domingo, 16 de dezembro de 2012

TV: Political Animals


Eu não sou um “animal político”, então, a princípio, não me interessei pela minissérie Political Animals. Mas a protagonista é a Sigourney Weaver, uma atriz que me chama a atenção desde sempre. Como faço o tipo que assiste a filmes ou séries só por causa de uma atriz ou ator, dei uma chance à minissérie de seis episódios do mesmo criador de “Brothers & Sisters”, Greg Berlanti. Para minha grata surpresa, “Political Animals” está mais para um drama familiar do que para uma série política. Na verdade, a minissérie é uma das melhores coisas que vi ultimamente.

Sigourney Weaver é Elaine Barrish (personagem claramente inspirada na trajetória de Hillary Clinton), ex-primeira dama que começa a minissérie perdendo as eleições do partido para concorrer à Presidência e, em seguida, assumindo o cargo de Secretária de Segurança do Estado. A minissérie centra o foco na politicagem que rola nos bastidores da Casa Branca e no relacionamento de Barrish com a família e uma jornalista (Carla Gugino) que não sai do seu pé. Entre um incidente diplomático ou alguma acusação ou traição, Barrish tem que lidar com a mãe alcoólatra (Ellen Burstyn), o filho gay e viciado (Sebastian Stan), o outro filho mauricinho que trabalha com ela (James Wolk) e o mulherengo ex-marido e ex-Presidente (Ciarán Hinds).

Bem escrita e com personagens extremamente bem desenhados, a minissérie ainda ganha pontos pela direção envolvente. A minissérie nunca nega seu caráter novelesco e melodramático e usa essas características a favor da construção da trama e da própria estrutura do programa. Os flashbacks são muito bem utilizados para desenvolver os personagens, bem defendidos pelo elenco competente e empático. Claro que o destaque é a interpretação de Weaver, que constrói uma política dura e honesta e uma mãe amável e cheia de culpa.

Apesar do final em aberto, “Political Animals” foi concebida como uma minissérie e, infelizmente, não ganhou status de série e uma segunda temporada. Uma pena. O texto é inteligente, a direção ágil e envolvente e, apesar de ser, no fundo, apenas “mais um” drama familiar entre tantos que temos na televisão, os personagens mereciam sobrevida. Eu pelo menos gostaria de continuar acompanhando as decisões políticas e os dramas familiares de Elaine Barrish.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cinema: mais pílulas


 Magic Mike: Steven Soderbergh pode ter anunciado a aposentadoria, mas o rapaz tem produzido em escala quase industrial desde então. Em menos de dois anos, foram três filmes lançados (Contágio, À Toda Prova e "Magic Mike") e mais um a caminho (Side Effects). MagicMike é o melhor dessa nova leva de longas, mesmo sendo bem tolo em seu conceito. O filme usa o tal Clube das Mulheres para discutir um pouco economia e moralismo. A favor do filme, temos atores carismáticos, um bom ritmo e muito peitorais bem definidos e bundas torneadas de um elenco masculino de primeira. Pesa contra o longa o fato dele não apresentar nada que, por exemplo, já não tenhamos visto em uma novela das oito e por não trazer nenhum grande conflito. O filme começa e só temos um plot mais definido lá pelo final, mas tudo rapidamente se resolve. Pelo menos é um filme simpático e menos pretensioso do que o que o diretor andava fazendo, mesmo sendo apenas uma comédia romântica no final das contas.

Frankenweenie: Há tempos que não vemos um filme realmente bom de Tim Burton, que passou a escolher e dirigir seus projetos no piloto automático. Para voltar à boa forma, o diretor resolveu olhar para seu próprio passado e transformar um de seus primeiros trabalhos, o curta Frankenweenie, em um longa de animação. O resultado é o melhor trabalho do diretor em tempos. A direção de arte é um primor e a concepção dos personagens é de impressionar, prestando uma homenagem a grandes personagens da história do cinema de terror. O próprio filme bebe com vontade na fonte do cinema de horror tipo B. Em linhas gerais, "Frankenweenie" deve não apenas a esse cinema que fez a cabeça de Burton, mas ao próprio universo criado pelo cineasta. A maior prova é estrutura narrativa bem parecida com a de Edwards Mãos de Tesoura, um dos melhores trabalhos de Burton.

Um Alguém Apaixonado: Depois de conquistar uma nova leva de fãs, avessa ao cinema iraniano, com o mais universal Cópia Fiel, Abbas Kiarostami dá um passo atrás com esse "Um Alguém Apaixonado". Apesar de ser muito bem filmado, com longos planos-sequência e cenas com planos estáticos, tudo muito bem planejado, o filme carece de apego. Acompanhamos sem muito interesse a trajetória de uma prostituta indo ao encontro, sem muita vontade, de mais um cliente e o desencadear de algumas ações a partir daí. Kiarostami testa a paciência do público com um filme lento, arrastado e que não chega a lugar nenhum. Parece um trabalho inacabado feito às pressas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Cinema: pílulas

 
 
007 – Operação Skyfall – Oscar de melhor macho alfa para Daniel Craig, por favor. Nunca fui muito fã de James Bond, mas o ator loiro, meio feio, mas encorpado e elegante me fez rever todos os conceitos sobre o agente secreto (o que diz muito sobre meus critérios de avaliação cinematográfica). Na terceira vez que Craig encarna Bond, o ator continua forte, viril, frio e sexy, ganhando o reforço de uma trama mais elaborada e emocional. A direção autoral de Sam Mendes também eleva a experiência e dá certa sofisticação à franquia. 007 – Operação Skyfall é um dos filmes visualmente mais interessantes do agente e é o mais próximo de “Arte” que o agente vai chegar um dia. E isso é um elogio. Javier Bardem, Judi Dench e Ralph Fiennes no elenco só melhoram tudo.
 
As Vantagens de Ser Invisível – Típico filme indie fofo sobre gente deslocada. Ou seja, não tem como não amar. A trama gira em torno de um adolescente meio problemático que não sabe muito bem qual seu lugar no mundo. Até que o rapaz se encontra um pouco ao conhecer dois outros adolescentes tão deslocados quanto ele. O elenco é uma graça (Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller se saem muito bem em seus papéis), o roteiro é emocionante e a trilha sonora é uma coisa. A síntese do filme é a cena em que os três ouvem pela primeira vez “Heroes”, do David Bowie, em uma época em que saber de quem era uma música não era tão simples como usar um aplicativo.
Laurence Anyways – O cinema de Xavier Dolan, um jovem canadense metido a besta, sempre foi afetado e pretensioso. Mas “Eu matei minha mãe” e “Amores Imaginários” tinham algum frescor e ingenuidade que, de certa forma, minimizavam a direção “estou fazendo ARTE” que o rapaz costuma empregar aos filmes. Em Laurence Anyways, terceiro longa do moço, a coisa desanda de um jeito que meu deus. São três horas de masturbação intelectual para narrar a história de um rapaz que resolve virar moça, isso sem a melhor explicação. Sem um roteiro descente e com um ator principal (Melvil Poupaud) que não imprime o menor carisma ao papel, resta ao público aguentar a direção descolada de Dolan. "Laurence Anyways" vira então um filme todo trabalhado na trilha sonora cool e em cenas em câmera lenta que gritam arrogância e simbolismos clichês. Se durasse 1h30, até suportaríamos a pretensão do jovem autor. Mas três horas de cenas absurdinhas e vazias é demais. Haja paciência!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Cinema: E quando o amor pode ser uma bosta...

Recentemente, vi dois filmes que partem de uma premissa parecida: a de que o amor é uma merda e, eventualmente, ele acaba, seja pelo cotidiano cruel, seja pela distância sofrida. De acordo com Loucamente Apaixonados e Entre o Amor e a Paixão, o amor é mutável e acaba, minado pelos problemas, distância, dificuldades, diferenças, rotina e mais uma penca de coisas que o transformam, diminuem e mesmo o matam.
 
