quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Cinema: Carrie, a Estranha

Apesar de hoje em dia ser muito comum se falar da falta de criatividade em Hollywood e da atual mania de remakes, as refilmagens sempre fizeram parte da lógica do cinema desde quando ele começou a ser visto como indústria. Para o bem e para o mal, os remakes existem e estão aí desde sempre. Alguns bons, outros totalmente dispensáveis.

Infelizmente, a refilmagem de Carrie, A Estranha faz parte da segunda categoria. A nova releitura hollywoodiana do filme lançando em 1976 é vergonhosa, constrangimento em forma de cinema. Se o longa original praticamente lançou as carreiras de Sissy Spacek e do diretor Brian De Palma e colocou as obras do escritor Stephen King na rota das adaptações cinematográficas, a produção de Kimberly Peirce passa batida e vira mais um terror genérico, desses que não deixa nenhuma marca.

Extremamente mal dirigido e sem nenhuma sutileza, o que de certa forma é surpreendente (Peirce tem no currículo o ótimo “Meninos não Choram”), a nova versão de Carrie, A Estranha é um filme sem tensão ou nenhum impacto. A história é a mesma: menina estranha sofre bullying no colégio e tudo termina em tragédia. Nenhuma das alterações propostas pela nova versão acrescenta muito à mitologia construída pelo original de 1976. Assistimos ao nascimento de Carrie, sua mãe se autoflagela e é isso.

Qualquer boa intenção se perde diante de uma edição que torna tudo extremamente esquemático e da opção modernosa de tentar criar tensão ou terror com o simples aumento da trilha sonora. Os efeitos especiais atuais também não ajudam e criam cenas que, ao invés de aterrorizantes, são recebidas com risos constrangidos. O filme, aliás, é uma grande comédia de erros involuntária. Nem a cena do baile consegue criar algum clímax e dar algum sentido à produção.

Como tudo que é ruim pode ficar ainda pior, o elenco termina de cagar tudo. Apesar de boas atrizes, Chlöe Grace Moretz e Julianne Moore simplesmente não encontram o tom. A primeira parece extremamente caricata e sua interpretação é digna de protagonista da “Malhação”, passando léguas da atuação icônica de Sissy Spacek. Já Moore perde a chance de se transformar em uma grande vilã e entrega uma atuação apática que em nada lembra a fúria mostrada por Piper Laurie no filme original.

Não sei até que ponto o novo "Carrie, a Estranha" funciona para quem não conhece o original (provavelmente, não funciona também). Mas na comparação, o longa de 2013 vai para o saco de lixo junto com a continuação de 1999 e a versão televisiva de 2002. Fica a lição: leave Carrie alone!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cinema: Pílulas


Capitão Phillips - Paul Greengrass não brinca em serviço e é responsável pelos filmes mais tensos dos anos 2000 (os dois melhores exemplares da franquia Bourne, "Voo United 93"). Capitão Phillips segue a fórmula estabelecida pelo próprio diretor, cheio de movimentos de câmara rápidos, cortes secos e uma linguagem que tenta emular a documental para criar tensão e mostrar urgência. O filme narra um episódio verídico envolvendo pirataria contemporânea em alto mar e um Tom Hanks em seu melhor papel em muito tempo. É graças à atuação do ator que o filme ganha um verniz mais emocional e humano e vai além de uma mera produção com toques de ação. O final é de partir o coração e saí do cinema querendo dar um abraço amigo no ator.

À procura do amor – Apesar de usar o ser humano como maior fonte de inspiração para suas histórias, é cada vez mais raro ver no cinema personagens que pareçam reais. As fórmulas e clichês propagados pela sétima arte nem sempre abrem espaço para a credibilidade, e o que vemos são personagens bidimensionais e maniqueístas criados como joguetes para que roteiros funcionem. Essa comédia romântica vai de encontro a essa proposta e deixa que seus personagens, reais e cativantes, prevaleçam e tomem conta da tela. Partindo de uma premissa bem interessante (como a percepção do outro acaba influenciando nossa própria percepção), a diretora Nicole Holofcener deixa que Julia Louis-Dreyfus e James Gandolfini (em seu último papel no cinema) engulam o roteiro e façam os olhos brilharem e o coração da plateia bater mais forte em um filme sensível e honesto.

Um estranho no lago – Há tempos um filme não me incomodava tanto. Levantando uma série de questões que permeiam o universo homossexual, o longa joga na cara do espectador temas como morte e amor próprio. Desnudando física e psicologicamente os personagens, o filme de Alain Guiraudie foca suas lentes nos corpos e atitudes de um grupo de homens que vai pegar sol e caçar sexo nas redondezas de um lago durante o verão. Ousada e forte, a produção é econômica (toda a trama se passa ao redor do lago), não oferece respostas e deixa um gosto amargo na boca do público.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cinema: Blue Jasmine

Woody Allen sempre foi reconhecido por ser um grande diretor de atores, seus filmes geralmente trazendo interpretações memoráveis e chamando a atenção de prêmios para atuações específicas. Mas nunca um filme do cineasta foi tão centrado em uma interpretação quanto Blue Jasmine, longa que tem como alma uma Cate Blanchett ensandecida que rouba todas as atenções para si. Sem ela, o novo trabalho de Allen perderia muito do charme e seria apenas mais um na extensa filmografia do diretor.
 
Blanchett interpreta Jasmine, uma ex-ricaça que perdeu tudo quando o marido (Alec Baldwin) é preso por sonegar impostos ou coisa parecida. Com uma mão na frente e outra atrás, Jasmine se muda de Nova York para São Francisco para morar com a irmã pobretona (Sally Hawkins). É a partir daí que o filme centra o foco na dificuldade que Jasmine tem para se adaptar a esse novo mundo.
O roteiro e o texto são certeiros, os diálogos são cheio de farpas, e a edição acerta ao contrapor o atual estágio de Jasmine com cenas da época em que ela vivia na riqueza. Mas, por mais que Allen esteja pisando em terreno firme e acerte em suas escolhas, o filme é mesmo de Blanchett, que suga tudo a sua volta e deixa pouco espaço para prestarmos atenção em outra coisa além dela própria.
 
Atriz de primeira grandeza que estava perdida em produções que pouca usavam seu talento (“Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, “Robin Hood”, “Hanna” etc), Blanchett encontra em Jasmine o papel perfeito para demonstrar versatilidade. Jasmine é quase uma caricatura de uma mulher chique e elegante que sucumbe quando a vida foge ao seu controle. Blanchett cria essa personagem com compaixão, de modo às vezes quase histriônico, mas conseguindo causar empatia no público, coisa rara em se tratando de uma figura que não mede esforços para ser detestável.
O resto do elenco está no lugar fazendo mais do mesmo (Baldwin, Hawkins, Peter Sarsgaard, Bobby Cannavale), mas todos são engolidos pelo furacão Cate Blanchett. O resultado da coisa toda é um filme divertido, um tanto triste e melancólico. Pode não ser Allen no seu melhor (Match Point ainda é o grande filme da nova safra do diretor), mas, diante do anterior “Para Roma, Com Amor”, é um avanço e tanto. Grande parte da “culpa” reside nos talentosos ombros de Blanchett.
 
