha para entrar na minha lista de filmes íntimos e pessoais. Como não amar e se identificar com a história de um rapaz solitário, desiludido, de bigode e ar setentista que se apaixona por um sistema operacional de computador? Eu sabia que não tinha como resistir. “Her” já tinha me ganhado no pôster, no trailer e na trilha sonora, só faltava conquistar meu coração definitivamente enquanto filme.
Com expectativas mil, fui lá ver o filme e #morri. “Her” não é perfeito e tem seus problemas (a transformação final do sistema operacional é abrupta e sem sentido, por exemplo), mas é o trabalho mais honesto e melancólico de um diretor (Spike Jonze) mais conhecido por suas inovações narrativas do que propriamente por ser emocional. “Her” é um retrato melancólico daquilo que estamos nos tornando, quase como uma fotografia do nosso futuro, cada vez mais conectados com o mundo e desconectados dos outros e de nós mesmos (as cenas das pessoas nas ruas conversando com seus sistemas operacionais não diferem em nada das imagens das pessoas hoje em dia de olho na tela de seus smartphones).

Mesmo que parta de uma premissa um tanto absurda, como em seus trabalhos anteriores (principalmente “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”), Jonze cria uma obra crível e que fala muito sobre nós sem ser necessariamente pretensiosa ou cabeça. Com um tom agridoce presente na trilha sonora (cortesia da banda indie Arcade Fire), na direção de arte e nos figurinos retrôs e no próprio comportamento dos personagens, Jonze estabelece aos poucos uma conexão com o espectador e nos transforma no Theodore (Joaquin Phoenix) que se apaixona por Samantha. Ele, um moço de olhos azuis límpidos e postura acanhada que ganha novo frescor de vida ao se apaixonar depois de uma grande desilusão amorosa. Ela, um sistema operacional sem nenhuma bagagem emocional que ganha contornos tridimensionais graças à voz de Scarlett Johansson.
Algumas sacadas do roteiro são geniais. Apesar de retraído, tímido e desiludido, Theodore trabalha em uma empresa de cartas personalizadas e as suas são as mais elogiadas e pessoais (e eu não quero viver em um mundo em que as pessoas tenham que contratar um estranho pra escrever uma carta para alguém que gostam). Apesar de causar estranhamento em algumas pessoas (principalmente na ex-mulher de Theodore), o relacionamento entre humanos e sistemas operacionais não é visto como algo bizarro pelo filme ou seus personagens; aliás, o longa deixa bem claro que, nesse futuro não tão distante, isso é extremamente comum.

Apoiado na cara triste de Phoenix, no carisma e simpatia de Amy Adams (como a vizinha amiga perdida de Theodore) e na voz deliciosa de Johansson, Jonze vai desenvolvendo a trama de “Her” e desfilando uma série de temas que abrem discussões e mais discussões. Samantha questiona sua identidade, se frustra com sua condição, mas se abre para um relacionamento desconhecido (como os replicantes de Blade Runner ou o androide-garoto de Inteligência Artificial, ela quer ser muito mais do que realmente é).
Theodore se perde entre o presente e o passado e repete seus padrões de comportamento mesmo tentando construir algo diferente (o diálogo em que o personagem diz que parece já ter sentido tudo e todo novo sentimento agora ser menor do que ele sentiu antes é de partir o coração). Ao redor dos dois, pessoas perdidas diante das novas possibilidades (Olivia Wilde tem uma participação pequena e marcante ao interpretar uma mulher bonita, simpática e totalmente insegura e desesperada por uma nova relação). É como se todos, mimados e carentes, tivessem desaprendido a se relacionar.

O caminho escolhido por Spike Jonze abre espaço para várias críticas: o ar indie-alternativo pode não agradar a todos e repetir estruturas, fórmulas e firulas do cinema, eeerrr, indie-alternativo; a esperteza do roteiro e a proposta moderninha podem ir de encontro à construção do filme enquanto mera história de amor; e o ritmo mais lento e preocupado com a apresentação e o desenho dos personagens não é muito bem-vindo em tempos de um cinema mais rápido e super editado. Mas Jonze parece saber muito bem o que está fazendo e, por meio de diálogos e ações dos personagens, conduz a produção com delicadeza e mistura ficção científica e romance com propriedade.
Se pararmos para pensar, a proposta de Spike Jonze pode não ser nova ou extraordinária. Nos anos 1980, um computador e Lenny von Dohlen já disputaram o amor de Virginia Madsen no esquecido Amores Eletrônicos. Bianca não é um sistema operacional, mas a premissa do emocionante A Garota Ideal tem lá suas semelhanças com "Her": Ryan Gosling se apaixona e mantém uma relação com uma boneca de plástico com o apoio de sua comunidade. E filmes sobre perdão e corações partidos existem aos montes. Mas poucos têm a força de um Lost In Translation ou de um Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. "Her" entra nessa (minha lista) com louvor.