Segundo os dois filmes, que também se assemelham na pegada indie alternativa, o amor no cinema (e na vida real também, por que não?) vence cada vez menos todos os desafios. É cada vez mais comum o cinema deixar de lado o “amor romântico” que a todos salva e apostar em um amor mais real, falho e, consequentemente, passível de fim.

Em Loucamente Apaixonados, acompanhamos primeiro a paixão avassaladora entre dois jovens que acreditam ter toda uma vida juntos pela frente. Um descuido de um e, bingo, temos um problema que os afasta e arrasta a situação de uma pendência amorosa entre os dois por anos. O filme de Drake Doremus é lindo e cruel ao mesmo tempo. A entrega do elenco (Felicity Jones e Anton Yelchin) torna tudo ainda mais difícil para o espectador. Acompanhamos e vemos na tela o amor entre os dois seguir rumos diferentes e ser quase destruído em virtude de uma situação que foge ao controle dos dois. 
Michelle Williams e Seth Rogen já começam Entre o Amor e a Paixão casados e vivendo uma relação feliz. Mas ela sente falta de algo novo e refrescante. Esse frescor chega na pele do vizinho (Luke Kirby) que ela conhece por acaso. A química entre os dois é visível e imediata. Ela passa a se questionar, o vizinho entra no jogo dela, e o marido permanece alheio em sua inocência. O dilema dela é comum e corriqueiro: deixar um amor estável e agradável para se aventurar por algo atraente, mas incerto?

Cinematograficamente, o trabalho de Doremus é mais plástico, delicado e envolvente. A edição é picotada e cheia de saltos temporais, e a narrativa é muito feliz ao se dividir os dois atores, mesmo quando o romance entre os dois parece não mais resistir. O apuro não se sobressai em relação aos personagens e ao roteiro, muito bem delineado.
 
Sarah Polley, a diretora de “Entre o Amor e a Paixão”, adota uma abordagem mais cruel e, em certo sentido, parece estar julgando as escolhas de sua protagonista. O filme inicia mais duro, já que a relação entre o casal central já está estabelecida. Mas a diretora acerta ao lançar um olhar mais delicado à relação entre a personagem de Williams (demonstrando a cada novo filme que é uma das melhores atrizes da atualidade) e o vizinho. Algumas cenas são de uma beleza que impressionam (o quase videoclipe de “Video Killed The Radio Star” e a cena de reencontro entre ela e o vizinho são exemplos) e minimizam até as gorduras do roteiro (a irmã alcoólatra do personagem de Seth Rogen pouco acrescenta à trama).
Os dois filmes não apostam em finais felizes fáceis. Ambos terminam de forma melancólica e agridoce. Não determinam o fim do relacionamento, mas apresentam tanto a rotina quanto a distância como fatores decisivos para que os olhos brilhantes e os atos de amor e carinho do princípio sejam substituídos pelas dúvidas, incertezas, gestos frios e sem vida. Mesmo sendo filmes lindos, não é fácil, não!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Shows: Planeta Terra 2012


Eu não entendo muito de música, musicalmente falando. Pouco me importa saber sobre harmonia, notas musicais, qual a diferença entre baixo e guitarra e mais outras tantas nuanças da música. Mas eu adoro música. Ouço música dia e noite, no trabalho, tomando banho, no transporte público e dentro do avião, quando estou feliz ou nem tanto. Então nada me deixa mais animado do que ir a shows, espetáculos musicais das bandas e cantores que eu gosto e amo e ouço e danço. Mesmo eles sendo bem caros.
 
Dito isso, no último sábado, compareci pela terceira vez seguida ao Planeta Terra, meu festival preferido. As razões são várias: o festival só acontece em um dia, sempre tem uma produção impecável, nem é tão caro, e é dono de um público e uma pegada indie-hipster-cult-gay que muito me interessa, digamos assim.
Na sexta edição do festival, o Planeta Terra trouxe mais de 10 atrações. Eu só conferi quatro. Porque festival é isso, é escolha, por mais chato que seja. Então nada de The Drums, Azelia Banks ou The Maccabees, shows que queria ter visto. Mas tudo bem, não se pode ter (ver) tudo.
 
Mas o saldo foi bem positivo. Pra mim, o festival começou com o show da Little Boots, que pôde ser conferido graças ao cancelamento do Kasabian (antes Little Boots chocaria com Suede e, claro, que eu ia preferir o som dos anos 90 à batida eletrônica do projeto de Victoria Christina Hesketh). E um viva ao Kasabian! O som bem eletrônico e dançante de Little Boots não combina muito com o dia claro e o ambiente ao ar livre. Mas quem se importa. Eles tocaram “Remedy” e “Shake” e fizeram um show dançante e pulante acompanhado pelo carisma/timidez da moçoila, que nem é tão moçoila assim.
Suede fez o melhor show da noite. Eu até poderia dizer “de longe, o melhor show da noite”, mas o Gossip chegou junto. Liderado por um Brett Anderson cheio de vigor, o Suede fez um show pauleira que não abriu espaço para descanso e deixou o público sem fôlego com um hit atrás do outro. Faltou “Stay Togrether”, mas teve “The Beautiful Ones”, “Everything Will Flow”, “So Young”, “We Are the Pigs” e até algumas lágrimas (minhas) em “The Wild Ones”. Que banda linda! Que show lindo! E que Brett Anderson Deus!
 
Depois foi a vez de outra banda saída dos anos 90. Não sou tão fã do Garbage quanto do Suede, então achei o show um pouco caído, apesar de puta presença de palco de uma falante Shirley Manson. A cantora, que quase transforma o palco em passarela, tem uma voz poderosa, mas só me empolguei mesmo com os hits hits: “Queer”, “Only Happy When It Rains”, “Stupid Girl” e mais algumas canções. Ainda que sem o ritmo frenético apresentado pelo Suede, o Gargabe fez um bom show.
Para fechar tudo, teve Gossip. Eu gosto da banda, mas não sou fã, fã. Mas que puta show. Beth Ditto entrou quebrando tudo. Cancelou mil vezes, mas fez “O” show. Simpática, carismática, diva e bêbada, Ditto surpreendeu a todos, menos pelo vozerão e mais pela atitude cordial e alegre, nada abusada. Com direito a goles de caipirinha, arrotos involuntários ao microfone e muitas bitocas nos fãs “peito na grade”, a cantora conquistou a todos não apenas com os hits “Heavy Cross”, “Standing in the Way of Control” e tantos outros, mas pela catarse que promoveu em cima do palco e junto ao público.
 
Muita gente reclamou da mudança do Planeta Terra do Playcenter para o Jockey Club, do festival que não estava lotadão e mesmo do line-up "meia boca". Para mim, a proximidade com o metrô Butantã é uma vantagem, a não lotação também, já que as filas eram dignas e dava para se movimentar com tranquilidade entre os palcos, e, principalmente, as bandas eram, acima de tudo, boas. Que venha o Planeta Terra 2013!
 
E que venham outros festivais de música boa. Eles são caros, cansativos, mas valem muito como experiência musical e de diversão. E, nesse sentido, posso não entender de música, musicalmente falando, mas abraço a música da melhor forma que posso.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Cinema: Moonrise Kingdom

Engraçado que Moonrise Kingdom tenha sido um dos filmes mais elogiados de Wes Anderson. O longa realmente tem a cara do cineasta e parece ser uma miscelânea da sua obra, apresentando ao público o que o diretor sabe melhor fazer: misturar um certo formalismo com um toque de melancolia. Mas o novo trabalho de Anderson fica por aí. É tão fofo, cute, bonitinho que chega a doer, mas não evolui.