O Turista – Por curiosidade mórbida, assisti ao O Turista esse fim de semana, equívoco estrelado por Johnny Depp e Angelina Jolie em seus piores papéis em muito tempo. O filme é um grande erro. Não existe direção, o roteiro foi escrito por algum estagiário e a química entre Depp e Jolie é zero. Os cenários, as paisagens e as roupas de Jolie são belíssimas, mas a ação é mal feita, não existe tensão, o clímax é uma piada e chega a ser vergonhoso uma bomba desse porte ter sido indicada ao Globo de Ouro de melhor filme, ator e atriz, ambos na categoria comédia, apesar de a produção não ter um pingo de senso humor.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Música: Lady Gaga - Artpop

Vamos falar sobre Gaga, Lady Gaga? A verdade é que a moça surgiu como um furacão lá em 2008 com o ótimo e divertido The Fame, um álbum cheio de hits descompromissados para se jogar na pista e cantar junto. De lá pra cá, muito mudou. Gaga deixou de ser apenas mais uma cantora pop na multidão para virar um dos nomes mais importantes da música atual.

A merda começou a subir na cabeça da artista, e sua música foi perdendo espaço para ela própria. Gaga caiu no erro (levando todos seus fãs juntos) de achar que era relevante demais, importante demais, superior demais, deixando de lado a irreverência gostosa e moleca do álbum de estreia para apostar em declarações polêmicas, performances exageradas e indumentária de gosto duvidoso. O resultado foi o lastimável Born This Way, um disco inchado e pretensioso que só causa bocejos e deixou claro que a artista está, às vezes, muito mais interessada no marketing que a cerca do que propriamente na música que faz.

Se ela aprendeu algo com o fracasso artístico de Born This Way (sim, o álbum pode ter vendido os tubos e ter ganhado todos esses prêmios comprados da indústria fonográfica, mas é um fracasso se comparado à repercussão positiva do primeiro), difícil dizer. Ela ainda fala um monte de merdas nada a ver, se veste de forma errada (Róisín Murphy, pra citar só uma, também exagera na indumentária, mas com muita mais propriedade do que Gaga) e faz performances gratuitas sem muita consistência (performance no espaço, really, Gaga?!), mas, pelo menos, Artpop mostra um pouco da diversão de outrora.

O terceiro e meio álbum (contando o The Fame Monster) da cantora/artista/performer/atriz é bem superior ao anterior e mostra um lampejo do que Gaga poderia ser se deixasse de lado a polêmica pela polêmica e se focasse mais em ser uma simples cantora pop. Não que Artpop seja perfeito. Longe disso. Em tempos de Kanye West e Justin Timberlake, é vergonhoso que uma artista do calibre de Gaga lance um álbum tão mal produzido e cheio de batidas genéricas dos infernos dignas de boate gay ruim. Artpop não tem um pingo de sofisticação, é bruto e mal acabado, quase amador.

Mas quem se importa? Não os fãs da cantora que louvam qualquer bobagem que ela fala ou faz. Mas ainda diante dessa produção pobre, o álbum tem seu lado divertido. Esqueça a batida drag queen do péssimo primeiro single (“Applause”) ou de “Swine” e concentre-se no que o álbum tem de bom: “Artpop” é a melhor, de longe a que mostra todo o potencial que a cantora costuma desperdiçar fingindo ser original; “Donatella” é ótima e cheia de frases perfeitas para se jogar na pista depois de um shot de tequila (“I am so fab/ Check out / I’m blonde/ I’m skinny/ I’m rich/ And I’m a little bit of a bitch”); “Dope” é aquela baladinha que não pode faltar em álbum de diva, mas é bem honesta, não se pode negar; “Fashion” e “G.U.Y" são faixas pop gostosinhas inofensivas; “Mary Jane Holland” é uma surpresa, cheia de personalidade).

Gaga tenta ser Christina Aguilera aqui (os gritos de "Do What U Want" são um tanto constrangedores), soa como uma cantora pop qualquer dos anos 1990 ali ("Manicure", "Gypsy"), mas o saldo é positivo, menos pretensioso e mais espontâneo. No frigir dos ovos, Artpop não apresenta nada de novo. O álbum não vai mudar a música pop muito menos o mundo (nem precisa, apesar da própria Gaga sempre insistir que quer deixar sua marca), mas é um trabalho que mostra uma artista a disposta a se divertir mais com seus erros. Fazendo a comparação com Born This Way, é quase uma evolução.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cinema: O Conselheiro do Crime

Ridley Scott não é qualquer diretor. O cara tem em seu currículo filmes como “Alien, o Oitavo Passageiro”, “Blade Runner”, “Thelma & Louise”, “Gladiador” e “Falcão Negro em Perigo”. Mas o rapaz também não é infalível e já cometeu coisas como “Um Bom Ano”, “Até o Limite da Honra”, “Cruzada” e por aí vai. Infelizmente, apesar da expectativa e dos nomes envolvidos, O Conselheiro do Crime está mais para a leva de erros do que de acertos do cineasta.

Scott conseguiu reunir um elenco dos sonhos (Michael Fassbender, Javier Bardem, Brad Pitt, Cameron Diaz, Penélope Cruz), chamou um escritor cheio de respaldo para estrear seu primeiro roteiro escrito diretamente para o cinema (Cormac McCarthy) e, ainda assim, cagou tudo. “O Conselheiro do Crime” é um arremedo de filme que nunca empolga ou começa realmente. Não sabemos o que raio os personagens estão fazendo ali, qual é a merda do plano que está sendo executado ou mesmo o que dá de errado.

Entre cenas e mais cenas que estão mais para esquetes desconexos do que para uma narrativa bem estruturada, acompanhamos um elenco tão perdido quanto o público que o acompanha. Fassbender, de longe, está em seu pior momento. Bardem nem estereotipado consegue ser. Penélope Cruz está apagadíssima da vidíssima, enquanto Brad Pitt pouco faz e Cameron Diaz posa de bitch para fingir poder. Nenhum dos personagens desperta o menor interesse. Nenhum dos atores consegue se salvar diante de um roteiro sem pé nem cabeça nem da direção qualquer nota de Ridley Scott.