Na real, em “Moonrise Kingdom”, a impressão que fica é que o cineasta pegou tudo que já fez e jogou no liquidificador adicionando o filtro Earlybird do Instagram (sim, o mais vintage de todos, claro). Bonito de se ver, mas meio vazio de sentidos, o longa eleva o esmero estético de Anderson à milésima potência.
A fotografia pálida combina com o descontentamento e/ou conformismo dos personagens. A direção de arte é uma coisa de bonita e funciona como moldura para cenas que causam um belo impacto visual. E a movimentação de câmera detalhista acompanha com precisão e certo calculismo as peripécias de uma trama sobre um garoto e uma garota disfuncionais que decidem fugir juntos.

A grande questão do filme é que todo o formalismo e a estética calculada da produção vão de encontro à temática que versa sobre amores pueris e ingenuidade. A sensação que fica é que há algo sobrando na equação. E o resultado é lindo de se ver, mas de uma frieza sem tamanho.
O elenco cheio de nomes conhecidos jogados em papéis que não deixam nenhum espaço de desenvolvimento só reforça esse distanciamento. Bruce Willis, Edward Norton, Tilda Swinton, Frances McDormand, Bill Murray, Jason Schwartzman e Harvel Keitel estão ali mais para serem cools em um filme cool do que para outra coisa. Resta aos adolescentes segurarem a onda. Sorte que tanto Kara Hayward quanto Jared Gilman se saem muito bem e compram sem reservas a premissa do filme.

Já Wes Anderson se contenta em criar enquadramentos delicados e encher a narrativa de firulas que enchem os olhos. Mas é pouco para quem já demonstrou talento em um filme bem mais complexo, como “Os Excêntricos Tenenbauns”, e ousou até na animação, no gracioso “O Fantástico Sr. Raposo”. Avisem ao Anderson que apostar em ser só indie, hispter e melancólico é muito pouco para segurar um longa-metragem.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cinema: Dredd 3D

“Violence, I hate your violence!”. Esqueça aquele filme picareta dos nos 90 com Sylvester Stallone. Dredd 3D é a verdadeira adaptação do personagem dos quadrinhos para o cinema. Violenta sem pudor. Violentíssima sem ter vergonha disso. Quem é sensível ou reclama da violência excessiva do cinema atual vai sair um tanto chocado. E com razão. Sem grandes nomes no elenco, um orçamento relativamente baixo para uma produção com tal encenação e efeitos e sem pretensões a ser um grande blockbuster, o diretor Pete Travis aproveita a liberdade que tem em mãos e cria um filme tenso, sujo, violento, amoral e banhado em sangue.
 
Em um futuro distante, o mundo não é mais como o conhecemos, e a sociedade chutou o balde. Policiais atuam como investigadores, juízes, júri e executores e tentam manter a ordem diante de um caos generalizado e estilizado. Travis é muito eficiente na construção do universo que serve de cenário para uma trama reacionária e fascista onde “bandido bom, é bandido morto”. Não existe dualidade nessa ambientação distópica. Os bons tentam sobreviver como podem. Os maus são tão maus como só o cinema pode representar.
 
Travis acerta também ao não enrolar muito e apresentar sem muitos rodeios seu “herói” e a trama do filme. O Juiz Dredd tem como incumbência levar uma novata com poderes telepáticos para o meio das ruas para testar sua capacidade de resistência em meio ao perigo. Claro que tudo dá merda, e ele e a novata se vêem envolvidos em um jogo de gato e rato, presos em um prédio gigantesco e rodeado de gente que quer apenas arrancar a pele dos dois.
 
A partir daí, o que poderia ser um mero remake de “Duro de Matar” parte para cima do espectador sem pena. Balas, tiros e explosões criam uma tensão que nunca para e elevam a experiência de se assistir ao filme em uma tela grande e em alto e bom som. O 3D reforça tudo isso e deixa claro que o longa não está para brincadeira. Travis se reveza entre apresentar a violência do filme de forma crua e dar uma plasticidade a ela. Se a crueza dos tiros sendo disparados causa arrepios, a estetização da mesma deixa o vermelho mais colorido, mas sem poupar o público.
 
Entre a ideologia fascista e a violência exacerbada, o filme de Pete Travis cumpre seu papel. É tenso, preciso e quase envolvente em sua ambientação caótica. Uma adaptação digna e honesta de um quadrinho violento e controverso. No final das contas, o longa acaba sendo uma experiência ética, estética e quase sensorial. Não é pouco para uma produção que, para muitos, pode cair na vala das adaptações de “heróis” dos quadrinhos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Cinema: Ted

Ted é um belo cartão de visitas para Seth MacFarlane. Advindo da televisão, o rapaz estreia como diretor no cinema com um filme que apela na medida certa para o humor inteligente e o romance água com açúcar. De quebra, ainda traz referências e mais referências à cultura pop e uma trama que pode até não fugir do esquema hollywoodiano de final feliz, mas adota o convencional sem deixar de piscar o olho para o público.

Assim olhando de longe, “Ted” se enquadra muito bem na categoria das típicas comédias hollywoodianas sempre prontas a deixar uma lição de moral em meio a um cineminha quadrado e redondinho. “Ted” até cumpre esse papel, chegando ao final com tudo no lugar, reforçando a importância da amizade e mostrando que o amor, realmente, supera tudo. Mas é entre o começo que remete a um conto de fadas e o final bem caretinha que “Ted” conquista, seja pelo humor ligeiro, seja pelas citações ou mesmo a autoconsciência do roteiro.
Para melhorar ainda mais o negócio, MacFarlane não se contenta em deixar tudo a cargo do texto e dos atores e dirige com certa competência, apostando em recursos visuais bem pouco comuns a comédias despretensiosas. A edição é acelerada, as brincadeiras visuais com a série Flash Gordon são um delírio, e até uma cena de luta bem realista e violenta quebra a aparente convencionalidade estética do filme.

O resultado é uma produção que foge do politicamente correto sem ser agressiva ou gratuita e abraça a premissa surreal sem muitos questionamentos. John Bennett tem, sim, seu melhor amigo em um urso de pelúcia falante, e o filme e o mundo aceitam isso muito bem.  Só ajuda o fato de Mark Wahlberg ter a cara de pastel perfeita para interpretar o trintão com complexo de Peter Pan que tem como grande guia espiritual seu urso de pelúcia irresponsável e que vive chapado. Mila Kunis interpreta muito bem a garota ideal. E Seth MacFarlane acerta no tom debochado de Ted.
Entre uma bobagem aqui e outra acolá (Giovani Ribisi como o maluco obcecado por Ted ou mesmo a subtrama do chefe de Kunis dando em cima dela são bem dispensáveis), a produção evita que distrações ou clichês desviem a atenção do que realmente importa: cenas hilárias e humor debochado e sem vergonha. O longa dá lá uma caída no final para amarrar as pontas soltas e deixar claro a boa e velha lição moral, mas até chegar lá o público já foi conquistado e está pronto para sair do cinema e correr para a primeira loja de brinquedo comprar um Ted para chamar de seu. Eu quero o meu. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Cinema: Cosmópolis

Eu poderia escrever um texto decente sobre Cosmópolis e até colocar uma foto aqui em cima para ilustrar o post. Mas preguiça. E o filme não merece. Primeiro, devo dizer que não sou lá muito fã do trabalho de David Cronenberg. Desculpem-me, mas tenho que confessar isso. Também não li o livro que deu origem ao longa. Talvez seja isso, talvez não. Mas devo dizer que “Cosmópolis” é, de longe, o pior filme que vi no cinema esse ano. Pretensioso, chato pra caralho, verborrágico e inútil. Resumindo, temos um Robert Pattinson que passa o filme inteiro com cara de bunda dentro de uma limusine papeando com um mundo de gente chata. Um desfile de atores talentosos arrotando um discurso vazio e digno de teatro cabeça ruim (sim, estou sendo redundante). Texto fraco, realização frouxa. Dizem por aí que é experimental, que é vanguarda. Então tá!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Cinema: Procura-se um amigo para o fim do mundo


Procura-se um amigo para o fim do mundo parte não só de uma, mas de duas premissas bem pouco prováveis. A de que é possível fazer um filme ora cômico, ora romântico tendo como pano de fundo o fim do mundo e um cenário apocalíptico. E de que Steve Carell e Keira Knightley podem formar um belo casal. Aparentemente, um desastre anunciado, o longa consegue se sair bem em ambos os caminhos tortuosos que escolheu.
Quando a produção de Lorene Scafaria começa, descobrimos que a última tentativa de se evitar o choque entre um asteroide e a Terra fracassou, e o planeta está com os dias contatos. A partir dessa primeira cena, acompanhamos todas as típicas situações características do gênero apocalíptico embaladas em outra roupagem. As rebeliões populares, as notícias veiculadas via rádio ou televisão e a mudança de comportamento entre as pessoas deixam de lado o registro trágico e apostam em uma chave de comicidade e/ou melancolia.

Parte do charme do filme está na direção e no texto de Scafaria, que adota um tom quase de reverência aos personagens e às situações meio estapafúrdias criadas. Responsável pelo roteiro do indie Uma Noite de Amor e Música, Scafaria usa o humor e várias citações pop, principalmente a música, para cercar o longa de leveza, ainda que o cenário de fim de mundo não seja promissor.
É a delicadeza da roteirista e estreante na direção para caracterizar os personagens (Knightley, por exemplo, nunca abandona seus vinis) e conduzir cenas que poderia resultar violentas e/ou chocantes que transforma “Procura-se um amigo para o fim do mundo” em um filme quase ingênuo e muito esperançoso.

Entre personagens que assumem uma postura depressiva, choram ou mesmo se matam, quem ganha mais destaque são as pessoas que veem no fim que se aproxima uma chance de recomeçar ou pelo menos testar outros caminhos antes do final (discursos sobre as novas possibilidades do sexo ou jantares que terminam regados à heroína ganham ares quase utópicos e divertidos).
Junte-se a isso uma química perfeita entre Carell e Knightley e, bingo, temos uma produção despretensiosa que vai ganhando camadas e conquistando a cada nova cena. Ele repete muito bem o tipo que está acostumado a interpretar: um cara meio infeliz e solitário que sempre é colocado em situações meio embaraçosas. Ela deixa de lado as personagens sofredoras e se reveza entre a menina maluquete e meio perdida que conquista com o sorriso torto e as atitudes poucos convencionais. Os dois juntos formam um belo e improvável casal que descobre o romance em meio ao caos.

Ainda que o filme faça concessões, seja na facilidade como determinadas circunstâncias são contornadas, seja no inevitável pieguismo de algumas situações, ou mesmo nas redenções necessárias para se chegar ao desfecho, “Procura-se um amigo para o fim do mundo” cumpre bem mais do que inicialmente promete.
Esqueça a depressão e os tons cinzas de Melancolia, em “Procura-se um amigo... ”, o fim do mundo é bem mais colorido e divertido, sem deixar de lado um pouco de tristeza e algumas lágrimas nos olhos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Cinema: 360

O maior problema de 360 é o filme ser dirigido por Fernando Meirelles. Como não esperar mais de alguém que esteve à frente de produções como “Cidade de Deus”, “O Jardineiro Fiel” e mesmo a controversa adaptação de “Ensaio sobre a Cegueira”? Em “360”, ao contrário dos trabalhos anteriores do cineasta, Meirelles entrega um filme correto e sem impacto nenhum.

Seguindo a fórmula dos filmes mosaicos com tramas internacionais que eventualmente se interligam, o longa parte da premissa de que nossas decisões não afetam apenas nossas vidas, mas a das pessoas que nos cercam. A lógica é a mesma dos trabalhos do mexicano Alejandro González Iñárritu, mas sem a mesma carga emocional ou trágica que os longas deste carregam.

Por meio de uma narrativa estraçalhada, que vai e volta em diversas tramas, “360” se perde entre histórias que nada dizem. A premissa então afunda à medida que a produção não se conecta com o público. Temos o casal em crise no casamento, a brasileira cansada de ser traída pelo namorado fotógrafo, a prostituta que quer se dar bem na vida, um condenado lidando com a liberdade, o dentista e sua paixão platônica pela funcionária, o pai em busca da filha. E por aí vai. Como é comum nesse tipo de fórmula, algumas tramas se sobressaem frente a outras. Mas a falha não está aí, e sim na condução burocrática de Meireles, que não disfarça o esquematismo do roteiro.

A edição fluída e a fotografia esmerada, típica dos trabalhos de Meirelles, não conseguem esconder a narrativa frouxa e mesmo a frieza com que os personagens são tratados. Na verdade, mal podemos considerá-los personagens. O tratamento dado a eles é distante, e os atores (um belo elenco com Jude Law, Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Ben Foster, Maria Flor, Juliano Cazarré etc) estão corretos, mas não passam da superfície.

Nesse ponto, Alejandro González Iñárritu consegue ser mais feliz ao apostar em uma chave mais melodramática e que pede um posicionamento do espectador. Ou ama-se ou odeia-se seus filmes. Em “360”, Meirelles prefere uma abordagem mais covarde e fica em cima do muro. O resultado é um filme que começa e termina sem dizer a que veio.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cinema: Um Divã para Dois

 A princípio, Um Divã para Dois não é nada promissor. Quem se empolga hoje em dia com mais uma “dramédia” cujo diferencial é discorrer sobre o sexo na terceira idade? Certamente não eu! Mas como o filme tem a Meryl Streep e o Tommy Lee Jones, a gente dá uma chance. Em vão, porque “Um Divã para Dois” não tem nada demais e realmente não é promissor. É apenas mais uma “dramédia” convencional na multidão. Se não fosse pela honestidade e coragem dos dois atores, o filme seria um erro, na verdade.
 
Dirigido da forma mais convencional possível por David Frankel (que se saiu bem melhor em “O Diabo Veste Prada”), o longa traz uma estrutura narrativa repetitiva e bem genérica, daquelas cheias de montagem com músicas esquecíveis para acelerar a trama e dar a impressão de que algo está acontecendo. É quadrado até dizer chega, deixando bem claro que o cinema hollywoodiano também sabe fazer filmes com estrutura televisiva para a tela grande (então parem de reclamar somente do padrão Globo Filmes!): fotografia e edição qualquer coisa, closes e mais closes dos atores, ideologia de botequim e senso comum etc.
Deixando de lado questões cinematográficas, o filme é leve, bobinho, até bonitinho, mas extremamente careta e machista. Meryl Streep e Tommy Lee Jones formam um casal que tem um casamento duradouro, mas que está no estaleiro. Os dois perderam o interesse pelo sexo e um pelo outro. Isso fica claro logo na primeira cena para, logo em seguida, vermos o descontentamento da mulher estampado em seu rosto (clichê número 1: a mulher é sempre a descontente que resolve mudar a situação e salvar a relação). Daí para a terapia de casal em um balneário são só mais algumas cenas.
 