Infelizmente, “O Conselheiro do Crime” não explora nem mesmo o lado de esteta audiovisual de Scott. A produção é a mais genérica possível, seja na edição, fotografia e tudo mais. A beleza da mesma se resume aos leopardos que passeiam em algumas cenas. E o choque se resume apenas a uma cena (totalmente gratuita) de Cameron Diaz transando com um carro e Brad Pitt sendo degolado. Muito pouco para um cineasta que já teve tanto a dizer por meio de imagens e sons. Mal para um elenco que já demonstrou ser capaz de muito mais. Pior ainda para o público que acompanha tudo com uma expressão de puro tédio.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Cinema: Pílulas

 
Os Suspeitos: O novo trabalho de Denis Villeneuve (“Incêndios”) está longe de ser um filme perfeito graças a um roteiro que constrói toda uma estrutura narrativa desonesta para tentar fugir do maniqueísmo tão comum ao cinema comercial hollywoodiano. De um lado, a produção erra ao se apoiar demais nesse roteiro cheio de furos e reviravoltas milimetricamente calculadas, de outro, acerta graças a direção firme e tensa que Villeneuve emprega ao longa, amparado pela fotografia magistral de Roger Deakins e pelo elenco dos deuses liderado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal. Villeneuve e o elenco sabem conduzir com louvor os dilemas morais propostos pelo filme, empregando tensão e colocando o espectador em uma posição desconfortável. Mas todo esse esforço se perde um pouco diante desse roteiro amarradinho demais e propositalmente polêmico. De qualquer forma, Jackman e Gyllenhaal se entregam de corpo e alma a seus personagens e são os grandes responsáveis pela condução desse exercício de tensão que ganha pontos ao tentar fugir (mesmo que, às vezes, sem sucesso) de uma visão mais moralista.

Gravidade – “Gravidade” é o filme da vez, mas não é o melhor trabalho de Alfonso Cuarón, que fez longas mais complexos em “E Tua Mãe Também” e “Filhos da Esperança”. A maior qualidade desse novo trabalho do diretor é mesmo técnica, uma realização complicada que demonstra toda a capacidade visionária do diretor na tela grande. É um grande feito audiovisual que coloca todo seu peso na apreensão das imagens e dos sons que desfilam, muitas vezes sem cortes, diante dos olhos e ouvidos da plateia. Mas toda essa perfeição técnica, que resulta no melhor cinema que possamos esperar, não encontra mesma ressonância no roteiro, um fiapo de história que pisa muito forte no terreno do piegas e da redenção/superação. Nada contra. Mas, convenhamos, “Gravidade” pode ser um ótimo filme e entretenimento, mas está longe de ser um “2001, Uma Odisseia no Espaço”, produção a que ele é constantemente comparado. Mas essa é só minha opinião (sim, Sandra Bullock está muito bem, mas sua atuação de certa forma só reforça o pieguismo do filme; e George Clooney, charmoso e engraçadinho no espaço, não combina, ou pelo menos não deveria combinar, com a proposta do longa).

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Cinema: A Família

A Família é dessas típicas produções hollywoodianas que nem fede nem cheira. O filme nunca te surpreende, mas também não é nenhuma tragédia, ainda que seja um tanto decepcionante considerando os nomes envolvidos: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones. Cada um deles, da sua forma, cria certa expectativa. Mas, pena, o filme mal tira proveito dos três, todos meio que em piloto automático.

Dirigido de forma esquizofrênica por Luc Besson, que nunca se decide entre o tom de comédia de costume, comédia de humor negro ou filme de máfia violentíssimo, “A Família” começa, vai se desenrolando diante dos seus olhos, termina, mas nunca diz a que veio. Ora com cara de um arremedo genérico de produções como “Máfia no Divã”, ora parecendo um filme dirigido por um Guy Ritchie da segunda divisão, o longa é aquele produto que até diverte um pouco quem não for nada exigente, mas nunca realmente chega perto de cumprir o prometido.

Há algumas cenas que se destacam: Robert De Niro em um cineclube assistindo ao clássico “Os Bons Companheiros”; Michelle Pfeiffer colocando fogo em um mercadinho; ou a chegada dos gângsteres na cidade ao som de Gorillaz. Mas é isso, tudo sem grande impacto e perdido em meio a subtramas e mais subtramas desnecessárias: o problema hidráulico da casa, a paixonite que a filha (Dianna Agron) tem pelo professor substituto de matemática (lindo, diga-se de passagem), o livro que o personagem de De Niro está escrevendo. Tudo conectado da forma mais previsível possível em um roteiro qualquer nota que, às vezes, é salvo pela edição e por algumas boas sacadas visuais.

Em tempo, o filme é sobre uma família de mafiosos que dedurou seus chefes e agora pula de cidade em cidade sendo protegidos pelo FBI. Poderia ser um bom thriller, um bom drama, uma boa comédia sobre os quatro se adequando à nova realidade e costumes franceses (os franceses no filme, aliás, são todos o mais puro estereótipo), mas não é nada disso, é apenas mais um longa que vai entrar no catálogo do Netflix e ninguém vai se importar de assistir ou não assistir.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Cinema: Elysium

2013 prometia ser um bom ano para a ficção científica. Aguardados filmes novos de astros como Tom Cruise, Matt Damon e Will Smith. A continuação do reboot de Star Trek.  A nova empreitada geek de Guillermo del Toro. E Alfoson Cuarón reinventando o gênero. Um a um os filmes foram estreando e... decepção.

A nova produção de Tom Cruise, do diretor Joseph Kosinski (que cobriu de neon a continuação do clássico “Tron”), foi o primeiro a estrear e não disse a que veio. A bilheteria de Oblivion foi ok, as críticas idem e o filme logo caiu no esquecimento. O longa protagonizado por Will Smith não teve tanta sorte, e Depois da Terra foi cuspido pela crítica, bombando feio nas bilheterias e afundando de vez a carreira do cineasta M. Night Shyamalan.

Depois, tanto Star Trek, Além da Escuridão como Círculo de Fogo conseguiram alguns elogios, bilheterias razoáveis, mas deixaram a desejar em virtude das expectativas criadas. O primeiro mostrou mais uma vez a competência de JJ Abrams na condução da construção de uma nova mitologia para a celebrada série, mas ficou devendo em empolgação. O segundo era tido com uma tábua de salvação do cinema gigante dos dias de hoje, indústria, arte e conceito de mãos dadas, mas também ficou em cima do muro.

Nesse contexto desolador, o aguardado novo trabalho de Neill Blomkamp (que foi revelado ao mundo no ótimo “Distrito 9”, indicado, inclusive, ao Oscar de melhor filme) estreou e... mais uma decepção. A bilheteria não empolgou e as críticas não perdoaram a falta de ritmo e a profusão de clichês do roteiro.

A história segue a linha pobres x ricos, empregando certo cunho social à produção. De um lado, os pobres (todos com caras de latinos e falando espanhol) vivem em um planeta Terra arrasado e com cara de favelão. Do outro, os ricos (brancos, de olhos claros e falando francês) moram em Elysium, um satélite que habita a órbita da Terra e é livre de mazelas e doenças.