Estabelecido o conflito, os problemas do casal viram o foco do longa. Eles não trepam há anos, e o filme vira uma longa DR disfarçada de sessão de terapia para descobrirmos as razões disso (clichê número 2: o casamento deles é um fracasso, eles não conversam e não possuem nada em comum, mas tudo é simplificado pelo fato deles não mais transarem).
Muito blá-blá-blá depois, entre cenas de drama com baladas sem graça ao fundo e situações engraçadas dos exercícios de aproximação dos dois (a tentativa de blowjob no cinema é realmente impagável), o casal resolve suas diferentes ao som de “Why”, da Annie Lennox, da forma mais fácil, clichê e piegas imaginável, com direito a todo o elenco dançando na praia, feliz e saltitante no final. Mais previsível impossível. Mas vale pelos atores, que emprestam certa dignidade a papéis bem corriqueiros e simplistas.
 
Curiosidade: Hollywood sabe maltratar seus atores. Em 1996, Meryl Streep e Elisabeth Shue concorreram ao Oscar de melhor atriz por suas interpretações em “As Pontes de Madison” e “Despedida em Las Legas”, respectivamente. Agora, quase 20 anos depois, a linda e talentosa Shue vira coadjuvante de quinta em apenas uma cena, totalmente descartável, de “Um Divã para Dois”. A atriz merecia melhor sorte.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cinema: Três filmes, três atrizes

Em algum momento da história do cinema, Hollywood percebeu que, muitas vezes, o público ia ao cinema em busca de seus astros favoritos. Mais do que a trama, o diretor ou as qualidades artísticas, técnicas ou estéticas de um filme, o povo queria mesmo era ver o rostinho bonito do ator ou atriz favorito (a).

O tempo passou e muita coisa mudou. Hoje os astros ainda importam, mas em tempos de franquias, remakes, sequências, efeitos especiais e barulho, nem sempre o público está interessado nos atores. Pouco importa o nome por trás das armas e do terno de James Bond, da varinha de Harry Potter ou da máscara do Batman. O público vai aonde o marketing o levar. Na engrenagem hollywoodiana, rostos conhecidos ainda contam, mas não mais como antes.

Mesmo assim, um determinado tipo de filme ainda se apoia basicamente na força de seus astros e estrelas. Geralmente, são filmes que funcionam como um veículo para determinado nome brilhar e mostrar beleza, carisma e/ou talento. Em alguns casos, essas produções valem a pena e vão além de um mero trampolim para o ator. Em outros, esses longas só sobrevivem e se destacam graças ao nome de um astro envolvido.

Esse final de semana, graças a uma bela febre, assisti a três desses filmes que se ancoram no nome de alguém para sobreviver na multidão audiovisual. Um deles é bom, mas passou batido pelo grande público, mesmo tendo uma interpretação brilhante da atriz principal. As outras duas produções são um lixo e só ganharam destaque porque as atrizes foram indicadas ao Oscar.

JuliaTilda Swinton é a melhor atriz da atualidade. Basta ver filmes como “I am Love”, “Precisamos Falar sobre Kevin” e esse Julia para ter certeza disso. Sem muitos pudores, a atriz se despe de vaidades e escolhe a dedos seus papéis, sempre entregando uma interpretação comovente. Em “Julia”, a atriz faz uma mulher alcoólatra e sem rumo na vida que, em um ato desesperado, sequestra um garoto para conseguir algum dinheiro. O filme não foge muito do convencional e, depois de apresentar a personagem e estabelecer a trama, foca suas lentes na relação que se constrói entre Julia e a criança. O diretor Erick Zonca parece apaixonado demais por Julia/Tilda e alonga o filme ao máximo, mas ainda assim consegue estabelecer tensão e suspense, mesmo entregando o típico desfecho hollywoodiano de redenção. Pouco importa: o show é mesmo de Tilda Swinton, ora perdida e covarde, ora visceral e corajosa, mas sempre marcante.

A Dama de Ferro – A única razão de esse filme existir é a de dar mais uma indicação ao Oscar para Meryl Streep, uma atriz fantástica que se mete cada vez mais em roubadas para demonstrar sua fama de versátil. Aqui ela interpreta a líder política inglesa Margaret Tatcher e consegue mais uma vez os holofotes para si (ganhou vários prêmios, inclusive o tão sonhado terceiro Oscar, pela pesada caracterização que entrega ao público). O filme em si é lamentável. Cinematograficamente é uma nulidade, mais parecendo uma produção feita para TV, da época em que isso não era elogio. Narrado em forma de flashback, o longa é fragmentado demais e passa longe de ser um trabalho revelador e esclarecedor sobre a figura da Primeira-Ministra. Fugindo das polêmicas, A Dama de Ferro fica em cima do muro e transforma uma das personagens mais controversas do século XX em uma vovozinha senil. É vergonhoso. E a interpretação de Streep é apenas correta, extremamente técnica e nada, nada emocional.  

Albert NobbsGlenn Close não é mais uma estrela que atrai público aos cinemas há um bom tempo. Mas como esse filme é um projeto pessoal da atriz que levou anos para chegar às telas, o longa chamou certa atenção, e a atriz levou uma indicação ao Oscar para casa. Dirigido de forma apática e convencional por Rodrigo Garcia, diretor qualquer nota de filmes-mosaico como “Coisas que Eu Poderia Dizer Só de Olhar para Ela” e “Destinos Ligados”, Albert Nobbs é uma dessas típicas produções de época que muito promete e pouco entrega. O filme é tão sem graça quanto seu/sua protagonista é sem carisma. Glenn Close acerta na postura, olhar e entonação do garçom que na verdade é uma mulher (o trabalho corporal da atriz fica mais evidente na cena em que ela se veste como mulher e vai caminhar desengonçada na praia), mas erra ao transformar o personagem em uma pessoa chata e sem emoção. O trabalho preguiçoso de Garcia segue o mesmo caminho, e o filme naufraga ao não causar nenhum tipo impacto.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Cinema: Na Estrada

Não li o livro seminal de Jack Kerouac, “Na Estrada”, que serve de base para o mais novo filme do cineasta brasileiro Walter Salles. Então não posso falar nada sobre o livro, a influência que ele exerceu sobre toda uma geração ou mesmo se Salles se sai bem adaptando a obra literária. Mas eu posso falar sobre o filme em si e como o diretor parece não saber muito o que fazer com o material que tem nas mãos.

A princípio, Salles pisa em terreno conhecido, já que o cineasta é chegado em um road movie. De “Terra Estrangeira” a “Diários de Motocicleta”, o cinema de Salles tem um pé na estrada e seus personagens estão sempre em movimento. Mas o problema de Na Estrada é que Salles e seu conservadorismo não parecem entender a essência dos personagens, e o filme resulta frio e pueril.

Estamos falando de jovens que, na virada dos anos 40/50, resolvem sair pelas estradas dos Estados Unidos em busca de sonhos, drogas, música, bebidas e sexo, tudo sem muitas expectativas a não ser "curtir a vida adoidado". Nesse percurso, eles cruzam com tipos que mostram a diversidade de um país.
O que na teoria é transgressor e deveria ser energético, na tela resulta tedioso e distante. Os personagens principais, Sal, Dean e Marylou buscam algum sentido para suas inquietações viajando pelo país sem destino, mas não despertam nenhum tipo de envolvimento no espectador.

Salles representa a rebeldia dos personagens por meio de uma fotografia de cores quentes, de uma câmera tremida e cortes que tentam acompanhar o ritmo frenético do blues. Mas esquece de injetar paixão em uma narrativa deveras estilhaçada que pouco favorece ao desenvolvimento dos personagens e do próprio filme.
A culpa não é de Garrett Hedlund (Dean), o melhor em cena entregando uma interpretação carismática em um longa que carece de carisma. Kristen Stewart (Marylou) também dá conta do recado, mostrando um lado sensual e hipnótico ainda não explorado em sua carreira. Sam Ripley (Sal) talvez seja o elo mais fraco do trio, não dizendo como protagonista.

O trio é cercado por bons atores mal aproveitados em pequenas participações que, aparentemente, afetam o trio de alguma forma: Terrence Howard, Kirsten Dunst (quem se sai melhor até por ter mais tempo na tela), Alice Braga, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Amy Adams.
A produção é caprichada, bonitinha, até excessivamente limpinha se considerarmos que estamos falando de um filme sobre jovens rebeldes em busca de poesia para a vida. Talvez essa seja a grande decepção do longa. A essência dos personagens parece ser uma, o que é mostrado na tela é outra coisa.

No final das contas, os personagens viajam, viajam, viajam, mas não chegam a lugar algum. Se Truman Capote uma vez disse que “Na Estrada”, o livro, não era literatura e sim datilografia, me pergunto o que um Godard diria de “Na Estrada”, o filme. Eu digo que esperava mais, bem mais.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cinema: Para Roma com Amor

  
Reza a lenda de que mais vale um filme ruim do Woody Allen na mão do que um bom de outro diretor voando. Uma bobagem tão disseminada e preguiçosa como alguns longas do próprio diretor, um dos mais prolíficos cineastas norte-americanos. Entra ano e sai ano, o rapaz lança um filme, então é óbvio que alguns destes sejam mais fracos ou esquecíveis do que outros. Para cada pérola ali, há muita porqueira acolá.

Para Roma com Amor pode não ser tão ruim quanto “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (o último filme todo errado do diretor), mas o diretor quase chega lá. Se escondendo por trás das belas imagens de Roma e na própria fórmula de filme-cartão postal que o diretor estabeleceu em “Vicky Cristina Barcelona” e “Meia-Noite em Paris”, Allen tenta aqui emular Robert Altman com um mosaico que é equivocado em partes e chato no todo.
São três ou quatro histórias que nunca se conectam, mas que repetem tudo o que Allen já fez. Para alguns, isso pode ser o suprassumo do genial e “olha como ele é bom”. Mas para mim é entediante. Ainda mais porque, aqui, vemos o diretor interpretando a si mesmo pela milionésima vez. Quando o filme é bom, a gente releva. Em “Para Roma com Amor”, é mais um defeito da produção.

Entre uma história e outra, temos direito a muitos clichês sobre Roma e o povo italiano, Penélope Cruz e Judy Davis se repetindo, uma crítica óbvia e pobre sobre a mídia esticada à exaustão, Ellen Page pagando (sem convencer) de garotinha sexy, muito blablablá sobre arte e psicanálise e algumas piadas realmente interessantes para tentar salvar o todo (a do tenor que só canta bem debaixo do chuveiro parece ser a mais acertada, ainda que exagerada). Tudo em vão, claro. Além de deveras longo, “Para Roma com Amor” se torna ainda mais irritante graças à patrulha “Não falem mal de Woody Allen”. Sono.
Uma das coisas que mais me incomodou durante a projeção é que as três ou quatro histórias se passam em tempos cronológicos diferentes. Claro que eu entendo que a continuidade temporal não é uma obrigatoriedade, mas eu fiquei com a impressão de que o editor não tava muito empolgado e resolveu “inovar”. Passei a sessão do filme inteira com vontade de mandar parar a projeção para devolverem a “obra” para sala de montagem.  Mas enfim, é Woody Allen, né, então ele pode. E essa “falha” está longe de ser a única de “Para Roma com Amor”.

Na linha "viagens pela Europa", "Match Point" continua imbatível, seguido por "Vicky Cristina Barcelona", "Meia-Noite em Paris" e o resto. Que venha então o próximo país da rota turística do diretor. Só espero que desta vez ele esteja mais inspirado. "Para Roma com Amor" é para aqueles que se contentam com pouco.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Cinema: Alien, uma revisão


Alien é a minha série cinematográfica predileta e pronto. Motivos para isso não faltam. Sou fã de filmes de ficção científica e de terror, e a série passeia muito bem pelos dois gêneros. O fato de cada produção da série ser assinada por um diretor visionário me empolga, ainda mais porque os cineastas são bons e agregam uma visão bem particular para o episódio que dirigiram. E Sigourney Weaver é uma deusa do cinema, mesmo ultimamente ela estando relegada a um bando de longas ruins e/ou esquecíveis (acompanhar o amadurecimento da atriz, física e emocionalmente, é uma das melhores coisas de rever a série em ritmo de maratona).

Com a estreia de Prometheus, volta de Ridley Scott ao gênero ficção científica e ao universo Alien (leia minha resenha aqui), resolvi rever os quatro filmes da série, esclarecendo que ignoro aqui os dois Alien vs Predador, que não vi e nem sei se verei um dia.
Alien, O 8º PassageiroRidley Scott dá o pontapé inicial da série e cria um filme tenso que mistura ficção científica e terror com louvor e dita as regras para todo e qualquer produção que traga um monstro em um ambiente fechado como elemento da história. Scott começa o longa sem pressa e estabelece a mítica que se estenderia por mais três capítulos da série. Criando um clima, seja por meio da fotografia e direção de arte precisa, seja pelo ritmo e tensão, o diretor demora a mostrar o alien e confunde o espectador ao não deixar claro quem é o herói/heroína do filme. O resultado é um belo exercício de suspense que, de certa forma, redefine o papel das mulheres no cinema. A tenente Ripley, interpretada com força por Sigourney Weaver, entrou diretamente no imaginário cinematográfico de toda uma geração de cinéfilos.

Alien, O Resgate – Depois do sucesso de "O Exterminador do Futuro", James Cameron recebe a tarefa de dar continuidade ao longa de 1979. A tensão do primeiro filme é trocada por um ritmo mais de ação, e o suspense de um monstro dentro de uma nave dá lugar a uma centena de aliens dominando um planeta, o que de certa forma banaliza a figura da criatura. O começo do filme é um pouco arrastado, e a equipe militar sempre com uma mulher meio macho virou quase uma marca registrada de Cameron. O filme tem cara de produção B, mas Sigourney Weaver revive Ripley de forma mais carismática (recebeu, inclusive, uma indicação ao Oscar pelo filme, coisa rara para uma atriz interpretando uma heroína em um longa de ação). Mesmo tendo envelhecido (muito mais do que o filme dirigido por Scott), "Alien, O Resgate" é uma continuação louvável, mesmo repetindo a estrutura narrativa do anterior. Não alcançou o status clássico do primeiro, mas nem precisava.
Alien 3 – Pela primeira vez um capítulo da série é assumido por um estreante no cinema. Tá certo que o cara, nada mais nada menos do que David Fincher (um dos principais cineastas da atualidade), destacou-se no mundo do videoclipe (“Express Yourself” e “Vogue”, da Madonna, e “Freedom 90”, do George Michael), mas videoclipe é videoclipe e cinema é cinema. Em meio a uma produção caótica, o longa faz uma volta ao passado e fica no meio termo entre o terror do primeiro e a ação do segundo. Mais uma vez temos apenas um monstro, e a atmosfera é bem mais importante do que a lógica narrativa (o fato de Ripley estar infectada nunca é explicado a contento, por exemplo). Entre os erros do diretor está o fato do alien ser em CGI, o que o torna bem menos assustador. O maior acerto é o final do longa, o mais emocionante da série.