Em meio ao caos e desordem e alguns flashbacks bem clichês, somos apresentados ao personagem de Matt Damon, um ex-condenado que vira herói à força. No meio da história, ainda temos os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura, o mexicano Diego Luna, o sul-africano Sharlto Copley e a perdida Jodie Foster, todos com muito pouco a fazer perante a confusão do material.

Apesar da premissa inicial interessante e de algumas cenas de ação bem coreografadas e editadas, Elysium peca por nunca desenvolver a contento suas intenções. Blomkamp aposta em soluções fáceis e entrega uma metade final que vai abandonando as propostas inicialmente levantadas por um corre-corre mais do mesmo. O resultado não chega a ser uma tragédia, mas é bem aquém do nome dos envolvidos.

E a salvação está toda nos ombros de Alfonso Cuarón. Bastante elogiado pela crítica e com uma ótima campanha de marketing, Gravidade chega aos cinemas no início de outubro tentando limpar a barra do gênero ficção científica em um ano que prometia, mas ficou devendo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Cinema: terror x cinebiografia

Invocação do Mal: Filmes de terror costumam seguir fórmulas bem próprias. Nenhum problema, desde que elas estejam no lugar. Invocação do Mal parte de certa mistura de regras: de um lado, elementos presentes nas típicas produções de casa mal assombrada, de outro, as estratégias de longas sobre exorcismo. O caldo dá certo e o filme é um dos mais tensos em um mar de produções genéricas e sem muito a dizer (“Mama”, "Não tenha medo do escuro" e mais uma penca de outros exemplos).

Dirigido com precisão por James Wan (o cara responsável pelo aquele horror, no mal sentido, que é a série “Jogos Mortais”), o filme se apoia no ótimo desenho sonoro, coisa de suma importância em uma produção do gênero, e na estrutura e recursos narrativos que apostam na verossimilhança, até porque o longa é inspirado em fatos reais. De quebra, ainda temos um ótimo elenco liderado por Patrick Wilson e Vera Farmiga e com uma atuação emocional de Lily Taylor. Pode não ter o peso de um “O Exorcista”, mas tem força suficiente para deixar qualquer um tenso grudado na poltrona do cinema.

Lovelace: É uma pena que um tema tão fértil tenha rendido um filme tão em cima do muro. Não que “Lovelace” seja um longa ruim, mas flertando com temas polêmicos como indústria pornográfica e abuso físico e psicológico, o resultado final está longe de ser um Boogie Nights da vida, por exemplo.

O filme dos cineastas Rob Epstein e Jeffrey Friedman, mais acostumados à linguagem documental, traz um elenco recheado de subestrelas (Eric Roberts, Hank Azaria, Robert Patrick, Chloe Sevigny, James Franco, Adam Brody, Chris Noth, Wes Bentley e por aí vai) para narrar como Linda Boreman se tornou Linda Lovelace, protagonista do pornô de maior bilheteria da história.

A estrutura é até interessante: primeiro acompanhamos o estrelato de Lovelace, para depois voltarmos no tempo e vermos as mesmas cenas em outra perspectiva, mostrando como a atriz sofria com os abusos do marido (interpretado da forma mais maniqueísta possível por Peter Sarsgaard). A mãe (interpretada sem muita força por uma Sharon Stone bastante envelhecida) também desempenha papel importante na vida da atriz, já que, segundo a própria Lovelace, ela foi criada para obedecer ao marido.

Ainda que seja filmado sem muito impacto e desperte pouca empatia no espectador, o filme vale pela atuação carismática de Amanda Seyfried.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Seriado: Bates Motel

Demorei, demorei, mas me rendi e assisti, em ritmo de maratona, a primeira temporada de Bates Motel. A premissa é bem interessante: mostrar a relação entre Norman Bates e sua mãe Norma antes dos acontecimentos do clássico Psicose. Mas de premissas interessantes o inferno está cheio, e "Bates Motel" fica no meio do caminho entre ser uma curiosidade e uma completa bosta.

A série começa com a misteriosa morte do pai de Norman Bates (interpretado de modo correto por Freddie Highmore) para logo em seguida ele e sua mãe se mudarem para uma cidade pequena e comprarem um antigo hotel à beira da estrada. A partir daí, toda a ideia de que a série vai centrar o foco na relação um tanto incestuosa e de dependência entre Norman e sua mãe é deixada de lado para mostrar mortes, assassinatos, conspirações e um monte de subtramas que nunca empolgam.

"Bates Motel" já começa errado ao repetir o velho clichê de que toda cidade pequena é cheia de gente que esconde esqueletos no armário (coisa que David Lynch ou mesmo Jane Campion já fizerem com mais propriedade na clássica “Twin Peaks” e na recente “Top of the Lake”). Sem suspense ou terror, o seriado fica no meio termo entre o drama convencional e uma comédia involuntária. O elenco coadjuvante e a ambientação contemporânea (apesar de ser um prequel de “Psicose”, Bates tem iPhone e as preocupações de um adolescente dos dias de hoje) pouco acrescentam, e a série é salva pela interpretação tragicômica da ótima Vera Farmiga como a superprotetora Norma.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Cinema: Ferrugem e Osso

De gente fudida, o mundo está cheio. No cinema, não é muito diferente, e filmes de gente fudida que cruza a vida de mais gente fudida se transformaram quase em fórmula. A gente assiste a esse tipo de produção sempre em busca de alguma coisa, afinal, é mais fácil achar superação e redenção no cinema do que na vida real.

Na linha “é melhor ser fudido junto que sozinho”, Ferrugem e Osso é desses longas que chegam como uma voadora no peito. Sem muito alívio ou referências, somos apresentados a Alain (Matthias Schoenaerts) e Stéphanie (Marion Cotillard). Ele trabalha como segurança e não faz a menor ideia do que fazer com o filho de cinco anos. Ela é uma treinadora de baleias que perde as pernas e a vontade de viver em um acidente. Ambos têm algo em comum: são quase ímãs de tragédias pessoais. Eventualmente os dois se esbarram e acabam usando um ao outro em uma relação de dependência mútua (tem um nome lindo na biologia pra isso, mas não lembro qual é e nem vou atrás de saber).

Com um plot assim, não dá para esperar um filme feliz de “Ferrugem e Osso”. E Jacques Audiard (“O Profeta”) também não faz muita questão de minimizar a dor dos personagens (e consequentemente do público). O cineasta filma com elegância, usando câmeras lentas e uma fotografia que aposta sempre na luz do sol estourando para tentar tirar alguma beleza do vazio e desespero de seus personagens. Audiard também filma de uma forma que deixa a impressão que alguma merda está sempre prestes a acontecer. E elas acontecem.

Seja pelo ótimo desempenho dos atores ou carinho com que Audiard narra a história dessas duas almas perdidas (as cenas de sexo e luta são filmadas com a mesma intensidade e beleza), “Ferrugem e Osso” evita ser um longa extremamente desesperançoso, ainda que assuma ser pesado. Longe de ter um típico final feliz, o filme termina com uma lição: os fudidos também amam.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cinema: Frances Ha

A melhor coisa de Frances Ha, nova incursão do diretor Noah Baumbach (“A Lula e a Baleia”) na seara do cinema independente norte-americano, é mesmo a personagem que dá título ao filme. Frances Ha tem vinte e muitos anos, não tem muita grana, brinca de ser bailarina contemporânea nas horas vagas e circula pelas ruas de Nova York sempre com um sorriso no rosto. Ela é meio abobalhada, tem certo talento para se meter em situações constrangedoras e passeia por empregos, casas e casos sem se fixar a nenhum deles. Ou seja, segundo as normas da sociedade atual, precisa dar um rumo na vida.

É Frances Ha (interpretada de modo bastante carismático por Greta Gerwig) que dá vida a esse filme de Baumbach, que, para o bem e para o mal, poderia ser confundido com um episódio esticado da série cult-indie-moderninha do momento: “Gilrs”, com a vantagem da personagem (e atriz) ser bem menos chata do que a personagem (e atriz) de “Girls” (Lena Dunham).

Gerwig pode não ter uma dramaticidade a la Meryl Streep, mas empresta ao longa uma naturalidade que o distancia do mero exercício independente. É a atriz (e a personagem) que cola as cenas soltas e as situações esparsas que vão acontecendo ao longo de quase 90 minutos. Ela é o coração e a alma desse filme delicado e simpático, mas quase banal

Quanto à produção em si, Baumbach já fez melhor antes, mas, ainda assim, “Frances Ha” é um filme bem fácil de assistir. O roteiro cheio de saltos narrativos não atrapalha. Os diálogos são inteligentes e engraçados. A fotografia em preto & branco não se justifica, mas empresta certa aura nostálgica ao longa. A trilha sonora é bonitinha e está toda no lugar. E os coadjuvantes podem não ser grandes personagens, mas dão o suporte necessário para Frances/Greta brilhar. Pode ser pouco, mas também pode ser muito.

PS: a péssima projeção com o som baixíssimo da sala do Reserva Cultural não ajuda muito.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cinema: Passion

Apesar de já ter se arriscado por vários gêneros (ficção científica, filmes de máfia, ação, terror e até comédia), menino Brian De Palma fez seu nome dirigindo longas de suspense com uma pegada hitchcockiana ou thrillers com uma roupagem noir, talvez até uma mistura dos dois. “Vestida para Matar”, “Dublê de Corpo”, “Síndrome de Cain”, “Femme Fatale”, “A Dália Negra” e “Um Tiro na Noite” são alguns dos trabalhos que criaram a fama do diretor.

Sempre cuidadoso com as imagens e mestre em elaborar planos-sequência cheios de tensão, De Palma volta ao tipo de filme que o consagrou em Passion, remake de uma produção francesa, e caga tudo. Praticamente jogando a carreira no lixo, o cineasta desperdiça belas cenas e composições (a cena do balé é visualmente linda) em uma trama absurdamente sem pé nem cabeça e que descamba para a comédia involuntária.

Resumindo a coisa toda: é Rachel McAdams canastrona dando uns pegas na insossa Noomi Rapace em um longa que envolve inveja, vingança, paixão, publicidade, assassinato e mistério. Tudo isso jogado sem critérios em um liquidificar de autoplágio. Graças à trilha musical de quinta e um clima de filme ruim feito para TV, os lampejos de genialidade que menino De Palma demonstra em alguns momentos são desperdiçados em uma típica produção lesbian chic com cara de Supercine do mal. Lastimável e um tanto constrangedor, ainda que bonitinho de se ver.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bling Ring – A Gangue de Hollywood

Sofia Coppola filma o vazio e a futilidade como poucos. The Bling Ring não é diferente. A cineasta constrói belas cenas mostrando closets, casas suntuosas e filma sapatos, bolsas e roupas caras como se fossem um personagem a mais em seu novo filme. A produção narra a história de um grupo de jovens riquinhos em Los Angeles. Sem nada para fazer, eles invadem a casa de celebridades para experimentar e roubar de um mundo que não é o deles, apesar deles o conhecerem como se fosse.
A história parece absurda para nós brasileiros, que raramente deixamos a casa vazia com portas abertas ou chaves debaixo do carpete. Mas, em Los Angeles, as coisas são diferentes, tanto que o longa é inspirado em uma história real.
 
Realidade ou ficção, Coppola parte de um ponto senso comum e chega a uma conclusão um tanto óbvia em seu novo trabalho: a juventude de hoje é oca, preocupada demais com aparência, marcas ostensivas e um mundo de celebridades onipresente, ainda que longe de realidade da maioria de nós meros mortais. Os jovens do universo retratado por Coppola não largam o smartphone, andam como se estivessem em desfiles de moda e são donos de uma arrogância típica da juventude. Não sabemos o que os move, e a diretora também não parece muito preocupada em desvendar suas razões.
Sendo assim, “The Bling Ring” começa de modo interessante, trocando a típica paisagem sonora Sofia Coppola de ser (composta pelo som etéreo do Air e Phoenix) pelo hip hop de Kayne West, Frank Ocean, M.I.A, Azealia Banks e Chris Brown, o som que representa essa nova geração hiperbólica. A empolgação e a vibração do início, porém, vão perdendo o brilho na medida em que o deslumbramento inicial das invasões vira rotina dentro de um roteiro que não tem muito a dizer (e quando tem, é apenas o básico).
 
Os comentários da cineasta até existem e permeiam o filme por meio de entrevistas com os jovens envolvidos nas invasões e nos roubos. Eles, no entanto, são um tanto desnecessários e acrescentam pouco à dinâmica da produção, apenas emperrando o ritmo de um longa que flerta mais com a velocidade de informações que nos bombardeiam hoje do que com a contemplação dos trabalhos anteriores da diretora. O vazio narrativo de Sofia dá lugar a um vazio de significados. Não deixa de ser um caminho diferente escolhido por ela, ainda que a temática (juventude, vazio, banalidade) e a ambientação (Los Angeles) sejam comuns à filmografia da cineasta.
“The Bling Ring” pode não ser um grande trabalho, mas é um filme divertido, bem filmado e com um bom elenco jovem de rostos desconhecidos (exceção de Emma Watson e Taissa Farmiga). É quase Coppola flertando com a comédia, ainda que o riso surja menos por meio de situações e mais de um olhar irônico sobre a coisa toda. Mas falta algo: talvez uma compaixão maior da diretora pelos próprios personagens ou mesmo um olhar sem tantos julgamentos.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Cinema: Círculo de Fogo

É, acho que no fundo eu tenho um pé na nerdice. Nada em Círculo de Fogo me deixou empolgado antes de sua estreia: nem o trailer, os cartazes ou a direção de Guillermo Del Toro. Aliás, toda a campanha “ui que geek!” só me deixou com preguiça de assistir ao filme, e minha expectativa era zero. Mas a verdade é que o longa é muito, muito divertido.
Sim, a produção está longe de ser perfeita, e algumas opções de Del Toro podem até ser entendidas, mas não deixam de ser um tanto frustrantes. A fotografia é escura demais; o típico tom ufanista do cinemão hollywoodiano marca presença; a destruição é em massa, mas é tudo limpinho demais, não se vê mortes ou sangue. Normal, mas frustrante sim.