Alien, A Ressureição – O filme mais caótico da série. Depois da morte da protagonista do final do terceiro (se você acha que isso é um spoiler, desculpa caríssimo, mas você nem merece viver), Ripley volta como um clone nessa continuação. A premissa do longa é bem interessante, mas seu desenvolvimento não. O francês Jean-Pierre Jeunet acerta na estética da produção, principalmente na forma clara e límpida como vemos os aliens, mas a narrativa é ligeira e sem nexo. Sigourney Weaver está bem a vontade voltando ao universo que a consagrou, e a relação dela com a robô interpretada por Winona Ryder é a melhor coisa do longa. É o capítulo da série com final mais esperançoso, mas a série merecia um desfecho melhor.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Brancas de Neve: Julia Roberts X Charlize Theron

 
Só mesmo Hollywood para fazer dois filmes sobre a Branca de Neve e ambos serem uma bomba. Das duas uma: ou a personagem é uma chata mesmo (e as duas atrizes que interpretam a talzinha nos dois longas não ajudam), ou Hollywood é de uma incompetência tamanha. Apesar da temática e ruindade em comum, os dois filmes não poderiam ser mais diferentes. Um aposta em um tom mais cômico e farsesco, o outro apela para uma paleta mais sombria e um pé na ação. Ambos fracassam em sua proposta.

Espelho, Espelho Meu estreou primeiro com um apelo mais infantil e naufragou. Razões para isso não faltam. O filme é dirigido pelo incompetente Tarsem, que dirigiu o videoclipe Losing My Religion, do REM, lá no início dos anos 1990, e depois só enfiou o pé na jaca (“A Cela”, “Anjos Caídos” e “Imortais”, cada um pior do que outro). O filme é protagonizado pela chata e sem sal Lily Collins, filha do Phil Collins (ou seja, a falta de carisma é de família). E o filme tem uma trama tão sem graça e imbecil que dá nos nervos.

A produção até tenta adotar um humor autoconsciente, mas em vão, já que ele fica perdido entre um roteiro de encomenda e uma produção exagerada e equivocada (os figurinos e a direção de arte são de um mau gosto que Meu Deus!). Nem os exageros de Julia Roberts como a rainha má e o bonitinho Armie Hammer sem camisa (os únicos que parecem estar se divertido) compensam. O final a la Bollywood é de chorar de constrangimento e enterra o filme de vez.

Branca de Neve e o Caçador segue outro caminho, mas o resultado é o mesmo: a nulidade cinematográfica. Quer ser sombrio, mas aposta mais na fotografia do que na narrativa para chegar a esse objetivo. Quer ser esteticamente relevante, mas tirando um figurino da rainha má aqui e uma cena melhor elaborada ali, não passa de mais uma produção ok de Hollywood.

Dirigido por um estreante que não lembro o nome, nem vou procurar no Google/IMDB, o filme não tem ritmo ou clímax, mesmo querendo ser uma coisa “O Senhor dos Anéis”. Ou seja, tá errado. Outro erro: acreditar na tábua da Kristen Stewart para criar empatia no público. E Charlize Theron está realmente linda, mas exagera na voz empostada e pausada da rainha. A atriz é, inclusive, meio esquecida no meio do filme, abrindo espaço para a fuga da Branca de Neve junto com o caçador beberrão (o loirão alto trocando o martelo e os figurinos do Thor por uma espada e armadura, mas fazendo as mesmas caras e bocas) e os anões mais chatos da galáxia (toda a cena da floresta coloridinha é qualquer coisa de ruim).

Na disputa entre a rainha má e engraçadinha de Julia Roberts e a rainha má e psicótica de Charlize Theron, quem sai perdendo é o público. Ou seja, cerveja. Fiquem mesmo com o desenho da Disney (produzido em 1937 e o primeiro longa-metragem animado, by the way) que é melhor para todo mundo.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cinema: Sete Dias com Marilyn

O maior problema de Sete Dias com Marilyn é ser vendido como um filme “sobre” Marilyn Monroe. E como não esperar algo arrebatador de um filme sobre um dos maiores ícones do mundo? Aí é que está a questão. Além de não ser sobre a atriz, a produção do desconhecido Simon Curtis não tem nada de arrebatadora. É um longa genérico e que passa longe de qualquer ousadia.

O filme não é uma biografia da atriz, e sim retrata o período de filmagens de O Príncipe Encantando, quando Marilyn foi a Londres trabalhar sob a direção do renomado Sir. Laurence Olivier (um Kenneth Branagh desprovido de vaidades). Pincelando os conflitos entre a atriz e o ator/diretor, o longa se concentra na paixão e relação entre a atriz e um jovem britânico (um simpático Eddie Redmayne, o verdadeiro protagonista do longa) que participava da produção e desenvolveu uma paixão por ela.

A favor do trabalho de Curtis, temos um longa leve e fácil de assistir. Curtis dirige no piloto automático, mas acerta ao direcionar suas lentes para a interpretação carismática de Michelle Williams, que carrega o filme praticamente nas costas. Cercada por uma legião de bons atores (Julia Ormond, Toby Jones, Judi Dench, Dominic Cooper etc), Williams se sobressai ao criar uma interpretação cativante de um mito perdido entre uma imagem sexy e frágil e uma conduta autodestrutiva.

Toda vez que Williams dá as caras, o filme ganha peso e graça. Michelle Williams é a razão de ser da produção (basta ver essa cena para comprovar - e eu amo o Youtube). É a atriz que dá sentido à trama e empresta alguma luz a um longa desprovido de impacto, meio confuso entre um tom de comédia romântica e um verniz mais dramático. Pelo menos temos um filme charmoso e dominado pela presença marcante de Michelle Williams, uma atriz cada vez mais interessante.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Cinema: Os Vingadores

Em cerca de dez anos, os filmes de super-heróis deixaram de ser uma aposta arriscada em Hollywood para virarem arroz de festa. Como resultado dessa transformação do gênero, uma avalanche anual de filmes e mais filmes que costuma sempre se apoiar na mesma fórmula, desgastando a coisa toda. Hoje, para cada “X-Men: Primeira Classe” ou “Batman – O Cavaleiro das Trevas” existe uma penca de “O Motoqueiro Fantasma” ou “Lanterna Verde”.
  
O aguardadíssimo (leia e pense em uma entonação bem exagerada) Os Vingadores não é uma coisa nem outra, mas é um belo filme. Longe do desastre que poderia ser (reunir vários personagens conhecidos em apenas um único longa não é tarefa fácil, convenhamos), a produção é uma mostra de que o gênero “adaptação de super-heróis de HQs” ainda pode dar caldo.
Crítica e fãs têm “culpado” o sucesso da empreitada (foram anos de desenvolvimento do projeto e alguns filmes que serviram como introdução à produção) ao diretor Joss Whedon, que cria uma obra coesa ao misturar heróis, ação, drama e todo um imaginário do público.

Com um elenco de peso em mãos (Robert Donwey Jr., Scarlett Johansson, Chris Evans, Mark Ruffalo, Jeremy Renner, entre muitos outros), o cineasta, mais conhecido por dirigir episódios de séries de TV (de Buffy a Glee), abre espaço para todo mundo brilhar e costura a trama com uma edição matadora que joga o público dentro da história sem muito esforço.
Mas, se por um lado, Whedon entrega um trabalho competente, por outro, não deixa de cometer deslizes. Um deles são os próprios vilões do longa (repetir o mesmo vilão de Thor é de uma preguiça sem tamanho). O caos imagético do clímax também compromete, principalmente por adotar uma violência de produção da Disney. 

Com toda a destruição que acontece na batalha final, não vemos uma morte, um pingo de sangue. Depois do realismo proporcionado por Batman – O Cavaleiro das Trevas, o fato de “Os Vingadores” ser tão limpinho incomoda (os três minutos do trailer novo de The Dark Knight Rises é muito mais tenso e violento do que as duas horas e meia da produção da Marvel).