Mas a preocupação de Del Toro não é subverter um gênero ou virar paradigma, e sim entregar um puta filme de aventura, ação e destruição em escala épica, o que ele faz com certo louvor. Está certo que os personagens são sofríveis, os diálogos, rasteiros e o humor válvula de escape raramente funciona (os dois cientistas são bem chatinhos). Mas as batalhas são épicas, a trilha sonora encontra o tom certo entre a grandiosidade e o sentimentalismo, e o ritmo é bem correto e não deixa aquela sensação cada vez mais comuns em filmes de ação que a porra toda poderia ser bem mais curta.

O visual do filme também é bem interessante, no que diz respeito à direção de arte (Hong Kong é totalmente chupada de “Blade Runner”) e ao colorido neon que, às vezes, domina a fotografia. Os robôs gigantes impressionam (eles são pesados e sua movimentação é bem real), já os monstros nem tanto (sim, culpa da fotografia escura que não mostra muitos detalhes e os deixa com caras de esboços incompletos).

Um dos maiores problemas de “Círculo de Fogo”, no entanto, nem são os personagens marcados para morrer ou vencer desde o início do filme, mas sim a própria construção de sua mitologia, entregue em um início bem didático e preguiçoso em voz off. Mas se o longa não inova em termos de estrutura ou mesmo efeitos, pelo menos Del Toro sabe focar no que o filme tem de melhor: as lutas grandiosas e seu potencial para a diversão. E sem direito a gancho chato para a continuação. Imperfeito sim, mas entretenimento e dos bons.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cinema: Wolverine - Imortal

Houve uma época em que filmes de super-heróis eram raros e especiais. Hoje, são uma praga, lançados de todos os jeitos, com todo tipo de orçamento e para todos os nichos de mercados. Tornaram-se tão corriqueiros quanto banais. Em outra época, Wolverine – Imortal seria até interessante, mas, em pleno 2013, é qualquer coisa que se situa no limbo entre uma bomba como “Elektra” e uma maravilha como “X-Men: Primeira Classe”.

O filme de James Mangold é tão genérico que nada se sobressai. É tudo tão formulaico e sem apelo que pode não ser uma tragédia, mas também está longe de fazer jus ao herói, simplesmente um dos membros mais interessantes (e agora desgastados) dos X-Men. Hugh Jackman, talvez, seja a única razão para se assistir a esse filme. Ele interpreta Logan/Wolverine com a mesma garra e vontade dos tempos do primeiro X-Men, mas o esforço do ator não se justifica graças a um roteiro nada empolgante e um monte de tentativas de piadas sem graça.

A questão nem é se o longa é fiel ou não aos quadrinhos, mas sim a quantidade de caminhos que ele poderia seguir e não segue. A falta de carisma dos vilões e a previsibilidade da trama também não ajudam (a mutante loirinha lembra, e muito, a Erva Venenosa do horroroso “Batman & Robin”; e a suposta reviravolta final é bem óbvia).

Mas enfim, olhando pelo lado positivo, se o 3D do filme não vale a pena, se a produção está longe de ser arrebatadora em termos estéticos e/ou narrativos, e se Hugh Jackman parece ser o único que realmente se importa com tudo que está acontecendo à sua volta, pelo menos uma coisa vale o preço do ingresso: a cena-surpresa depois dos créditos abre caminho para o próximo filme dos X-Men e deixa os fãs babando e torcendo para que Hollywood não cague uma das melhores tramas dos mutantes: a clássica Dias de um Futuro Esquecido. Não nos decepcione, Bryan Singer!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Listas: 10 ábuns - parte II

Pulando todo o blá blá blá que já escrevi aqui, vamos logo para a segunda parte da lista.

The Globe Sessions: Da minha fase cantoras, Sheryl Crow ainda é uma das poucas que ainda escuto, e o terceiro álbum da artista é o que mais gosto. Depois de bons discos com ótimas músicas perdidas em um todo um tanto irregular, a cantora chegou ou ápice nesse trabalho, que ganhou Grammy e tudo. Com uma pegada cheia de guitarras e mais roqueira que os discos anteriores, Crow mostra todo seu talento musical em faixas como “Riverwide”, “It Don´t Hurt”, “Am I Getting Throught (Part I & II), “The Difficult Kind” e no resto do álbum inteiro, na verdade. “Anything But Down” traz uma letra linda e “Crash and Burn” é uma porrada de melancolia.

OK Computer: O melhor show da minha vida foi um do Radiohead, dono também do álbum mais triste de todos os tempos da existência terrestre. Peguei o OK Computer emprestado de um namorado uma vez e, quando cheguei em casa, meu quarto tinha sido pintado de azul. Até hoje, toda vez que escuto o disco, me lembro da sensação de colocar o CD no aparelho de som e ouvi-lo em meio aquelas paredes azuladas. O álbum é uma sequência de porradas, uma atrás da outra, sem descanso. “Paranoid Android” é a música símbolo do disco e está muito bem acompanhada de “Karma Police”, “No Surprises”, “Lucky, “Climbing up the Walls” e “The Tourist”. Como se não bastasse ter marcado a minha vida com “Let Down” e ser a trilha sonora eterna daquelas paredes azuis, OK Computer ainda revolucionou, de quebra, o mundo da música.

The Last Broadcast: O Doves não é nenhum Radiohead, convenhamos, mas é uma das minhas bandas preferidas. Esse segundo álbum dos ingleses é uma coisa de climático, triste e poderoso. Se revezando entre canções com uma pegada mais pop (“Words” é uma delícia; “Pounding” é bem pulante; e “There Goes the Fear Again” traz a participação de uma bateria de escola de samba) e outras com um tom mais melancólico (“N.Y”, “Satellites” e “Caught by the River” são do caralho de boas), “The Last Broadcast” é Doves no auge da criatividade e talento, ainda que eles não estejam fazendo nada de musicalmente novo. Ouça com atenção a bela “The Sulphur Man”.

Frengers: Infelizmente, o Mew ainda é (e talvez sempre seja) uma banda bem desconhecida. Pouco importa. Os rapazes lá da Dinamarca conseguiram a perfeição em “Frengers”, um dos álbuns com as frases soltas e versos mais fodas do pop: “Don´t you Just Love goodbyes?”; “I´ll find you somewhere/ Show you how much I care”; “Why are we so alone/ Even with company?; “A nice way I think/ to wake up with you/ It's a nice way/ I'm separating from you”; “I Have simple Decided/ to Dislike younow”; e por aí vai. Como se não bastasse as letra das canções, Frengers traz vocais delicados e arranjos e melodias surpreendentes.

Long Gone Before Daylight: The Cardigans sumiu e nunca mais apareceu, mas continua com lugarzinho marcado no meu coração. Taxada de banda cute, fofa, pop, em “Long Gone Before Daylight”, o grupo sueco aposta em uma sonoridade e ambientação mais madura e menos “Love me/Love me/ Say that You Love me”. O resultado é um álbum redondinho e lindo de se ouvir em sequência, detrás pra frente, de ponta cabeça, sozinho ou acompanhado. Couldn´t Care Less” e “And Then You Kissed Me” são dois socos no estômago; “Live and Lear” e “Please Sister” são uma graça e “For What It´s Worth” é pop puro.

Bônus: Ain, 10 é muito pouco, né. Não poderia deixar de citar pelo menos mais cinco álbuns: If You Feeling Sinister, do Belle & Sebastian, é toda minha essência musical, um resumo de mim mesmo; Parachutes, do Coldplay, segue a mesma linha. Hoje a banda meio que se perdeu, mas a estreia deles é foda e “Shiver” está em todas as coletâneas possíveis e imagináveis da minha vida; Sea Change, do Beck, é apenas foda, e isso já basta; High Violet, do The National, traz uma série de canções lindas e tristes marcadas pela voz de veludo do vocalista Matt Berninger; Listen Without Prejudice, da tia George Michael, é um dos melhores álbuns pop, cheio de canções maravilhosas e marcantes. “Freedom 90” é uma das clássicas da vida.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Listas: 10 álbuns - parte I

Outro dia contei em algumas redes sociais algumas informações musicais importantes sobre mim. Eu disse que quando era criança/adolescente ouvia basicamente A-ha, Duran Duran, Depeche Mode, Madonna e U2. Eu e meu irmão mais velho tínhamos alguns vinis deles em casa, e era isso que sempre rolava nas vitrolas (quando meu pai não estava ouvindo Altemar Dutra ou Nelson Gonçalves).

Disse ainda que os dois primeiros CDs que comprei foram um do George Michael (Listen Without Prejudice) e um da Sinnead O´Connor (I Do Not Want What I Haven´t Got). Hoje é raríssimo eu comprar CDs, mas ainda guardo os dois.

Para completar, confessei que nunca tinha sido fã dos Pixies; não gostava/gosto nada do Sonic Youth; morro de preguiça eterna do Pavement; nunca me importei ou me importarei com o Arctic Monkeys; tentei, sem sucesso, gostar do Vampire Weekend; e tenho vontade nenhuma de assistir a um show do Weezer.

Repetições de informações à parte, a verdade é que, para o bem ou para o mal, todo mundo tem informações musicais importante sobre você mesmo para compartilhar. Algumas pessoas (como eu) levam demasiadamente a sério essas informações; outras preferem focar em outras coisas e deixam de lado questões de gosto musicais. Eu não consigo. Música faz parte do meu dia a dia, da minha vida, da minha história; ela baliza minhas amizades e me ajudam a contar meus relacionamentos, alegrias e decepções.

Nada melhor então do que descobrir os gostos musicais daquela pessoa nova que entra na sua vida, ou gravar CDs ou mixtapes com novidades e canções que você gosta para sair distribuindo entre os amigos.
Como o site internet está aí para acabar com as surpresas da vida, fiz toda essa longa introdução para brincar um pouco de Rob Fleming e listar os 10 álbuns que fizeram/fazem parte da minha vida. Não, não são os 10 melhores álbuns ever, são apenas discos que eu muito escutei/escuto/escutarei e revelam por demais sobre minha pessoa (e não existe uma ordem também, não!).

Like a Prayer: Sim, sou gay, então tinha que ter Madonna na lista. Esse nem foi o primeiro vinil dela que comprei (isso cabe ao True Blue), mas, na minha humilde opinião, é o melhor de todos. Foi a partir desse álbum que Madonna começou a deixar de lado a imagem de mera cantora pop e enveredou pelas polêmicas de modo mais agressivo. Redondinho e com um ar pop ainda livre das influências eletrônicas que pululariam nos anos 90 em diante, o álbum traz pérolas como “Express Yourself”, “Like a Prayer”, “Cheerish”, “Spanish Eyes”, “Keep it Together”, “Oh Father” e por aí vai. Melhor música: a triste e fodona “Promise to Try”.

Scoundrel Days: Antes de cair no esquecimento, o A-ha começou muito bem, obrigado. O segundo álbum da banda que veio lá da Noruega para conquistar o mundo e os meus ouvidos é o meu preferido deles. Com um som mais maduro, melancólico e sombrio para um grupo que no primeiro disco parecia que seria só “popão”, o álbum aposta no vocal do Morten Harket (gato), que se esforça na melancolia nas lindas “Scoundrel Days”, “Manhattan Skyline”, “I´ve bee losing you”, “Soft Rains of April”, “The Weight of the Wind” e na melhor: “The Swing of Things”. Típico álbum que não consigo ouvir sem me lembrar de como era ser adolescente e colocar o bolachão para girar na vitrola.

The Joshua Tree: O U2 está aí há tanto tempo e já mudou seu som tantas vezes que, hoje, eles sofrem por certo desgaste. Coxinhas ou a maior banda da atualidade ou não, em The Joshua Tree, eles chegaram à perfeição. Um dos poucos álbuns que escuto de cabo a rabo sem reclamar, sem pular faixa, sofrendo em cada canção. “Where the Streets Have no Name” me faz querer correr em slow motion como se estivesse em um videoclipe; “I Still Haven´t Found What I´m Looking For” me faz acreditar no que ainda está por vir; “With or Without” é tipo um hino; “Running To Stand Still” e “Mothers of the Disappered” são fodas pra caralho de triste; e “One Tree Hill” me faz apenas chorar de felicidade.

Violator: Como se não bastasse ter a música mais foda ever de todos os tempos: “Enjoy the Silence”, esse disco do Depeche Mode ainda tem “Personal Jesus”, “Policy of Truth”, “World in My Eyes”, “Sweetest Perfection”... Não precisa explicar muito.