Mas isso é apenas um detalhe. "Os Vingadores" é um filme bonito de se ver. Seja como entretenimento escapista, seja como objeto de fetiche para nerds, "Os Vingadores" abraça uma mitologia e a trata com respeito. Ok que o filme não é nenhum X-Men 2. Mas aí já seria pedir demais.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cinema: À Toda Prova

Steven Soderbergh chuta o pau da barraca nesse À Toda Prova, longa de ação descerebrado que tem como mérito maior ser protagonizado por uma lutadora de MMA (não me perguntem o que é isso, porque eu não sei!), Gina Carano, e trazer um bando de atores fazendo pontas, ou sendo espancados, melhor dizendo. A história, um tanto confusa, gira em torno da boa e velha traição, com direito à espionagem, mortes e viagens pelo mundo afora.

É um filme de ação com toques de produção de espionagem envernizado com a grife Soderbergh de ser. Ou seja, fotografia em tons amarelados (desde “Traffic” que o moço insiste na mesma paleta de cores), rostos conhecidos e uma edição engraçadinha cheia de firulas. Em resumo: muito estofo para pouca coisa.
A trama gira em torno de Mallory Kane (Carano), espiã que é traída pelos chefes em meio a uma missão e tem que provar sua inocência. Nada mais do que óbvio. Para disfarçar a obviedade, Soderbergh estraga tudo e vai contando a história de forma não linear, o que só atrapalha mais ainda a brincadeira. Ok, talvez, as duas cervejas que tomei antes da sessão não tenham ajudado, mas saí com a impressão de que o longa seria bem melhor se fosse contado de forma convencional, sem porra de flashbacks e vai e voltas no tempo.
Entre sopapos, pontapés, alguns tiros e explosões, Carano se saiu muito bem na parte física da coisa toda, mas não convence como atriz, sempre com uma cara emburrada nada carismática. O elenco masculino é interessante, mas só serve de escada à “atriz” e vai morrendo ou sendo descartado no decorrer da produção (Michael Douglas, Ewan McGregor, Antonio Banderas e os garotos da vez Michael Fassbender e Channing Tatum dão o ar ou os bíceps de sua graça).
O resultado é um filme frouxo que só se sustenta pela curiosidade de ver Soderbergh desbravando mais um gênero (o rapaz já fez de tudo: drama, filme polêmico sobre sexo, longa de doença catástrofe,produção kafkaniana, filme de assalto, veículo para Julia Roberts ganhar Oscar,produção experimental, ficção científica, cinebiografia de líder político, fracasso dirigido em preto e branco e mais uma porrada de fime - gente, como esse homem trabalha!). No caso de “À Toda Prova”, menos seria mais, e Soderbergh é o principal defeito do longa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Há dois anos...

... eu desembarcava em São Paulo com algumas malas e sonhos. Mais do que sonhos, na verdade, eu buscava voltar a sentir sensações que tinha sentido antes ao visitar a cidade e que não mais sentia na minha cidade de origem, Fortaleza (que nem minha cidade de origem é, mas foi onde passei a maior parte da minha vida!). A sensação de vivenciar uma vida mais cultural que sempre tanto me agradou. A sensação de pertencimento ao andar esbarrando em um monte de gente pelas ruas cheias de uma das maiores metrópoles do mundo. A sensação de crença de estar mais próximo de pessoas que levam um estilo de vida mais parecido com o meu. No meio do recheio de todas essas vontades clichês, a maior de todas: fugir de mim mesmo ao achar que, mudando de cidade, mudaria por tabela meu modo meio torto de ver o mundo e encarar as coisas.
  
Dois anos depois, já voltei a viver inúmeras vezes a sensação que senti no belo show do Radiohead, na Chácara do Jockey, lá em 2009, quando me dei conta que, realmente, talvez eu fosse mais feliz em São Paulo do que em qualquer outro lugar (e foi voltando no avião, ao som de “Reckoner” e “Weird Fishes/Arpeggi”, que caiu a ficha de que era hora de realmente vir para Sampa; cerca de um ano depois, cá estava eu). Dois anos depois ainda me assusto ao fazer uma baldeação na Sé ou nas estações Consolação e Paulista e me deparar com um mar de gente que parece não ter fim. Dois anos depois, efetivamente, conheci algumas pessoas bacanas e que levam, sim, um estilo de vida mais próximo do meu. Infelizmente, depois de dois anos, ainda não consegui fugir de mim mesmo e continuo pensando meio torto e encarando as coisas da forma mais complicada possível. Culpa minha, não de São Paulo!
Hoje, exatamente hoje, estou na dúvida se dois anos é pouco tempo, ou se muito tempo já passou. Nesse pouco ou muito tempo, descobri, claro, que a São Paulo das visitas é bem diferente da São Paulo do dia a dia. Hoje, a cidade, antes confusa e que me deixava com receio, já tem uma lógica geográfica na minha cabeça, e isso me deixa extramete feliz, ainda que eu circule bem pouco por várias regiões dela. Hoje, a Metrópole, antes contemporânea e moderna, ganhou ares de cidade conservadora e reacionária que, às vezes, assusta.
Mas a questão é que, com pouco ou muito tempo, a impressão é que já fiz e vivi um monte de coisas por aqui. E o melhor, ainda tenho a impressão/esperança que tem muita, muita coisa a ser feita e vivida. Acho que é isso que mais me agrada atualmente em São Paulo. O emprego bacana não veio e, hoje, trabalho porque tenho que trabalhar e pagar contas. Aquela pessoa legal também não deu as caras, mas o sexo fácil em São Paulo serve como tapa buraco para os vários vazios existenciais. O dinheiro também não veio. Pelo contrário, ele foi embora, porque São Paulo é muito, muito cara. Mas tudo bem, porque, para o bem ou para o mal, São Paulo sempre deixa as portas abertas para possibilidades.
E, talvez, essa tenha sido a grande razão deu ter deixado tudo para trás (família, amigos, empregos, conforto) em Fortaleza e vindo para cá. Fortaleza já deu o que tinha que dar (boas coisas, é verdade), mas fechou às portas para as possibilidades que eu estava/estou/estarei almejando sempre.
Entre shows internacionais, festivais de música, mostras de cinema, exposições bacanas, conversas banais em bares da vida, noites dançantes na pista do Netão, sexos casuais, freelas e empregos, o que mais me orgulha é saber que fiz tudo isso enquanto “cidadão paulistano”, morando e vivendo nessa cidade que pode ser muito, muito cão (Qualquer um pode fazer isso em um final de semana em São Paulo, na verdade. Vários amigos de Fortaleza, vira e mexe, fazem. Mas, desculpem-me, morando aqui, com CEP fixo, o gostinho é diferente).
Para quem com mais de 30 anos, já deixando a juventude para trás e sem muito ânimo para riscos, chegou aqui sem eira nem beira, sem lenço e sem documento, sem nada realmente concreto em mãos, a não ser sonhos e possibilidades, morrendo de medo de fracassar, ficar sem grana e ter que voltar com o rabinho entre as pernas, é muita coisa.  
Em pleno inferno astral e ouvindo Sigur Rós (lindo como sempre) como trilha, não sei se São Paulo será meu destino final, mas é hora de assumir que minha decisão de vir para cá não foi um erro e deixar de pensar nas coisas que ficaram para trás. É hora de, finalmente, realizar que aqui é onde eu moro, aqui é onde eu trabalho e aqui é, exatamente, onde eu quero que outras coisas boas aconteçam.
PS: Mil perdões pelo texto piegas e confuso, cheio de “muitos” e palavras repetidas. Em breve, voltaremos a programação normal de textos sobre coisas interessantes: cinema, música, seriados etc. Enquanto não escrevo nada novo aqui, comecei a colaborar com o portal Umbigo das Coisas e já tem dois textos meus lá: Jovens AdultosBeleza Adormecida.
PS1: O Pensamentos FabioFreireanos, alcunha dada por uma amiga, nasceu logo quando vim para São Paulo. Ele nunca foi, nem nunca será, uma obrigação ou algo que eu realmente leve a sério. Mas, enfim, ele é um bom fruto da minha vida em Sampa.