Jagged Little Pill: O tempo e a indústria fonográfica não perdoam mesmo, e, hoje, Alanis Morissette vive mais das glórias do passado do que de sua produção musical atual. Mas, lá em 1995, a coisa era outra e só dava a moça. Eu, a beira de completar 20 anos, ganhei esse disco de presente de aniversário na firma e me encantei com a fúria das letras das canções e com os vocais raivosos da cantora. Hoje, quase 20 anos depois do lançamento de Jagged Little Pill, ainda escuto o álbum como se fosse um jovem dando tchau para a adolescência. Apesar do sucesso cavalar de músicas como “You Oughta Know”, “You Learn”, “Hand In My Pocket”, “Head Over Feet” e “Ironic”, seguindo minha tendência de sempre gostar das músicas mais tristes e melancólicas, minhas preferidas continuam sendo “Perfect”, “Mary Jane” e “Forgiven”.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Cinema: O Homem de Aço

O ser humano é uma raça que se apega. Nos apegamos a pessoas, músicas, bandas, séries, filmes, roupas, objetos materiais etc etc etc. E também nos apegamos a mitologias. Então se você está passeando pela casa dos 30 ou é mais velho e assistiu a “Superman – O Filme”, de Richard Donner, nos cinemas, na Sessão da Tarde ou em uma fita de vídeo qualquer, vai ser mais difícil engolir O Homem de Aço, releitura do herói da DC feita pelo diretor Zack Synder (do ótimo remake de “Madrugada dos Mortos” e do horroroso “Sucker Punch”) e pelo produtor Christopher Nolan (diretor da nova trilogia do Batman).
 
A culpa não é de Synder, nem de Nolan e muito menos de Henry Cavill, a melhor coisa desse novo filme. A culpa é do nosso imaginário, do casamento perfeito entre as cores, o tom cômico e fantasioso do longa de Donner, da trilha sonora perfeita de John Williams e de um Christopher Reeve em uma atuação icônica quase impossível de não tomar como referência. Partindo daí, o esforço e a competência do diretor, do produtor e do novo astro que encarna o maior de todos os heróis são dignos de nota e merecem reverência, mas se empalidecem diante de uma obra anterior que é muito mais do que um filme, é história cinematográfica, a tradução perfeita de um herói dos quadrinhos para o universo bidimensional da tela grande.
Não há como negar que “O Homem de Aço” é uma produção caprichada, com um puta desenho de som, direção de arte e fotografia deslumbrantes (algumas cenas e tomadas de voo são de uma beleza plástica impressionantes) e efeitos especiais que convencem e impressionam (do Super-Homem voando à destruição em massa que acompanhamos no ato final - muito parecidinha e limpinha com o final de "Os Vingadores", aliás). Mas, narrativamente, a nova releitura do Super-Homem carece da magia presente nos filmes anteriores (pelo menos dos dois primeiros).
 
A história é basicamente a mesma. Os elementos estão todos lá: a morte de Krypton, os pais terráqueos de Clark Kent (bem defendidos por Kevin Costner e Diane Lane), os superpoderes do adolescente que não se encaixa no mundo preconceituoso da Terra, o pai presente em espectro, o uniforme vermelho e azul, a jornalista encrenqueira que serve como amiga e interesse romântico do herói (Amy Adams retratando uma Lois Lane menos passiva) e tudo mais. Tudo no lugar, mas falta algo.
A nova visão do super-herói arquitetada por Synder e Nolan peca pela pretensão. Tudo grita grandiloquência. A representação é épica. Os dramas são trágicos. O diretor e produtor diminuem as cores, agora mais sóbrias e melancólicas, e aumentam a escala, o som e a dor. O longa ganha então uma abordagem mais filosófica, religiosa e sombria e perde um  tom escapista que faz falta. O humor é quase raro e pouco funciona. A mão pesada de Synder (com supervisão da mão pesada de Nolan) deixa a pretensão épica do longa ainda mais evidente. Mas, ainda assim, é uma nova visão interessante sobre um personagem que já está enraizado demais em nossa imaginação.
 
Entre mudanças sutis na dinâmica da trajetória do herói (Lois Lane sabe desde o início que Clark e o Super-Homem são a mesma pessoa, por exemplo) e um primeiro ato que quase coloca tudo a perder (a parte kryptoniana do filme é um horror em termos de encenação, só não sendo um total desperdício graças ao embate de atuações entre Russell Crowe e Michael Shannon), é mesmo Henry Cavill a grande força de “O Homem de Aço”.
Lindo, encorpado, bom ator e, além de tudo, carismático, Henry Cavill (que já fez filme com Woody Allen e tudo) é o grande responsável por dar humanidade à visão ambiciosa e pesada do diretor e dos produtores. Sem o sorriso ingênuo e o olhar emocional do ator, “O Homem de Aço” seria apenas mais um blockbuster barulhento na multidão. E o filme é até isso, mas, mesmo tendo muitas falhas, tenta também ir além. Seu maior problema, na verdade, é porque, para toda uma geração, não há como desapegar e assisti-lo sem colocar sua própria existência em perspectiva.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Série: In The Flesh

Em um mundo empestado por zumbis na televisão, cinema, HQs, literatura e tudo mais, é um alívio ver um produto novo desse subgênero com uma abordagem diferente. Em In The Flesh, seriado interessantíssimo da BBC de apenas três episódios, os zumbis funcionam como uma metáfora das minorias de sempre. Eles não foram infectados por vírus ou se transformaram graças a uma mordida. Eles são pessoas que morreram e levantaram na tumba no dia da Ascensão. Depois de medicados, os zumbis (ou pessoas que sofrem de paralisia parcial do cérebro, no modo politicamente correto) são reintegrados à sociedade. Eles são filhos, pais, mães e amigos. E aí começa o drama do seriado.

“In The Flesh” segue essa reintegração a partir da volta de um adolescente melancólico à casa dos pais em uma cidade do interior da Inglaterra. Kieren é bem recebido pelos pais ansiosos em revê-lo depois de uma morte trágica, mas rejeitado pela irmã mais nova. A cidade também não está satisfeita com a reintegração dos mortos-vivos ao convívio social e brada em alto e bom som, em reuniões na igreja, que eles são demônios e não filhos de Deus. Política, religião e preconceito entram então na roda de discussão do seriado. Como gays, negros, latinos, pobres, portadores de doenças e outras minorias, os zumbis sentem na pele (coberta por maquiagem e lentes de contato para minimizar o impacto visual de sua condição) o medo que temos do diferente.
A chave de “In The Flesh” é então o drama, e não o terror e o suspense. A série está mais preocupada com o preconceito e as implicações que ele causa do que com o medo de zumbis que andam se arrastando e estão famintos por cérebros. É a culpa de Kieran em ter matado para “sobreviver”, antes de começar a receber a medicação, que está no centro do seriado. É a cegueira de um pai que discrimina e mata os zumbis, mas não consegue enxergar que seu filho é um deles que impulsiona a série.

Mesmo redondinha e fechada, “In The Flesh” deixa uma série de portas abertas para uma nova temporada. Assim como alguns mutantes em X-Men ou os vampiros de True Blood, o seriado apenas pincela a ideia de que alguns zumbis se consideram uma evolução da espécie humana e matar humanos está mesmo na essência deles, sendo contrários à aplicação dos remédios que os mantêm controlados. Se a série realmente sobreviver, seria uma ótima aposta de continuidade da trama.